Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
O ano 2025 chegou, tudo muito bem, não me oponho no imediato porque ainda não vamos a meio do primeiro capítulo, seja ele delimitado pela forma que privilegiarem. Uns dividem o ano em 12 partes correspondentes à divisão que reina no universo livresco – e, até, cinematográfico -, outros preferem o formato com 365 quinhões. A repetição veloz, bem como a leitura igualmente célere da derradeira palavra do período anterior, ingere-se na reprodução do calão para os gâmetas masculinos, por parte do fanhoso, independentemente do grau de autenticidade da condição ou da quantidade mucosa encrustada às paredes interiores das narinas.
Por forma a encetá-lo em beleza, despejo questões às quais nunca granjeei explicação e, convocando a ousadia que me define desde o aleitamento, formulo um conjunto de críticas acerca de três toadas que considero incómodas, sem enlevar o chinfrim proporcionado pelo fogo de artifício: i) o método de “entrada” socialmente aclamado; ii) as resoluções/desejos que se formulam entre as 23h59 e as 00h00 e iii) o êxtase, a nostalgia e aquela coisa chamada expectativas. Quem me conhece verdadeiramente, esteve sempre a par da frontalidade que teimo em exteriorizar pelo facto de a ver ausente em grande parte das situações que vivencio, pessoal ou profissionalmente. Sugiro, se me permitirem, que isolem esta última frase e a guardem para a posteridade, dado o cariz sem precedentes nos diversos géneros jornalísticos.
“Miguxos, faltam dois dias para 2025. Que forma arranjaremos para entrar com o pé direito? O álcool é fundamental para a troca de ideias”. Bem, a presença do sal da extroversão num grupo de amigos que reúna um ou mais elementos que tratem os demais por “miguxos” é indispensável na mesma medida em que o termo “festa” se torna obrigatório para Mrs. Dalloway disfarçar a fragilidade e o ermo emocional no qual permanece enclausurada. Se no momento da contagem decrescente estivermos levantados, somos forçados a levantar o pé esquerdo? Se as 14 rabanadas nos deixaram empanturrados e pregados à cadeira que produz um som agudo e continuado de sofrimentos, levantamos o pé esquerdo? Se, por razões alheias à compreensão e à sobriedade, estivermos de pé em cima de uma cadeira/banco, fazemos a posição “avião”? Se, por algum motivo, substituirmos um colega que sai lesionado, pisamos o relvado com o pé direito três vezes, não vá a superstição apanhar-nos na curva? Dizem-me que é uma metáfora porque a expressão significa entrar bem. E, sempre que erijo um sorriso e me prontifico para tal, denoto a razia na travessa das rabanadas.
Escassos segundos antes da dobragem do Cabo das Tormentas, sem mais delongas, as resoluções para o ano que ainda não perspirou. A barafunda instala-se porque parte da família sustenta que o pedido – a Deus, ao Rui Borges ou a outra entidade religiosa à escolha – deve compreender o período entre as 23h59 e as 00h00 e a outra parte defende a validade do rogo durante os primeiros dois/três minutos do novo ano. Por entre gritos infanto-juvenis, embriaguezes e reels dos mais entediados, acha-se uma solução: cada um é livre de escolher o período a seu bel-prazer. A democracia fez 50 anos e está bem viva. A marcha do pensamento varia de matéria cinzenta para matéria cinzenta. Se em dois/três minutos é difícil decidir aquilo que queremos ver concretizado, imaginem num só. Selecionar umas doze ideias da fonte que jorra entre uma e duas em tão pouco tempo é ingrato. Sim, doze, honrando a deglutição das 12 passas. Mas há gente que não tem pachorra para as passas. E agora? Não tem o direito de formular desejos? Foi tudo em vão? Ainda vou a tempo de cancelar a transferência da verba que fiz para o personal trainer que regala as minhas vistas?
Salta a rolha do champagne, líquido adocicado que encharca a carpete desinfetada minuciosamente e exaltada enquanto a família petiscava os acepipes. Soltam-se urros e vivas. Brinda-se com pundonor. Há cisão ao nível dos flutes: os exaustos do brinde e os entusiastas do brinde. Digam o que disserem, “tios” são sempre pró-brinde. O Septimus costumo ser eu, só falho no salto da janela. O êxtase. Neste momento, um ser humano tenta centrar a atenção em si – por intermédio do grito, da posição de prior e da alteração do semblante – e profere um discurso semelhante a este: “Abracemos 2025! Se for como o ano anterior, já é motivo de contentamento. A vida são dois dias e um já passou. O que levamos para cova são estes momentos de convívio e de amizade. Somos uns felizardos, podem crer. Tim-tim!”. A nostalgia. Ora, constituem-se pequenos grupos. Discorre-se sobre o trabalho, política, futebol, o casamento, os programas de televisão, a modern fiction, as drogas recreativas e as aventuras de cada um na sua presença, as loucuras e os falhanços cometidos, as moças de agora, os moços de agora, a gasolina. Esperam-se novidades, esperam-se mudanças, esperam-se apertos, esperam-se comodidades. Espera-se, desespera-se um pouco. A expectativa. Rabanadas, até ao final de 2025.
Não me façam falar da noite de Reis.
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação