OPINIÃO: As saudades que eu já tinha de te ouvir falar português tão modesto quanto outro idioma no respetivo país

Romão Rodrigues

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Escrevo estas linhas ao mesmo tempo que escuto a audição do ex-ministro das Finanças do governo demissionário de António Costa. Encetada, a fonética escancarou as portadas e um estalido mental irrompeu, claro e tão rápido quanto impetuoso. Retirei do ouvido esquerdo o auricular que ecoava, em decibéis algo inapropriados, a voz de Michael Stipe e daquele grupo que detém o (meu) movimento contemplativo mais veloz e, por impossibilidade lógica, mais duradoiro. Com a frase anterior, tive a intenção de declarar que me apaixonei à primeira escuta pela música dos R.E.M., mas até o urro teria sido uma arma de antítese mais eficaz. Devíamos falar da meteorologia? Devíamos falar sobre o governo?

Certamente que estarão a perguntar o que um indivíduo que não é político e que não cria conteúdo sobre política para disseminar em qualquer formato fazia a ouvir a dita audição. Eu respondo, sem pudor: sou um fã do mobiliário que compõe cada uma das salas da Assembleia da República e porque estou a convencer os meus pais a decorar a sala de estar de acordo com o referido estilo do qual desconheço a designação, apesar de saber que podia integrar a decoração de uma sala da alta burguesia dos anos 50. Sempre que posso, sintonizo no Canal Parlamento. E, sim, voltei atrás na TV para assistir à ARTV. A parca audiência deve-me imenso, mas não sou de cobrar louros.

Com duração menor comparada à de um Fado Alexandrino e com referência à personagem mais famosa da obra de Arthur Conan Doyle, a audição de Fernando Medina renovou a minha esperança no Homem enquanto pessoa que pensa e fala e tal. Após arremessos de PIB’s, défices, excedentes orçamentais, dívidas públicas e outros conceitos da área da Economia/Finanças, a intervenção dos deputados presentes – sem descurar nenhum partido da esquerda à direita ou de nenhum ponto da circunferência política, dependendo da forma como cada leitor vislumbra a poda – foi realizada apenas com palavras que constam num dicionário português – português. É verdade, palavras às quais nos habituámos a escutar porque vivemos em Portugal.

As saudades que eu já tinha de te ouvir falar português tão modesto quanto outro idioma no respetivo país. Tendo mais para a moderação do que para o radicalismo nesta temática, embora possa transparecer o contrário. Os portugueses podem falar inglês e misturá-lo com a língua portuguesa no discurso direto, mas deviam ser forçados a traduzir aquilo que querem referir, mesmo que o(s) interlocutor(es) o compreendam. Fala-se do marxismo cultural, da ideologia de género, dos vistos gold, da crise na habitação, do orçamento retificativo, das eleições europeias… e da língua de Camões? Ninguém pia? Que pérfidos falantes me saíram…

Na rua, na praça e na travessa – ou ambientes fechados de cariz socio qualquer coisa – ouvimos facilmente um diálogo entre jovens que abanam o vocabulário com o shaker idiomático e que servem nos copos semelhantes a um cone invertido o líquido mais ou menos saboroso. Um casal que tenha um jantar romântico à luz das velas está num espaço cousy, não num espaço acolhedor. Grande parte da população europeia está worried about a ascensão de partidos de extrema-direita no continente enquanto outras partes só querem living life and dream. Conheço quem pratique mindfulness a fim de prevenir contra o estado de burnout. Amigos meus habituaram-se a pedir ½ pints ou pints inteiros de cerveja, ao invés de mim.

A juventude – da adolescência aos 30/32 – faz isso porque é ávida consumidora de livros não traduzidos para português e porque quer replicar termos que desconhecia e que aprendeu enquanto acompanhava a sua série na Netflix ou ia ao Cifra ver a tradução de uma música da Taylor Swift. Um cota faz isso porque quer dar uma de pessoa nice and trendy e porque no verão frequenta imensos Revenges Of The 90’s que começam aos sunsets, mas quando trabalha dá inputs e outputs sobre o work e sobre os meetings em que participa. E, quando lhe ligam, está em call.

Algo que me apraz ainda mais é a conversa que um jovem mantém com uma pessoa de idade que pode ou não ser o avô/ó: quando o primeiro vê o léxico finar-se e a reencarnar em anglicanismos e perscruta a partir do semblante da pessoa mais idosa que esta não está a captar a mensagem, reproduz mecanicamente a palavra “tipo” e substitui toda uma miríade de termos passíveis de serem aplicados naquele contexto.

No fundo, a palavra “tipo” substitui uma quantidade razoável de vocábulos proferidos em língua inglesa. Deve ser a palavra com mais aceções no campeonato do mundo das aceções de palavras. Nem sei se esta competição reside no universo. Os campeonatos de Excel residem. A não haver, temos um peso e duas medidas.

Sucedeu à audição do ex-ministro das Finanças – numa Comissão no âmbito do Orçamento, Finanças e Administração Pública – uma reunião com a Delegação Nacional da República da Coreia. Ora, um grupo composto por membros de três partidos com assento parlamentar defronte de visitantes coreanos e de uma tradutora. Quando os convidados se expressavam e a tradutora aguardava o término do diálogo, a cara dos representantes portugueses replicou, na perfeição, a cara de alguém que escuta uma palavra inglesa quando conversa em português. Eu vou mais longe: olho ao meu redor, vejo se vislumbro o London Eye, o Empire State Building ou o Belfast City Hall, esboço um sorriso trocista e repouso na superioridade que adquiri naquele preciso momento.

Se não conseguirem controlar o ímpeto, façam-se acompanhar por tradutores. Combinado?

Aguardo o vosso feedback.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

error: Este conteúdo está protegido!!!