Quando escreveu e mesmo quando as gravações da sua mais recente curta-metragem terminaram, Miguel Ferreira, um cineasta natural de Penafiel, estava longe de imaginar que o seu trabalho pudesse correlacionar-se, de certa forma, com a situação que se vive atualmente em Portugal e um pouco pelo mundo.
Inspirado no escritor Edgar Allan Poe e também no dramaturgo português Gil Vicente, o jovem decidiu colocar em palavras – e mais tarde em imagens – a “sensação de um pouco de impotência” que tem vindo a sentir e desenvolveu “Hop-Nation”, uma distopia de um futuro passado no século XXII em Portugal, numa história entre um Líder e uma Boba da Corte. O trabalho estreia esta quinta-feira, 22 de outubro, no Cinemax Penafiel, com sessões diárias.
A ideia surgiu, em parte, porque o jovem é fã do escritor norte-americano e das suas “histórias de mistério e de terror” e considera Allan Poe “um génio mesmo da escrita”. “Percebi que textos que ele escreveu há sensivelmente 200 anos, há dois séculos, são completamente atuais”, partilha, em declarações ao Jornal Referência.
Por outro lado, Miguel Ferreira confessa que sempre ouviu dizer que a “geração dos últimos quatro anos dos anos 90” é a “mais bem preparada de sempre”, mas que, na realidade, há outros fatores a ter em conta. “De que é que adianta uma geração ser a mais preparada de sempre, ter todos estas ‘armas’ ao seu dispor, estes materiais, estes motores de busca, toda esta informação se o mundo já está tão formatado que é tão impossível de se mexer com ele?”, questiona.

“Hop-Nation” acaba por nascer como uma resposta do penafidelense à “artificialidade que está a governar agora o mundo”: “estão-nos a tirar o que é orgânico, estamos a perder a cor, está-se a dar palco a pessoas que não querem saber do que realmente a arte consegue fazer”.
“Se neste momento, em 2026, que nós estamos a tocar nos primórdios do que é isto da Inteligência Artificial, é o início, eu comecei a ponderar, então, o que é que vai ser de nós daqui a 100 anos? Como é que isto vai funcionar? Se realmente agora já começamos a perder essa relação interpessoal e essa cor em tudo, o que é que vai acontecer daqui a uns anos?”, continua Miguel Ferreira, referindo que este trabalho acaba por fazer com que “um mundo tão político e um mundo tão de arte” se toquem.
Entre setembro de 2025 e fevereiro deste ano, o argumento da história começou a ganhar forma e a ter várias versões, usando como a “metáfora perfeita” o conto medieval de Allan Poe “Hop-Frog”.
“Nesse conto original, a inteligência de um prisioneiro acaba por vencer e derrotar o poder de um populista. E, lá está, foi essa ideia de isto foi escrito por uma pessoa há dois séculos que pensava exatamente o mesmo que nós agora, em 2026, vamos ter de enfrentar, que continuamos a enfrentar, que temos de enfrentar, que é ter a coragem de continuar a ser inteligentes e não nos deixarmos levar pela anarquia e pelo populismo”, indica.
Pela primeira vez, Miguel Ferreira colocou num trabalho “uma energia mais negativa”, uma espécie de “revolta” e “tristeza” com a sua própria geração: “como é que é possível nós termos permitido e continuarmos a permitir tornarmo-nos nós mesmos os bobos neste momento?”.

“Infelizmente, nós gravámos este filme em março de 2026, estamos neste momento em outubro de 2026 e eu não antecipava tudo o que ia acontecer neste mês, mas a verdade é que nós ligamos a televisão e não precisam de ser notícias só portuguesas, podemos ir a Itália, podemos ir à Alemanha, à Bélgica, à França… podemos ir a demasiados países e vemos que, realmente, há uma parte da sociedade muito jovem que está a ficar farta de não conseguir viver, de não conseguir ter uma voz”, recorda.
“O filme nasceu dessa energia, de estar farta de ser o bobo da corte, estar farta de ter sempre de acatar com tudo o que é feito, nunca em seu benefício. E o filme é exatamente isso”, acrescenta.
“Eu pensei: e se nós, daqui a uns tempos, não pudermos mesmo ter personalidade? E se tivermos um regime que nos obrigue a usar certas cores, que nos obrigue a usar certos tipos de atitudes em público? E é daí que surge este ‘Hop-Nation’, esta nação que eu espero que nunca venha a acontecer”, sublinha.
Miguel Ferreira acredita que é “quase uma obrigação contar esta história extremamente política, extremamente global e universal”. “Porque é um filme que é português de Portugal, mas que pode ser mostrado em qualquer país do mundo porque isto pode acontecer, infelizmente, neste momento, em qualquer momento e em qualquer país”, defende.

Filme quer incentivar à reflexão
As gravações aconteceram em março de 2026 em Canelas, Penafiel, e contaram com o apoio de uma “equipa-família”, como chama, e de um conjunto de entidades e pessoas que ajudaram a remar o ‘barco’ e a quem agradece. Os protagonistas são atores profissionais do Norte do país e os figurantes são integrantes do Grupo de Teatro de Canelas – O Bando dos Pardais, o que “demonstra que é possível fazer-se arte” na região.
No passado domingo, todos os que deram o seu contributo de alguma forma para este trabalho acontecer puderam assistir à antestreia da curta-metragem e encher uma das salas do Cinemax Penafiel. Após a sessão, foram várias as interpretações da mensagem principal de “Hop-Nation”, no geral, positivas, mas algumas que surpreenderam Miguel Ferreira e deixaram-no “curioso”.
“Há perceções completamente diferentes e que estão completamente válidas e que resultam e foi muito bom ver que as pessoas tiveram interesse em refletir”, afirma, comentando que considerou isso “espetacular”, uma vez que deu a sensação que as pessoas saíram “satisfeitas”, com “uma experiência de um filme a saber a filme”. “Saí com a consciência descansada de que realmente conseguimos passar essa imagem e essa sensação de se experienciar algo e de se refletir algo”, diz ainda.
“Cada pessoa tem direito – e a arte é bonita por causa disso – à sua interpretação e houve interpretações que nada tinham a ver com o que nós, se calhar, englobámos no início da pré-produção, mas que fazem todo o sentido e é bonito ver-se como ainda é possível pensar-se”, comenta, incentivando a que as pessoas reflitam e partilhem as suas diferentes visões sobre o que viram ou vão ver.

“Vai ser uma história que vai tocar numa ferida”
Este foi o projeto ficcional “mais desafiante” na carreira de Miguel Ferreira. Em primeiro lugar, pelo “nível de produção cinematográfica”, uma vez que “envolveu, necessitou e exigiu um equipamento e uma equipa muito mais alargada” do que aqueles a que “estava habituado”, além de ter exigido também mais figuração, customização de estúdio e “uma preparação e um tratamento muito mais profissional”.
Outros dos fatores prende-se com a escolha da equipa, que teria de ter “uma base de empatia e de humanidade”, dada a sensibilidade da narrativa. “Vai ser uma história que vai tocar numa ferida, que vai exigir ao espectador estar atento e refletir, ser inteligente para perceber as pequenas metáforas, não pegar no telemóvel enquanto está a dar o filme… tudo isso é um desafio para 2026”, sustenta.

Também o facto de a inspiração ter sido um trabalho de Allan Poe trouxe algum peso e desafio: “é muito difícil conseguirmos sequer chegar perto dessa escrita. Temos ainda um peso acrescido porque estamos a adaptar um dos maiores escritores da história do mundo e temos de ter noção do que é que esse nome carrega. Temos de honrar o texto desse homem, porque, se esse homem escreveu esse texto há dois séculos com uma ideia, com uma energia, o mínimo que nós podemos fazer é manter essa energia e honrar essa energia”.
“Mas o recolher dos frutos [no passado domingo] recompensou tudo isso e a energia positiva e as opiniões positivas que se viveram, para já, do filme”, remata o jovem.
Quanto aos próximos passos, Miguel Ferreira explica que está a ser feito um trabalho junto de turmas do ensino secundário da região para que vejam o filme, já que são quem “vai ter a faca e o queijo na mão” em relação ao futuro da sociedade. Depois, o objetivo é tentar levar o filme a cineclubes pelo país fora e a festivais de cinema nacionais e internacionais.
Foto: Ricardo Coelho
