“A alma do Bolhão nunca vai morrer”

Foto: Ana Regina Ramos

O dia 15 de setembro de 2022 marcou a reabertura de um dos locais mais emblemáticos da cidade do Porto, o Mercado do Bolhão. Cerca de três meses depois, já mais de um milhão de pessoas visitaram este espaço, que, entre a Rua do Encontro, a da Alegria e a dos Abraços, conserva, segundo dizem, a “alma do Bolhão”.

Dos que já sabem os ‘cantos à casa’ aos que trabalham ali há pouco tempo, a opinião de alguns dos comerciantes, duas semanas depois da reabertura, era de que o negócio estava “a correr bem”.

Foto: Ana Regina Ramos

Aurora Vergueira e o marido vivem na Maia e, em 2018 decidiram deixar as suas carreiras e passaram a dedicar-se a um negócio que trouxe ao mercado um cheirinho diferente nesta reabertura. Têm a chamada “banca de açúcares”. Vendem crepes, açaí, gelados e gomas. “Expectativas superadas até. Gostamos muito do ambiente”, comentava, sublinhando que estavam “muito satisfeitos”.

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Por outro lado, Albina Ferreira, com 71 anos, nasceu “praticamente aqui”. Já a mãe, a tia e a madrinha trabalhavam na banca do peixe e, por isso, quando começaram as obras no mercado e foi necessária a mudança de local, “custou muito”.

“Estávamos habituadas ao nosso Bolhão, foi uma mudança muito diferente. Acabámos por nos acomodar – tinha de ser – com a esperança de vir sempre para o nosso Bolhão. Graças a Deus, cá estamos. Estamos contentes de o Bolhão abrir, de estarmos nisto outra vez. Fomos criadas aqui”, contava.

Albina Ferreira acreditava que foi “uma abertura em grande”, um pouco “vocacionada para o turismo” e que os clientes “estão felizes” por poderem voltar a fazer compras no local. “Agora estão a voltar todos, muita gente que eu já não via há anos e cá aparecem e eu também estou feliz por isso e também vou vendendo alguma coisinha. Quem vem sempre leva qualquer coisa”, acrescentava.

Foto: Ana Regina Ramos

“A alma do Bolhão nunca vai morrer, isso eu garanto. Faz parte da vida dos tripeiros e eles nunca vão deixar o Bolhão morrer”, afirmava. Para a também conhecida como “Bininha”, o que caracteriza a “alma do Bolhão” é: “a nossa maneira de ser, o nosso ar assim brejeiro, comunicativas, brincalhonas, portanto, tudo isso é a alma do Bolhão. Somos pessoas únicas. Há pessoas que vieram aqui de Lisboa, da Nazaré, de Peniche, vieram aqui, na abertura, para ver o Bolhão. Eles próprios dizem que realmente as pessoas aqui do Porto são diferentes. Temos o coração perto da boca”.

Foto: Ana Regina Ramos

Na banca das frutas está Fátima Teixeira, que trabalha no Mercado do Bolhão há 33 anos. Duas semanas depois da reabertura do espaço, era também da opinião de que “a alma do Bolhão está aqui”. “Aliás, isto é o nosso Bolhão. Agora está diferente, a exposição está diferente, mas sim, eu vejo aqui o nosso Bolhão”, defendia.

Foto: Ana Regina Ramos

Nestes primeiros dias após a reabertura, Fátima Teixeira dizia que o negócio “tem corrido bem” e que observou “gente de imensos lados”. “Turistas já antes tínhamos e agora também. E agora temos turistas portugueses que não vinham, mas agora vêm ver o Bolhão. ‘É uma glória estar no Bolhão, eu quero tirar uma fotografia, quero mostrar que estive no Bolhão’. As pessoas realmente estão empolgadas com o Bolhão. Agora vem toda a gente, depois, com o tempo, veremos se eles continuam a vir ou se foi realmente a curiosidade de vir ver o novo mercado”, constatava.

Mais à frente, estava um grupo de turistas que saboreava um copo de vinho do Porto, acompanhado com tostas barradas com conservas vendidas por Bruna Silva. Há mais de 30 anos que conhece o Bolhão, onde brincou e cresceu.

Foto: Ana Regina Ramos

Tinha cerca de cinco anos quando veio pela primeira vez com a mãe vender plantas naturais, depois, souvenirs e atoalhados e, quando passaram para o mercado temporário, “mudou para conservas, para peixe processado”.

A mudança para o mercado temporário foi “um bocado difícil”. “Era diferente. Não estávamos habituados a estar tão fechados, foi um bocado difícil a adaptação. Para aqui, foi ao contrário. Foi muito trabalho, tudo muito em cima do joelho, mas compensou, porque, além de estarmos no nosso mercado, isto está fenomenal”, exclamava.

Na primeira semana de reabertura, contava que teve “bastantes portugueses a comprarem umas latinhas”, apesar de serem mais os turistas que por lá passam.

Foto: Ana Regina Ramos

Para Bruna Silva, o que caracteriza a “alma do Bolhão” é “mesmo as pessoas”. Acreditava que o novo mercado “tem tudo o que o Porto tem de bom e Portugal em si e tudo no mesmo espaço, que era isso que a cidade também precisava, era que o mercado não tivesse tudo a mesma coisa”.

“Tem um pouco de tudo, mas, claro que o mercado não é como era dantes. Eu era pequenina e corria por aqui a fora, hoje em dia, a gente não traz os filhos para vir para aqui. Só isso acho que já mudou muito, é diferente”, partilhava.

Origens do mercado remontam ao século XIX

Esta tão aclamada “alma do Bolhão” ecoa pelos corredores deste local há já mais de 100 anos. Foi em meados do século XIX que a Câmara Municipal do Porto decidiu construir uma praça em terrenos adquiridos à Igreja.

A 18 de setembro de 1839 abriu o Mercado do Bolhão, que concentrava no mesmo local todos os mercados existentes na cidade, à exceção dos da Ribeira e do Anjo, que se mantêm nos mesmos locais.

Foto: Ana Regina Ramos

De acordo com o site do mercado, ao longo dos anos foram sendo realizadas várias intervenções de melhoria, mas foi em 1914, em plena Primeira Guerra Mundial, que foi construído o atual edifício, que conferiu monumentalidade à praça de mercado que ali existia.

Anos mais tarde, em 2006, o Mercado do Bolhão foi classificado pela autarquia como Imóvel de Interesse Patrimonial e referenciado na Carta de Património do Plano Diretor Municipal do Porto pelos seus valores arquitetónico, artístico, histórico, simbólico, cultural e social. Em 2013, tornou-se Monumento de Interesse Público e foi descrito como “um dos espaços coletivos mais emblemáticos da cidade”.

Foto: Ana Regina Ramos

Há pouco mais de quatro anos, iniciaram as obras no mercado e foi criado um espaço temporário, o “Mercado Temporário do Bolhão”, no Centro Comercial La Vie, na Rua de Fernandes Tomás.

Hoje em dia, o Mercado do Bolhão conta com um total de 79 bancas e novas categorias como algas e cogumelos, massas, temperos e especiarias e ainda chá e café. Há cerca de um mês, o espaço arrecadou três Prémios Construir 2022.

De onde surgiu o nome “Bolhão”?

No terreno onde está o edifício do Mercado do Bolhão havia um regato que, ao atravessar um lameiro entre a Rua Formosa e a Rua de Fernandes Tomás, formava uma enorme bolha de água, daí o nome “Bolhão”.

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