OPINIÃO: A Partida como ponto de chegada à inação e de partida para algures

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

A Partida é inequívoca como o espirro, uma das funções mais elementares do ser humano. A gaita de foles abraça a melodia com votos de despedida e limpa a saudade – esse termo intrincado e insondável, testemunhado pelo mais comum dos racionais – que escorre semblante abaixo num caiaque de lágrimas docemente salgadas. A Partida goza do medieval, algo que remonta a tempos erigidos por pregos mais ou menos enferrujados da imaginação e que albergou cargos nobiliárquicos e cortes, com o bobo a vestir o modelo anterior às leggings e a encabeçar o chapéu extravagante com guizos. A Partida une tempos idos e vindouros: anseia desprender-se das amarras de um passado quimérico e, simultaneamente, construir um futuro alicerçado na “portugalidade” sonhada para o catapultar de uma sociedade. Não é saudosismo, porque nunca aconteceu. É “apenas” tradição envolta em variadíssimas estéticas musicais. Em indumentária, é algo semelhante a seda fina com mais de 40 anos, sem bafio e odores vetustos.

Começa a cheirar a férias. Bem, começa a cheirar a férias para quem as tem nos meses de julho/agosto. Se considerarmos maio como mês em que proferimos a frase “começa a cheirar a férias”, é em agosto que traço o limite. Portanto, três ou quatro meses é a baliza temporal que considero fazer sentido para escrever/dizer a dita cuja. Mais do que isso é estupidez, porque faz-nos parecer altamente desesperados. Menos do que isso é não valorizar aquilo que projetamos como merecido descanso, mas que será tudo exceto isso. Alguns trabalhadores podem dizer isso durante um ano civil inteiro porque conseguem pequenos períodos de férias em meses diferentes; outros não pelo facto de se cingirem somente ao temível mês de agosto para sair de uma rotina que os degrada.

Escutar A Partida diariamente – às vezes, mais do que uma vez – induz a minha mente para um estado de férias. Leva-me para um sítio que fica à saída do universo, se apanharmos a autoestrada para nenhures. As férias deviam ser isso mesmo, um sítio entre o fim do universo e aquilo que não o é.

Expus a situação supracitada aos meus pais. Eles olharam-me como se tivesse saído do Oregan State Hospital, assentiram por confesso temor e concordaram com o início da procura do destino. Utilizámos a internet e as conversas com casais amigos sobre disponibilidades e sobre promoções que surgissem, mas tudo parecia em não conformidade com o preço que estávamos dispostos a pagar. Dirigimo-nos a umas quantas agências de viagens e estudámos as suas propostas, mas ainda não era bem o que pretendíamos. Insistimos nestes estabelecimentos e é nesse preciso momento que algo transcende aquilo que começa a não cheirar a férias porque exige trabalho.

Na semana passada, enquanto tentávamos resolver o impasse – já sentados nas cadeiras que impingiam o constante movimento do rabo até encontrar uma posição de conforto – uma mãe irrompe pela sala com o filho pela mão e questiona:

– Boa tarde! Sou a Libânia, estive cá a semana passada, não sei se se recorda de mim… Não dê pontapés nas cadeiras, Manuel! Desculpe incomodá-la, mas eu recebi as propostas que me enviou por e-mail e queria discutir consigo algumas alíneas porque creio não as ter entendido bem. Manuel, já lhe disse para estar quieto um bocadinho e para de fazer migalhas com a bolacha! Confesso que eu e o meu marido ainda estamos indecisos quanto ao destino da viagem – Praga, Barcelona e Veneza são sítios lindíssimos, sabe? – e não nos queremos precipitar! Manuel, está insuportável hoje, verdadeiramente insuportável!

Eu franzi as sobrancelhas e coloquei a mão direita sobre a cabeça para evidenciar o meu desagrado. Os meus pais só arregalaram os olhos. A mulher que nos atendia, para pasmo nosso, atendeu ao pedido:

– Boa tarde! Lembro, sim. Eu vou só rever as condições que lhe enviei. Tem um menino tão bonito! Portanto, mantem esses três destinos. Repare que com meia pensão – tal como pedido pelos senhores – os preços não variam muito daqueles que conhece. Praga até é ligeiramente mais caro porque é uma cidade que está em voga. Aconselho vivamente, mas vocês é que têm a decisão final, não é!? (a mulher chega-se ao ecrã do computador) Está a ver? Temos aqui diferentes hóteis, mais e menos afastados do centro da cidade, mas os preços não diferem muito, como lhe disse.

– Pois! Nós já queríamos ter ido a Praga no ano passado, mas tivemos umas complicações familiares. Saúde, sabe como é. Manuel, não vou avisá-lo mais vez nenhuma. Está a um passo de ficar de castigo.

A mulher continuou a fazer zapping no computador. Eu quis intervir na conversa e colocar termo àquela palhaçada. Contudo, acobardei-me e ainda não encontrei explicação para essa falta de coragem. A perna direita inquietou-se e o joelho embateu numa parte da mesa que me separava da operadora que marca as viagens. Fiz sinal com a mão como quem pede desculpa pelo som que interferiu no diálogo entre as duas mulheres. Voltei a esperar, com as mãos cruzadas e a cara de parvo própria de quem espera. Noto, também, que o filho se comporta de forma cada vez mais irrequieta. A mãe prossegue:

– Sabe, eu estava ali na Perfumes e Companhia e pensei em dar cá um saltinho. Só naquela, sabe!? O Manuel está a tornar-se cada vez mais desagradável. O menino tem 4 anos e já não é nenhum bebé. Agora está a ser insolente e eu não admito isso. Queria resolver esta situação, assim era menos um problema que levava para casa. Andámos nisto há meses e o meu marido começa a exaurir-se. Assim, poupava-lhe o trabalho.

Identifiquei-me prontamente com o pequenote. A inquietação e o bulício que propalou respondiam à profunda falta de noção da mãe. O seu comportamento, característico de um miúdo da idade, almejava esconder a atitude da sua progenitora e traduzia um “ui, a minha mãe demonstrou ser bem mais criança do que eu porque interpelou aquela senhora quando esta atendia o pedido de outros senhores. Se calhar, vou só mexer-me o máximo de tempo possível até irmos embora, a ver se ela entende”. Talvez isso explique a minha inação.

Após este incidente, A Partida reconfigurou a minha massa gris com novas interpretações. Vou ouvi-la 5x por dia para ver se as férias se apressam.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

error: Este conteúdo está protegido!!!