OPINIÃO: A vingança dos que dizem “sabem aquelas pessoas” está gravada

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Sabem aquelas pessoas que começam a maioria das frases que proferem com a oração “sabem aquelas pessoas”? Insiro-me nesse grupo. Nomeadamente, às terças e sextas-feiras, quinzenalmente. Desenhei o hábito sem o notar e agora é um vê se te avias para o desencarcerar da rotina. A medular pesquisa acerca dos primórdios da expressão e consequente introdução no diálogo abateu-se sobre a persistente incógnita. A internet enreda aquilo que pensámos saber e materializa-o no perfeito avesso. Contudo, floresceu uma ilação ao alcance de qualquer cérebro com o QI mais mediano: aprontar o “sabem aquelas pessoas” num solilóquio é, sob o tópico do liquidar da curiosidade, a nulidade completa ao estilo do ovo agasalhado pela casca.

Nesta matéria, a fatalidade da digressão para palcos que distam quilómetros daquilo que o olhar enxerga – o míope e o estigmático sabem que a conta não perfura o respectivo rosário – destronou a castidade e a pureza cravada no desconhecimento e promulgou os princípios de um empirismo tão tosco quanto soez, em alguns casos. Um dia, e a precisão continua grudada à fita-cola em postes de iluminação e muros, infestou a minha pele. Cocei a cabeça, os braços, as pernas, a parte abdominal, as costas e lá me resignei. A piolhosa junção de palavras lavrou todas as entranhas, higienizou os canais de informação e substituiu as chefias responsáveis pela parte inicial da construção frásica.

Face à míngua de Quitoso nas farmácias situadas num raio de 30 quilómetros e à sarnenta espera ditada pelo atulhar de encomendas inseridas em espaços online, infiro a tenacidade do problema. A solução de lava cabeças é o símbolo de uma pesarosa aflição – comigo, as datas cerram as mandíbulas – e, na tentativa de pôr termo à postura de arrogância causídica, sobreponho o dedo grande ao indicador, namorando a hipótese do despejo da embalagem de champô fermentar o escalpe ao ponto de este se tornar uma crosta e saltar pelo próprio pé. Percorri todos os estratagemas para cessar o vício, desde o consumo massivo de fentanil até à gravação de vários retirares de quinquilharias de caixas catitas, sem olvidar a escuta atenta (não são essas, leitor, descanse!) In The Court Of The Crimson King, durante as três principais refeições do dia e no decurso da performativa e despudorada arte da solidão, e a leitura compenetrada de todas as edições do Borda D’Agua desde o prólogo do milénio, data do meu nascimento. A minha avó tem aproveitado o manual pela sapiência demonstrada no aconselhamento ao nível da plantação de sementes e clama, com orgulho reverencial, a impermeabilidade da obra no contacto com quiproquós.

O par/público, vígaro e reaccionário, belisca o profeta do “sabem aquelas pessoas” com o logro e subdivide-se, essencialmente, em duas facções: de um lado, os fanáticos do meneio da cabeça ao estilo do limpa pára-brisas como resposta e, do outro, os hooligans da verbalização, seguida de um curto comentário mordaz. O terceiro grupo, assaz subtraído à vista, a fazer lembrar a criadagem que se arma em Ministério Público e cochicha atrás da porta, entra directamente para o topo da minha preferência: as pessoas que soltam o belicoso “sim, estou familiarizado”, moldando-o às variantes “já sei o que vais dizer”, “É a terceira vez esta semana que me dizes isto e eu percebi à primeira!” ou “sim, vi isso há pouco no Twitter, antes de sair de casa”. A aspereza da frase “já sei o que vais dizer” torna-se engraçada em escassas ocasiões na medida em que o gesto escolta reproduzido com a mão lamina a esperança na prossecução da conversa e a aniquila, qual homicídio indolor e célere.

Ora, o que me dizem de uma conjectura para entradinha? Posso pôr três pratinhos? Se esfregasse as palmas da mão à medida que ensaiava a deixa anterior, quem seria? Nos tempos que urgem, um estereótipo calha quem nem ginja. Leitor, imagine que está acompanhado de um amigo ou sentado em grupo e declara o seguinte: “Sabem aquelas pessoas que adoram vacas e produtos lácteos? Fidel Castro era uma dessas. Em 2008, já afastado do executivo, esteve presente numa fábrica de queijo, local onde palestrou acerca do mundo em constante alvoroço e sobre o comportamento que, no seu entender, a indústria láctea deveria adoptar”. Neste cenário, num primeiro lamiré, o arremesso de objectos, o desferir de golpes certeiros e os esgares jocosos não devem ser excluídos, para aviso dos mais susceptíveis. Na segunda fase, os conhecedores do facto dirão algo entre “porque soltas factos avulsos sem ninguém te pedir? Serve a plena afirmação pessoal? Precisas disso para te superiorizares?” e “Sim, ó sabichão! E sabes o que fez Fidel quando a Parmalat faliu? Prescindiu, até à morte, do leite com cereais que tomava ao pequeno-almoço e à ceia. Solidarizou-se com a fome que grassava no país. Sabias disto? Queres parecer sempre mais inteligente do que os outros e só fazes figuras tristes”. Os desconhecedores do facto farão algo entre o aceno com o desnorte de uma bússola sem três pontos cardeais e a expressão da pior maçada à qual foram submetidos.

A reacção à reacção gere-se com pinças. Por norma, trago na lapela três estratégias e agarro na primeira que apalpar, sem critério: teatralizar o desmaio, seguido do breve surto amnésico, ensandecer momentaneamente até vislumbrar a integral desorientação dos que me escutam – por exemplo, quando estou despido da cintura para baixo e a servir de suporte àquele prato a 130ºC onde a francesinha repousa – e realizar a redução das mudanças na dicção e disponho, por ordem de tamanho, a colecção de pombas finadas que trago na mochila. No final deste texto, surgirá um questionário com caixa para depósito de sugestões. Não se façam de rogados.

Os que escrevem rente ao chão, dizem coisas impertinentes, são mesquinhos e espezinham os outros através de textos subnutridos em ensinamentos e fazem a diferença na vida das pessoas porque as alertam para a importância da subtraccção começam a conhecer o sabor da vingança. Ontem, torturaram-me com 1700 repetições da expressão, gravada nos últimos três meses, à revelia. Água e alimento não faltaram. Podia ser pior.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

error: Este conteúdo está protegido!!!