OPINIÃO: Ser o MEC do chinês é isto

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Nestas últimas semanas tenho sido uma espécie de Miguel Esteves Cardoso, mas do chinês. Sim, não existe melhor forma de cativar um leitor do que mencionar o melhor cronista em Portugal, sobretudo por ter consciência de que o restante conteúdo o fará arrepender-se da amarga decisão de prosseguir na leitura.

Passo já a explicar antes que especulem e me comecem a desenhar um mapa que me leve de volta ao bilhar grande. O Miguel é um excelente contador de momentos épicos enquanto ávido frequentador de restaurantes, como bem sabem, e não é ao acaso que aprendi mais com ele a reclamar por causa de cardápios, atendimentos e fisionomias piscatórias, do que quando estive a trabalhar em restauração. No fundo, o que falta aos cronistas em Portugal são mais histórias sobre esta grande questão, esta empírica problemática que afeta milhares de pessoas, do que propriamente sobre política. O que move o nosso país? Pois é, já diz o anúncio, e digo-o eu, que me interessa, verdadeiramente, saber se a dona Zulmira me regozijará o estômago com o melhor churrasco alguma vez saboreado.

A minha recente ida a restaurantes tem sido um enternecedor desafio, tanto que aprecio, em conversa, colocar o meu humor em prática quando vivencio esses peculiares momentos – sim, por vezes tenho de ir com ele aos treinos, senão desleixa-se e não há quem o aguente depois. Há quem leve a sua mente ao médico da cabeça, eu levo o meu humor aos treinos – e depois?

[A não esquecer que é com o riso que me torno baça em momentos constrangedores, sendo esta a receita para a minha sobrevivência até hoje.]

Tudo começou na Torreira. Um homem embriagado a olhar-nos atenciosamente, como que a perscrutar em mim uma maleita infindável e indescritível, perdão, equivoquei-me na palavra, quis antes dizer com um descaramento de psicopata, ou então estava a aperceber-se que era eu quem guardava a cura para o cancro, depois um almoço que tardou mas chegou, quem espera sempre alcança, olhe-se sempre para a perspetiva da coisa mesmo que a coisa se esteja a borrifar para a nossa ótica, uma funcionária que não fazia ideia do significado de ‘sal refinado’, é o que dá andar a ver demasiado Tio Jel, presumi logo que não era ela quem em casa tratava do IRS, ainda me estou a rir desta piada e já a fiz mentalmente há cerca de quinze minutos, mas, adiante, para fechar esta sessão, a cereja no topo do bolo foi termos esperado mais de 15 minutos, após termos almoçado, por alguém que nos viesse questionar sobre sobremesa, e interessa sublinhar que não havia mais ninguém a ser atendido, e todo este desleixo porque, ao que tudo indicou, a pessoa que nos estava a atender preferiu ir fumar um cigarrinho, com tranquilidade, até que um de nós lá se insurgiu a questionar sobre que ementa saborosa tinha ela para nos oferecer. Isto, na Torreira.

A maldição viria muito posteriormente.

Na penúltima experiência que vos tenho a revelar, estive mais de uma hora à espera de que a comida chegasse, mas também tudo isto porque não levámos a sério o que o funcionário nos disse de início, ao que parecia ser em tom de sua exímia graça. Santa inocência. Apesar de não me recordar com exatidão das suas palavras, a verdade é que ele tinha mandado uma espécie de recado a dizer-nos que não era hoje que seríamos servidos. Algo do género. Tão simpático. Tão gentil. Tão antecipado que ele era… e nós felizes com o comentário tão engraçado. Na minha mesa foi proclamado um cachorro, duas francesinhas e, no meu caso, um bife panado, que, ao que tudo indicava, conforme o cardápio cheio de Photoshop, com o acompanhamento de arroz, batatas fritas e salada. A menina lá me trouxe o prato, depois dos meus amigos. Um belo prato com o bife, as batatas fritas e o arroz. O arroz, entretanto, desde a cozinha até à mesa, esfriou. Aliás, constipou-se o pobre coitado, tanto que azedou. A salada, perguntam vocês e muito bem, nem vê-la. A menina disse que me trazia, não trouxe, rapidamente fiquei murcha, tanto quanto a alface, que deve ter ficado em linha de espera, num canto, solitária e tristonha por não ter sido convocada.

Hoje, na Régua. Após diversas tentativas de encontrarmos um local que não estivesse à pinha, com a quantidade de três equipas de futebol à nossa frente para serem atendidas, vultos que nunca mais acabavam, acho que nunca recebi tantas negas num só dia para ser sincera, eis que um lugar mais contido nos reservava uma esperança. Assim que chegámos, fomos logo abordados por aquele que batizámos como o melhor relações-públicas que Portugal tem, aliás, tem de ser ele o melhor, não me venham com bagatelas que dispensamos. Nem dez segundos levou para ele nos abordar, ainda eu estava a pousar o sapato no chão, meus caros!

É para almoçar, dizia ele, com o corpo elétrico, com um dress code de velho agricultor que tinha acabado de colher uns legumes para os despachar no seu restaurante, São cinco pessoas, podem vir comigo, e nós todos sôfregos seguimos o homem para dentro do restaurante. Sentámo-nos numa mesa e esperámos.

Esperámos. Esperámos (não tanto como na vez anterior). Já disse que esperámos? Ah, sim, mas como eu estava a dizer, esperámos, até que a senhora nos pergunta quantos éramos, vai-se embora, demora-se a retornar, apetrechada de azeitonas, pão e salpicão empalitado, nós perguntamos, antes que ela se esgueirasse num ápice, o que é que tinha para comer, ela não sabia, voltou para trás, veio e perguntámos os preços e ela foi assombrada por uma névoa impenetrável, voltou para trás, veio, perguntou o que bebíamos, trouxe as bebidas, com exceção do vinho, que depois a avisaram que se estava a esquecer dele, ela trouxe. Nisto, durante este sketch humorístico, cerca de 6 pessoas estavam para entrar, aguardando que eles lá lhes arranjassem a mesa e a compusessem para eles, e foi algo também incrível, já que a mulher andava impaciente de um lado para o outro, à espera, às tantas o homem dela já se andava também a passar, tendo ameaçado que se ia embora, mas a mulher não deixou, então ele tomou as rédeas da reclamação, enquanto tinha a mulher no recanto a dizer-lhe para se acalmar, os filhos a perder peso enquanto aguardavam pelo toque dos pais, a desfalecer, alguém lhes leve pelo menos um naco de pão, credo, o homem novamente a andar feito andorinha, até ele perdeu o bronze que tinha, com os ombros encolhidos, como que andasse a sacudir pó. Tão gratificante termos assistido a tudo isto num local que deixará saudade pelo… riso.

Às vezes, Ljubomir, ir para a televisão dar o corpo e a cara por certas pessoas não merece a pena, pelo menos para certas e determinadas pessoas. Apanha-se cada panela e cada tacho numa cozinha, que nem vos conto…

Com todo o tempo que o fiz desperdiçar, caro leitor, creio que agora entende porque é que sou o MEC do chinês. Primeiro, porque começo a ter os mesmos sintomas que ele, isto é, a ter experiências hilariantes, épicas e arrebatadores com restauração e a ter certa comichão tendo em conta esse facto; em segundo, do chinês, porque eu não sei escrever. Bom, fica a tentativa.

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