EXPLICA SAÚDE: Lombrigas e outros agentes infeciosos

José Ramos, 70 anos, Médico de Família

Estes parasitas são organismos que sobrevivem infetando outros seres vivos, incluindo o homem. Os principais agentes capazes de causar doença no ser humano são os helmintas (vermes parasitas) e os protozoários, como por exemplo a ameba e a giardia.

Estes parasitas intestinais infestam, na maior parte dos casos, todo o aparelho digestivo. Podem viver em todo o corpo, mas a maioria prefere a parede dos intestinos. As formas de contágio incluem a absorção pela pele e a ingestão de água contaminada, carne ou peixe mal cozinhados.

Efetivamente, mais de 50 milhões de pessoas em diferentes regiões do mundo estão infestadas por helmintas. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera muito importante a erradicação dos helmintas a fim de  melhorar a saúde, nomeadamente nas crianças.

De facto, as crianças são as mais afetadas, devido à doença ser altamente contagiosa e há que tomar precauções, senão toda a família será certamente infestada.

As medidas de higiene e prevenção são fundamentais e muito importantes:

  • Evitar vestir roupas de amigos ou de familiares;
  • Mudar regularmente a roupa da cama e lavá-la sempre em água quente;
  • Lavar as mãos depois de utilizar o WC, antes de comer, antes de preparar os alimentos e depois de brincar com os animais domésticos;
  • Lavar sempre os frutos, saladas e vegetais;
  • Evitar comer carne crua e/ou mal passada. Cuidados onde come o sushi – O sushi é bastante rico nutricionalmente, quase sem gorduras e com elevada taxa de proteínas, vitaminas, minerais e ómega-3. É, de facto, bastante nutricional, mas pode deter alguns riscos para a saúde e é preciso ter isso em atenção porque pode existir alto teor de mercúrio nos peixes grandes como o atum, pode ocasionar reações alérgicas aos frutos do mar e, principalmente, haver contaminação por bactérias, helmintas, e outros agentes infecciosos no manuseamento do peixe cru.
  • Utilizar sempre a casa de banho para as necessidades fisiológicas;
  • Não andar descalço (alguns helmintas e outras parasitoses penetram no corpo através dos pés);
  • Nunca colocar os dedos na boca e manter as unhas curtas e limpas.

Em Portugal, as helmintíases (doenças causadas ou constituídas por vermes intestinais) com mais prevalência são:

  • Os ASCARIS LUMBRICOIDES (LOMBRIGAS) – podem atingir um tamanho de 30 cm, ocasionando cólicas, dores abdominais, febre e, por vezes, ainda se observam as lombrigas nas fezes. As larvas dos ascaris podem  penetrar na corrente sanguínea até aos pulmões, atingindo os alvéolos, os bronquíolos, brônquios, emigrando para a traqueia até à faringe.
  • A TAENIA SAGINATA – observam-se segmentos nas fezes após o desenvolvimento do verme adulto no intestino humano, nomeadamente se come carne ou peixe mal passado. Os ovos vindos das fezes humanas  passam para o intestino da vaca, transformam-se em cisticercos que, depois, vão ser ingeridos pelo ser humano. O verme adulto pode ter uma cabeça com cerca de 2 cm e pode medir cerca de 10 metros.
  • ANCILOSTOMA DUODENAL E NECATOR AMERICANUS – tem maior prevalência na criança, ocasionando inflamação da pele entre os dedos dos pés. A criança tem sensação dolorosa no epigastro (parte superior do abdómen), aliviando quando come. Há febre normalmente baixa, diminuição do apetite, anemia, astenia e  anorexia. Perda do apetite e, por vezes, náuseas e vómitos associados. Transtornos digestivos importantes como dificuldade em obrar e/ou diarreia podem acontecer.
  • OXIUROS – Estes parasitas ocasionam prurido intenso na região anal e peri anal, muitas vezes, devido a ser um verme com cerca de 1 cm penetram na vagina (nomeadamente nas crianças), ocasionando grande desconforto e comichão intensa.
  • TRICHURIS TRICHIURA – ocasiona a tricuríase. Este verme pode medir cerca de 5 cm de comprimento e tem uma frequência elevada, sendo a terceira infeção parasitária mais frequente em todo mundo, incluindo os EUA, com grande prevalência nas crianças, ocasionando desnutrição, anemia, febre, dores abdominais, náuseas, vómitos e perda de apetite. Esta infeção é disseminada pela via fecal – oral e acontece quando os ovos dos parasitas ingeridos eclodem e entram nas criptas do duodeno, dirigindo-se após 2 a 3 meses para o cólon.
  • STRONGILOIDES STERCORALIS – Após contaminação do solo pelas fezes, o homem, através dos alimentos, consome as larvas, que são deglutidas, entram na corrente sanguínea e vão para os pulmões. Apresentam  erupções cutâneas com intensa comichão. Por vezes, há diarreia, alternando com prisão de ventre. Devido a atingirem os pulmões, ocasionam tosse e não raramente expectoração hemoptoica (com sangue).

De seguida, vamos abordar mais três infeções intestinais muito frequentes e perigosas para o ser humano:

  • Giardíase

É uma infeção intestinal muito comum nos EUA, causada pelo protozoário flagelado Giardia Lamblia, atingindo crianças e adultos. A infeção pode ser assintomática ou provocar sintomas como flatulência e má absorção.

O diagnóstico é feito por meio da identificação do agente nas fezes ou do conteúdo duodenal, ou ainda por análise de antigénio de Giardia nas fezes. Calcula-se que cerca de 3,5 % das crianças na região norte de Portugal estejam infetadas.

A transmissão ocorre, habitualmente, pela ingestão de águas contaminadas, havendo, por vezes, surtos em infantários e centros de dia. Como tem a sua origem na água, o contágio pode ocorrer em rios, lagos, em águas provenientes de fontes municipais, piscinas e ainda no jacuzzi, sabendo-se que a giardia é resistente ao cloro. A contaminação também pode ocorrer através de alimentos e pelo contacto direto com pessoas infetadas. É, sem dúvida, mais frequente em crianças e em doentes com VIH/SIDA, fibrose quística e outras formas de imunodeficiência.

  • Fasciolíase

Fasciolíase é uma infeção causada pelo trematódeo, chamada de Fascíola Hepática, que contagia as pessoas quando ingerem agriões contaminados ou outras plantas aquáticas.

Estes parasitas são achatados e, dependendo da espécie de fascíola, infetam várias partes do corpo (vasos sanguíneos, intestinos, pulmões, fígado).

A fasciolíase humana adquirida pela ingestão de agrião contaminado ou por contacto com esterco de ovelha ou de gado bovino ocorre praticamente em todo mundo, sendo rara nos EUA.

Na infeção aguda, as larvas imaturas migram pela parede intestinal, cavidade peritoneal, cápsula e parênquima do fígado antes de entrarem nos ductos biliares, nos quais se tornam adultas em cerca de 3 a 4 meses, ocasionando eosinofilia (número elevado de glóbulos eosinófilos, que são um tipo de glóbulos brancos), dores abdominais, hepatomegalia (aumento do fígado), náuseas, vómitos, febre intermitente, urticária, mal-estar e emagrecimento intenso decorrente de lesão hepática.

A infeção aguda pode evoluir para uma situação muito grave, podendo causar colangite esclerosante (inflamação com cicatrização progressiva e estreitamento dos ductos biliares dentro e fora do fígado) e cirrose biliar, podendo ocorrer lesões ectópicas na parede do intestino, nos pulmões, ou noutros órgãos,  nomeadamente no fígado e faringe, provocando importante disfagia (dificuldade em engolir).

Esta infeção também pode evoluir para a cronicidade, podendo ser assintomática ou conduzir à dor abdominal intermitente, colelitíase (presença de um ou mais cálculos – pedras – dentro da vesícula biliar), colangite (infeção dos canais biliares), icterícia obstrutiva (coloração amarelada da pele e da parte branca do olho quando a causa pode ser a obstrução dos canais biliares) e/ou pancreatite (inflamação do pâncreas).

  • Amebíase

Todos os anos, mundialmente, cerca de 50 milhões de pessoas desenvolvem amebíase e destas, cerca de 100 mil morrem. Esta infeção tende a ser muito frequente em áreas onde as condições sanitárias sejam deficientes, tendo uma maior prevalência na África, na Índia e em zonas da América Central e do Sul.

É uma infeção que atinge o intestino grosso, fígado e outros órgãos e é causada pelo protozoário unicelular Entamoeba Histolítica, que pode ser transmitida de pessoa para pessoa, ou pelos alimentos e água.

As pessoas infetadas podem ser assintomáticas ou ter diarreia sanguinolenta, obstipação, cólicas abdominais, emagrecimento e febre.

Esta infeção pode ocasionar abcesso hepático (fígado) e/ou abcesso no intestino grosso. Mais raramente, as amebas podem atingir os pulmões ou o cérebro. A pele pode ficar igualmente infetada, especialmente ao redor das nádegas disseminadas por fezes contaminadas e úlceras no pênis e na boca, decorrentes de relação sexual anal ou sexo oral-anal com uma pessoa infetada.

A infeção inicia quando se ingerem os cistos da ameba, que podem ser transmitidos diretamente de pessoa para pessoa, ou de forma indireta pelos alimentos e pela água. Havendo más condições sanitárias, a infeção é adquirida pela ingestão de alimentos ou com água contaminada com fezes. As frutas e os legumes podem ser também contaminados quando crescem em terras fertilizadas com fezes humanas, ainda muito frequente em algumas regiões de Portugal.

Por fim, prevenir a contaminação de alimentos e da água com fezes humanas é essencial para prevenir a amebíase, a giardíase, a fasciolíase e as diversas helmintíases. Melhorar o saneamento básico em todas as regiões de Portugal (nomeadamente nas regiões rurais onde há maior deficit de saneamento básico) vai melhorar indiscutivelmente as condições de higiene e, assim, prevenir as infeções.

Ao viajar para alguns países de África, Ásia e também para alguns países da América do Sul e Central em que estas infeções são frequentes, deve-se evitar comer carne e peixe mal cozinhados e outros alimentos não cozidos (saladas, legumes, verduras, fruta) e evitar consumir água da torneira e gelo possivelmente contaminados. Filtrar a água e adicionar iodo e/ou cloro e ainda ferver a água destrói praticamente todos os agentes infecciosos.

Nunca se esqueça de lavar as mãos hoje e sempre com sabão e água abundante.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta