EM TELA: “One Life” – O privilégio que é a vida

Em Tela, One Life

Nos últimos dias falou-se muito sobre Liberdade. Portugal completou dia 25 de Abril de 2024, 50 anos desde a grande Revolução dos Cravos.

Começo com esta contextualização, que não tem diretamente a ver com o filme de que vos escrevo hoje. Contudo, o conteúdo que apresento fez-me pensar no quão fácil é refletirmos sobre a liberdade quando não vivemos na sua ausência.

Mas redes sociais, o 25 de Abril foi assinalado com palavras bonitas e reflexões básicas de quem nunca viveu num cenário de terror. Não quero ser hipócrita porque também eu escrevi algumas dessas palavras na esperança de que aquilo que eu desejo se mantenha e melhore ao longo dos próximos anos.

Contudo, o filme “One Life” ou em português “Uma Vida Singular”, conta-nos a história verídica de Nicky Winton. Um rapaz simples que trabalhava como corretor da bolsa em Londres. A Segunda Guerra Mundial estava a meses de se iniciar e os nazis invadiram Praga. Ver a pobreza e a forma desumana em que várias crianças viviam, fez com que Nicky não ficasse descansado enquanto não fizesse algo pelas famílias.

O londrino resgatou, assim, com a ajuda de outros colegas que faziam parte do Comité Britânico para os Refugiados na Checoslováquia, cerca de 669 crianças. Na verdade, Nicky nunca considerou que fez o suficiente, nunca pensou que a sua missão estivesse realmente cumprida, pois um dos últimos comboios onde iam ser regatadas mais crianças, foi corrompido pelos nazis.

A partir daí seguiram-se alguns anos de desespero e de algumas questões, contudo, este homem, que foi tão importante para a salvação destas crianças, decorrido alguns anos, foi devidamente homenageado. Num programa televisivo em que acabou por partilhar a sua vida, teve a sorte de conhecer imensas crianças (naturalmente, já adultas) que ele próprio salvou há 50 anos, o que se tornou num momento único e viral.

Mas não pensem que o processo de salvação destas crianças foi fácil. Houve uma grande complicação democrática para salvar todas as crianças. Com um bloco de notas, uma caneta e uma câmera fotográfica na mão, Nicky criou um registo histórico único que hoje se encontra ainda hoje num museu, em Praga.

Só quem vê o filme consegue ter a mínima perceção do terror, da fome, da falta de condições e do medo que os pais tinham em ficar sem os seus filhos… E é aqui que entra a liberdade. Não creio que tenhamos de passar pelo terror para dar valor à liberdade que temos e às condições privilegiadas em que vivemos. Creio, sim, que a liberdade deve ser festejada com base na realidade e naquilo que a história mantém vivo. Sem sombra de dúvida que “One Life” nos faz refletir sobre o que é realmente a liberdade e o que importa. Para mim, liberdade pode ser sair à noite. Do outro lado do mundo ou nem tanto, liberdade pode significar não ser violentado.

Em que tipo de sociedade vivemos? Uma sociedade de extremos, de palavras escritas na internet sem importância, uma sociedade em que cada um vive a sua verdade. Ainda bem que a história não se apaga, que o cinema a mantém viva, para que a liberdade não seja banalizada. O cinema emana a luz que as pessoas precisam para recordarem, todos os dias, o que é realmente ter o privilégio da vida.

Estrelas: 8 em 10

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

error: Este conteúdo está protegido!!!