OPINIÃO: 42 anos de Portugal – Parte II

No meu exercício de memória sobre as Memórias do meu pai perco-me na infinidade do céu. Na realidade, foi paraquedista da Força Aérea Portuguesa. Nasceu quase 21 anos antes do terramoto político de 74 e estava na base de Tancos no dia 25 de Abril. Sempre me mostrou dificuldade em falar desse dia, mas facilidade em guilhotinar a imagem dos fascistas, salazarentos e evidentes colaboradores da PIDE. Lembrar-me-ei sempre da demonização justa a quem condenou portugueses às torturas doentias e Portugal ao obscurantismo.

Experimentei a ansiedade e a taquicardia nas histórias de final de noite que me contavam em torno do cumprimento de serviço militar obrigatório. Um Portugal, que obrigava os seus jovens a irem para a um combate de guerrilha, empurrava a juventude para um túnel onde o medo de envelhecer e ficar maior é tão escuro quanto castrador de qualquer sonho. Inúmeras foram as famílias que, pagando subornos a médicos, militares ou administrativos, conseguiram salvar os seus filhos de mortes quase certas nas matas da Guiné ou do Norte Angolano. Na impossibilidade deste caminho hipocritamente legítimo, abriram-se outros algumas vezes: o exílio.

O meu pai fez parte dos que foram arrastados à defesa da pátria. E faz parte dos que trouxeram o fardo de uma guerra, de noivos mortos e de pais de família mutilados. A guerra é o caminho mais violentamente pueril de resolver divergências. Depois de 1974, os diferentes Movimentos de Independência Africanos tomaram conta dos seus países e alguns demoraram e outros ainda demoram a democratizar o seu sistema.

Parece-me oportuno, ser oportunista em expor a família ascendente do meu pai, como O Paradigma Familiar Português. Meu pai, primogénito de seis filhos de (mais) um casal de lavradores sem-terra, contava-me quantos carros de bois de injustiça pagavam os caseiros aos senhores. A História repete-nos experiências de caseiros com filhos, sem pão e senhores que exigiam as avultadas rendas aos seus inquilinos jornaleiros independentemente do que fosse fruto da terra nesse ano.

Hoje, os bancos recordam-nos essa prática. Como falta cumprir Abril!

Por fim, é-me profundamente emotivo, perceber que o meu pai, mesmo antes de o ser, defendeu o Portugal Colonial onde a minha mãe, mesmo antes de me pensar, cresceu e declarou tantas vezes: “Em Angola, fomos tão felizes”.

Foi o sonho de um Portugal Imperial que resultou até deixar de resultar.

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