OPINIÃO: Os efeitos traumáticos de uma guerra

Simão Mata, psicólogo

As recentes guerras que têm como palco a Ucrânia e Gaza são apenas dois exemplos de conflitos que se espalham à escala global um pouco por toda a parte. Se a novidade de uma guerra infelizmente não existe no que concerne à humanidade, pois em todas as épocas históricas existiram sempre várias, também não nos podemos esconder nesta evidência la palissiana para perpetuar o sofrimento que decorre delas e que se forjam no nosso mundo contemporâneo.

Por vezes, nalguns órgãos de comunicação social, são apresentadas notícias de crianças, homens e mulheres, de diferentes idades, que sofrem as sequelas da guerra na Ucrânia e na Palestina. Alguns psiquiatras e psicólogos chamam a atenção para os efeitos irreversíveis dos traumas de guerra, nomeadamente num quadro descrito como Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT). Este quadro clínico, de forma muito resumida, caracteriza-se por uma experiência elevada de ansiedade, dificuldades no sono e memórias persistentes e repetitivas (flashbacks) sobre o acontecimento(s) traumático(s). Porém, apesar da intervenção a este nível do trauma ser fundamental, temos que reconhecer que a mesma fica muito limitada se apenas nos focarmos nos efeitos de um acontecimento traumatizante e se nada fizermos para alertar para as dimensões pré-traumáticas.

Nesse sentido, alguns autores no campo das ciências sociais e humanas têm proposto a necessidade de intervenção nos fatores precipitantes do trauma, por vezes nas causas sociais e culturais que estão na sua origem. Ignácio Martín-Baró foi um deles no campo da psicologia comunitária. Para ele, que acompanhou de perto a guerra de libertação salvadorenha, seria importante distinguirmos trauma psicossocial de trauma médico. O trauma psicossocial consiste nos efeitos dos fatores de ordem social e política no bem-estar das comunidades contrariamente ao trauma definido pela comunidade médica e psicológica que se centra na descrição sintomática e no tratamento da mesma, sobretudo ao nível pós-traumático. O psicólogo, para Martín-Baró, deveria atuar nos dois níveis do problema: procurar um efeito paliativo pelas suas intervenções clínicas mas, ao mesmo tempo, alertando os dirigentes políticos, sociais e económicos das dimensões “pré-traumáticas” que fazem com que o trauma se perpetue no tempo. Com esta intervenção mais comprometida e politizada, o psicólogo deve movimentar-se do eixo médico para o eixo político, sendo tarefa da psicologia participar também na desconstrução das lógicas sociais e políticas que se perpetuam em situações traumáticas recorrentes.

Voltando agora à realidade mais recente das duas guerras acima referidas parece-me fundamental um debate sobre as causas das mesmas, isto é, as causas que levam a que famílias inteiras sejam despojadas dos seus lugares e tenham que migrar para outros territórios. Muitas delas nem oportunidade de migrar têm pois são mortas pela cruel guerra mal acordam. O horror deste cenário bélico deve levar a 2 intervenções que garantam, no imediato, a segurança e o suporte das vítimas. Mas devemos também abrir o debate sobre o que de facto está em jogo com a manutenção destes teatros de guerra. Só assim conseguiremos estancar a ferida que tanto sangra na Ucrânia, em Gaza e noutras partes do Mundo.

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