OPINIÃO: Crónica sem epitáfio

Parei de escrever durante um mês. Quis tirar uma férias de quinze dias e acabei por me esticar. O problema de parar é que se torna difícil voltar a escrever. A folha em branco (principalmente a primeira linha) é um pequeno demónio que assombra os dedos assim que poisam no teclado.

O lado bom da crónica está na sua brevidade – não confundir com a brevidade densa da poesia – este carácter breve da crónica é antes uma brisa de maresia que refresca um pouco o rosto ao acordar após uma noite de Verão suada. Sabe bem, mas escassa depressa.

Em pouco mais de trezentas palavras e menos de quinhentas não me arrisco a abordar temas pesados, porque tenderia a faltar com os devidos detalhes, factos e opiniões bem formadas – mas é exatamente por isto que senti saudade da crónica, pela sua universalidade versátil. Posso dedicar-me a escrever sobre as mais fúteis coisas sem que caia numa ignorância literária porque não há um “livro de regras da crónica” – há antes e somente a crónica.

Há também qualquer coisa na crónica que paira sobre esplanadas matutinas, por entre os bolos e os cafés, mais recentemente na frenética espera de mesas – porque estamos no mês de Agosto, o mês onde as pessoas descobrem os pequenos-almoços na rua, nas pastelarias, na cidade e no cerne da confusão.

Esta aura que sobeja na sujidade da chávena, nas réstias de papel amachucado do açúcar e a colher pingada junto às migalhas de um mil folhas, é constituído da mesma matéria da crónica que aqui escrevo.

Como já disse, a brevidade da poesia requer antes uma densidade – por exemplo, um pequeno livro de cinquenta páginas terá de pesar nos pulsos metafísicos mais que os romances banais de hipermercado de setecentas páginas a repetir a banalidade da paixão carimbando o amor próprio (solidificando toda a proxémica em adornos estéticos). Haverá uma constante mutação nos versos que se devem à diferente experiência de vida que decorre – um verso pode sofrer uma metamorfose no instante da leitura.

Ora, com a crónica não se pede tanto. Espero antes que a brevidade da crónica se possa tornar leve – ainda que por vezes se ache uma certa voz que fica a ecoar na nuca, relembrando em diálogos o que se leu em determinada crónica. Ainda assim será sempre meramente um crónica, que na sua singularidade representa um universal demasiado banal para que se valha a si própria – contudo, na reunião da obra, tornando redondo o escrito, talvez se reconstitua mais. Um pilar epistolográfico ou biográfico, um estudo sociológico ou esquizofrénico… enfim, sobejará como um epitáfio.

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