Há momentos na história em que somos chamados a olhar para além do imediato. A ver não apenas o que é, mas o que pode ser.
O Tour de Surf Adaptado da Europe XXI, que em 2025 percorreu as praias de Portugal, foi exatamente isso: um olhar sobre o que a Europa pode ser.
Perguntará o leitor: o que tem o surf adaptado a ver com a União Europeia?
À primeira vista, pouco. Mas, na verdade, tudo. Porque o Tour de Surf Adaptado deu corpo e visibilidade prática aos princípios fundamentais que definem a União Europeia: a não-discriminação, a igualdade, a inclusão, a união.
Valores que, mais do que palavras em tratados, precisam de ser vividos todos os dias. Princípios que nos recordam, a cada gesto e a cada rosto, que a Europa não é uma promessa distante, mas um compromisso diário.
Hoje, na União Europeia, mais de 30 milhões de cidadãos em idade ativa vivem com deficiência. Muitos deles continuam a enfrentar barreiras visíveis e invisíveis: dificuldades de acesso ao emprego, ao ensino, à cultura, ao desporto.
As estatísticas dizem-nos que quase 30% das pessoas com deficiência estão em risco de pobreza ou exclusão social. Dizem-nos que jovens com deficiência têm mais dificuldade em encontrar trabalho. Dizem-nos ainda que, em 2025, demasiados cidadãos europeus são tratados como se vivessem à margem da sociedade.
Mas estas estatísticas não contam a história toda. Porque por trás de cada número está uma vida. Está uma pessoa com sonhos, talento e coragem. E cabe-nos garantir que esses sonhos têm espaço e oportunidades para crescer.
A Europa tem dado passos: criou a Estratégia 2021-2030 para os Direitos das Pessoas com Deficiência, lançou o Cartão Europeu da Deficiência, o Cartão Europeu de Estacionamento, reforçou políticas de igualdade, acessibilidade e participação plena.
Tudo isso fundamental. Mas não chega. Porque a inclusão não é um favor. É um direito. Não é caridade. É democracia.
Nas praias de Viana do Castelo, Matosinhos, Figueira da Foz, Peniche e Portimão vimos algo que nenhuma estatística consegue traduzir. Vimos jovens a entrar no mar pela primeira vez. Vimos atletas a desafiar o corpo, a mente e as correntes. Vimos comunidades a adaptar-se e a acolher com dignidade.
E, nestes gestos simples, vimos materializar-se o que tantas vezes dizemos, mas que nem sempre conseguimos mostrar: que a Europa só é verdadeira quando é para todos.
O futuro exige mais de nós. Exige que os Estados-Membros definam metas claras para o emprego e para a acessibilidade. Exige que os fundos europeus sejam usados não apenas para construir estradas, mas para derrubar barreiras.
Exige que as pessoas com deficiência estejam presentes nas assembleias municipais, nos parlamentos, nas mesas onde as decisões são tomadas. Exige que ensinemos desde cedo, nas escolas, que inclusão não é exceção. É a regra.
E, acima de tudo, exige que não olhemos para as pessoas com deficiência como “outros”, mas como parte integral de quem somos. Porque uma Europa que exclui alguns (sejam pessoas com deficiência, migrantes ou minorias) nunca será uma Europa plena para ninguém.
O Tour de Surf Adaptado provou que isto é possível. Não foi apenas um evento desportivo. Foram mais de 150 jovens envolvidos de forma real, concreta, humana e transformadora.
Foi a prova de que a Europa se constrói todos os dias, não apenas através de grandes números, mas também das pequenas histórias de grande impacto.
Não por acaso, a Europe XXI conquistou em 2025 o Prémio Europeu Carlos Magno da Juventude por Portugal – sinal de que a juventude europeia está pronta para liderar pelo exemplo.
Esta é a mensagem que o Tour deixa: a Europa deve ser o espaço onde cada pessoa, com ou sem deficiência, possa viver com dignidade, com oportunidades e com liberdade.
E quando olharmos para trás, daqui a dez ou vinte anos, quero acreditar que poderemos dizer: sim, havia desafios. Sim, havia desigualdade. Mas estivemos à altura. Tivemos a coragem de construir a Europa que sonhamos.
Uma Europa que não deixa ninguém para trás.
Uma Europa que é, verdadeiramente, de todos.
Pedro Ferreirinha, jurista