OPINIÃO: A Escrita – uma calamidade pública

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Queria ser uma árvore e plantar a semente numa calçada. Na portuguesa ou, talvez, numa estrangeira. Reparem que eu não questionei a possibilidade de tal acção e, ao invés, inferi-a, retirando o conteúdo de permeio. Dar vida ao conjunto de pedras unidas pela argamassa, substância que aglutina munificentemente, por contraste à posição dos sacripantas que defendem – com unhas encravadas e dentição a instar manutenção – a cola. Vivifiquem-se as metrópoles, as cidades, as vilas, as aldeias, as aldeolas! Permitir-se-á a destruição de uma cosmovisão verde, amarela ou avermelhada, depreendendo que o outono se agasalha da invernia ou fere o estio com a frialdade da sua brisa?

A professora do terceiro ciclo do Ensino Básico levantou-se impetuosamente do cadeirão onde decidiu encetar a correcção das fichas de avaliação, arrastou a cabelo para uma zona não envolvente da tez e soliloquiou:

– Este biltre atazana-me o juízo! Quantas vezes é que eu já lhe disse que o verbo não faz furor no início de uma frase? Ainda ontem, na aula de revisões para o teste, reforcei a frivolidade deste procedimento. “Banal, pouco eloquente e nocivo para a saúde” foram as expressões que utilizei.

Num assomo de realidade, voltou o olhar para a folha e prosseguiu a leitura da composição. Agora diz-se “Escrita”, como se, no decurso da prossecução do teste, a caneta estacionasse os lábios no papel pela primeira vez naquele instante. Enfim, tacanhas subtilezas com as quais alunos e corpo docente convivem, sem direito ao dissenso. A provocação ressalta-lhe, o ressentimento circunscreve-a e obriga-a a cambalear até à poltrona, objecto chamariz do desfalecimento.

O relógio não tinha fugido e levado os seus pertences, adiantou-se somente quinze minutos. A cópia de segurança dos sentidos e a recuperação das palavras-passe do discernimento foram activadas. Alprazolam foi o escolhido para a auto-prescrição, sem acompanhamento líquido. De modo a não ser assacada com o incumprimento do Código de Trabalho, seguiu a rusga à gramática, retomando a leitura no primeiro parágrafo e monologou novamente:

– “Na portuguesa ou, talvez, numa estrangeira”. Agora fez-me rir! Mas pelos piores motivos, porque o riso é altivo e pedante. O rústico escreve sobre calçada estrangeira sem conhecer modelos de pavimentação que suportam os pezinhos dos terráqueos? A calçada portuguesa perpassou fronteiras e assenta, principalmente, em quatro tipos de calcetamento (calçada à portuguesa, malhete, sextavada e ao quadrado). Aposto que nem sabe o nome da técnica exclusivamente utilizada. Notícia: chama-se percussão. Até na Malásia, na cidade de Malaca, existe um local com calçada artística portuguesa. Se é tão sábio assim, que justificação encontrou para não referir?

O órgão central da circulação sanguínea abrevia os movimentos da mestre-escola. O desarvoramento é factual. O ser humano é substituído, gradativamente, por algo entre a fase final de desfiguração e a fase inicial de um cataclismo. Abandona-a o piloto da movimentação normal, abalroam-na os tremores. Contrariamente à expectativa – no grande ecrã, Vertigo, de Bernard Herrmann, era a banda sonora aplicada à cena – a professora permaneceu, firme e hirta. Bebericou do copo que continha água, entrechocou o pé tolhido pela dormência um par de vezes no chão, esticou as falanges e continuou:

– “… a cola. Vivifiquem-se as metrópoles, as cidades, as vilas, as aldeias, as aldeolas!”. Amanhã, na aula de entrega e correcção da ficha de avaliação, vou chamá-lo à secretária onde escacho os meus quadris e perguntar-lhe qual a diferença entre uma aldeia e uma aldeola. A paciência sai daqui extenuada e depauperou tudo o que restava de são na massa cerebral que me resta! Desidratou-a, por completo. O termo “aldeola” pressupõe uma superfície delimitada por perímetro e área menores comparativamente ao espaço entendido por aldeia. Além disso, afecta a densidade populacional, as taxas de natalidade, mortalidade e fecundidade, crescimento natural, saldo migratório, esperança média de vida, crescimento efectivo, estrutura etária, etc. Caso a hipótese se afirme veraz, o Instituto Nacional de Estatística enfrentaria uma sublevação nos quadros médios e superiores. Os inferiores nem quadros chegam a ser, não é? Desta, estariam safos.

A luz do candeeiro obnubila-se. Três pancadas com cobertura fosfórica não deixam mossa. Interrompemos a emissão para envernizar a fúria com vernáculo. Não saia do sítio. Voltamos dentro de momentos. Interrompemos a emissão para envernizar a fúria com vernáculo. Não saia do sítio. Voltamos dentro de momentos. Interrompemos a emissão para envernizar a fúria com vernáculo. Não saia do sítio. Voltamos dentro de momentos. A docente perscrutou a janela, planou na escuridão exterior, bocejou em série e manifestou o enfado junto do habitual scroll pelos Reels do Instagram. As pálpebras ofereceram pouca resistência, a boca abriu face ao entupimento das narinas qual portão automático e o telemóvel deslizou pelo corpo.

Os raios de sol cutucaram-na. As voltas na cama e a indecisão no ápice de despertar levam-lhe mais quinze minutos. O banho espevita-a, o pequeno-almoço sacia-a e a indumentária escolhida afiança-lhe a confiança. Está atrasada, mas o incómodo não podia ser mais somítico. A viagem de comboio iria deslindar se Antígona fez valer da sua temeridade ante as leis injustas no reino de Tebas. A avaliação foi relegada para terceiro plano. Em segundo, mais precisamente a 56.ª, uma progenitora amamentava a cria, silenciando a algazarra.

A correr, simultaneamente ao irromper do toque da campainha, coloca a planta do pé na sala de aula, pede aos alunos que acalmem os traseiros e informa que vai proceder à entrega do teste. Individualmente, dirigem-se à professora, de modo a recolher a miséria ou o motivo para mais uma prenda de Natal. A meio da correcção, um aluno inquire-a:

– Ó stora, na minha ficha, a Escrita não tem pontuação. Esqueceu-se de corrigir?

A sialorreia navegou na cavidade oral. O espasmo tomou conta da docente. A apreensão subiu de tom e dela resultaram brados:

– Professora! Professora! Sente-se bem? O que tem? – o desassossego preencheu o corpo discente.

– Shiu! Que balbúrdia é esta? – Disfarçou a mestre-escola atarantada. Fiquei sem tinta na caneta. Nunca vos aconteceu?

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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