OPINIÃO: Sou incontinente urinário. E agora?

José Ramos, 70 anos, Médico de Família

O que é incontinência urinária (iu)? É a incapacidade de controlar o  esvaziamento da bexiga e de aguardar pelo momento e o lugar adequado para o fazer – Assim, diz-se também que uma pessoa tem iu quando há perda involuntária de urina.

Esta perda faz-se através do esfíncter (músculo) urinário, atinge ambos os géneros, mas, sobretudo, as mulheres, estimando-se que, em todo mundo, haja mais de 60 milhões. Em Portugal, calcula-se que mais de 600 mil pessoas (homens e mulheres) padeçam de iu, o que ocasiona, além de grande desconforto e embaraço físico, psíquico e social, custos económicos.

Há várias formas de incontinência urinária e os sinais e sintomas relacionados com a perda de urina levam-nos a pensar qual é o tipo e as razões de aparecer em crianças e adultos de ambos os sexos.

Por exemplo, a enurese noturna (perda de urina à noite) é uma forma de incontinência que aparece, sobretudo, na criança e que tende a desaparecer à medida que esta vai crescendo e se desenvolvendo, quer física quer psicologicamente, não havendo, na grande maioria dos casos, nenhuma causa orgânica a tratar.

Há medicamentos específicos para minimizar a enurese, mas atitudes de compreensão, paciência, atenção e, sobretudo, ternura por parte dos pais são essenciais na sua resolução.

Nos adultos, geralmente, podemos ter vários tipos de incontinência urinária: Devido a um esforço esta disfunção surge, por exemplo, nos casos de gravidez, na obesidade, a fazer exercícios (por exemplo, saltar à corda, correr), a rir, tossir, espirrar, mas também ocasionada por doenças neurológicas, pela fraqueza dos músculos do esfíncter da uretra e da bexiga e ainda devido aos desequilíbrios hormonais da mulher aquando da menopausa. Este tipo de iu só tem resolução, muitas vezes, com a cirurgia, mas também com o emagrecimento, com exercícios físicos, principalmente, os de estimulação dos músculos pélvicos.

Também por imperiosidade, isto é, a perda de urina que é acompanhada de uma vontade forte e urgente de urinar que não se consegue controlar. Aparece quando, por exemplo, a pessoa está a chegar a casa ou no trabalho, não tendo tempo de chegar ao WC, ou ainda levantar-se muitas vezes durante a noite para urinar (normalmente, neste tipo de iu, as pessoas vão à casa de banho cerca de seis ou mais vezes), ou acontece urinar sem mesmo ter vontade quando muda simplesmente de posição na cama (pode ser ocasionado por variadíssimas causas, como por exemplo, uma obstrução da uretra causada por um aumento da próstata, por tumores ou mesmo por uma infeção urinária), sendo que há medicamentos que atuam muito bem nestas situações.

Há ainda incontinência mista, isto é, para além da imperiosidade, há associada iu de esforço, podendo estar relacionada com um aumento do relaxamento dos músculos do períneo e também por uma hiperatividade dos músculos da bexiga, estando indicado para resolução deste tipo de iu tratamento médico e, muitas vezes, cirúrgico.

Não raramente, a incontinência urinária aparece nas mulheres jovens atletas, nomeadamente, naquelas com prática desportiva de alto impacto, de grande esforço físico e de grande frequência e com exercícios muito repetitivos que ocasionam grande aumento da pressão intra-abdominal, como são os casos dos desportos – halterofilismo, basquetebol, voleibol, trampolim e atletismo. Nestes casos, é importantíssimo prevenir o aparecimento deste tipo de iu, nomeadamente, com exercícios de contração e relaxamento dirigidos aos músculos do pavimento pélvico, mas também efetuar o tratamento causal, se necessário.

O controlo de alguma doença subjacente, o emagrecimento, o evitar bebidas gaseificadas, alcoólicas, café e a diminuição da ingestão de líquidos à noite, melhoram substancialmente alguns tipos de incontinência urinária.

Nos casos de iu que surgem repentinamente, ou mesmo aquelas que acontecem esporadicamente (de forma muito ligeira e rara) e vão aumentando gradativamente, deve-se procurar o médico de família e/ou urologista para que se possa diagnosticar e tratar e, assim, resolver a situação que, para além de ser incómoda, poderá ser um sintoma de uma patologia grave.

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