Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
Face à conjuntura actual e às diversas temáticas que inundam o espaço público, sobram-me algumas questões às quais atribuo pertinência elevada: (1) nas horas vencidas a endereçar cartas, memorizar a morada para a qual as enviaríamos posteriormente era prática obrigatória ou facultativa? (2) Qual a lista de requisitos a cumprir para constar nas páginas amarelas das listas telefónicas – esse calhamaço desertor, muito provavelmente apátrida – e quais as entidades (individuais ou colectivas) que aquiesciam ou negavam a presença naquele formato? (3) Em 1981, no primeiro canal da RTP, a marca Aldeia Velha, cito “a melhor bagaceira de vinho verde”, detinha um spot publicitário catita e com uma esbelta senhora, recém-chegada de um automóvel que irrompe na propriedade onde decorreu a gravação. Pergunta nº1: porquê a referência sub-reptícia ao PREC? Pergunta n.º 2: qual a justificação para a música “Verde Vinho” não ser o canto escolhido para findar o anúncio? Pergunta nº3: sendo o objecto de estudo a aguardente, não seria de tom injurioso simular-se uma partida do jogo da malha?
Devo, em meu juízo, um pedido de desculpas aos sem-ter-onde-caírem-mortos que lêem esta crónica. Caí no ardil perpetrado por muitos autores de espaços de opinião: a frase introdutória enformada de uma generalização com contornos boçais a desaguar em perguntas inadaptadas à actualidade e que em nada contribuirão para a resolução de problemas de natureza premente como a habitação, a saúde, a falta de professores, os diversos conflitos que pairam sobre a política internacional, a reforma na Justiça e os casos de polícia comentados nas manhãs dos canais generalistas. É a mais pura das verdades. Montei a teia, distraí-me com os reclames e saio-me com insignificânciazinhas. Está escrito, pode apagar-se, com toda a certeza, mas dá trabalho. Atentem só na conta em que me tenho: a insignificância é insuficiente para qualificar o que quinzenalmente vos trago e, por essa razão, acrescento o sufixo –inho e defendo-o até à nano-partícula. Uma aula de humildade pro bono, sem cobrança. De mão beijada, para os fãs.
Sublinhar o facto de ser humilde conduz-me, paradoxalmente, a não o ser. Numa linha, a qualidade sumiu. A inalação de cocaína já conheceu velocidades inferiores. Contudo, subsiste um problema: a aspiração de todo o pó é infrutífera, pois ficam sempre resquícios nos tampos planos, como são exemplos a mesa decorativa da sala de jantar ou o balcão que separa a placa de vitrocerâmica da pia. Todos conhecemos o risco associado à dependência de tal substância, bem como à disposição renque da benzoilmetilecgonina num lavatório côncavo pelo facto de haver a possibilidade do producto escorregar e desfazer-se, quando contacta com a água. Esfarela tudo, é um aborrecimento. Ou, quando o encostámos mesmo à borda do mármore e, de forma pouco diligente, esfregámos o nariz com tamanha adrenalina capaz de convocar o sangue. A chatice regressa, porque o sangue é um fluido e dissolve a coca. Normalmente, no decurso deste processo, há sempre alguém à coca, a ver se aparecem visitas indesejadas a uma casa de banho, sabe-se lá a que pretexto. Reparei agora na quantidade de trocadilhos orquestrados e a regurgitação invadiu-me a fala. Realizado o somatório, verifico que existe um total de zero chalaças neste número.
Más-línguas vociferarão perante a confissão e denunciar-me-ão às autoridades. Ou, pelo menos, aos meus progenitores. Percebo a chinfrineira, porque afecta a saúde e pode desencadear maleitas futuras. Até aí, de acordo. O que não entendo é o Banzé. Sabiam que, em 1985, era permitida a atribuição de adjectivos infames a insectos? Em pesquisas exaustivas, comprovei que o anúncio da marca que chamava a mosca de “gulosa”, a barata de “porcalhona” e a melga de “sanguinária” não foi retirado da emissão. Que falta de vergonha. Insultam-se, desta maneira, insectos? Na praça pública, sem os visados terem sequer direito à defesa e ao contraditório? A atribuição das características a cada espécie era escrupulosa? Por que razão a mosca é apelidada de “gulosa” se tudo indica que é mais “porcalhona”, dado a chafurdice habitual junto de alimentos/objectos que tresandam? Que sustento possuem os criadores do spot publicitário para trazer à baila a melga ao invés de trazer o mosquito? Quando o dedo toca a ferida, diz que contrista. Se contrista…
Francamente! Sempre pensei que, no longínquo ano de 1985, já tivéssemos a democracia consolidada, ainda que imperfeita, e vivêssemos no país que deu à luz o talento de Nucha, a 10 de março de 1990, vencedora justíssima do Festival da Canção – a música “Há sempre alguém” é, simultaneamente, capaz de transcender o tempo e de compor um hino à paz, à fraternidade, ao amor e à utilização, essencialmente, de dissílabos e trissílabos. Naquela edição do Festival Eurovisão, Portugal foi incompreendido e Nucha foi atirado para uma embaraçosa 20.ª posição. Não sou vidente – ou bruxo – mas antecipo a raiva do leitor ao recordar este facto. Segue o trecho que faz levantar um país de supetão e cantar: Sempre, há sempre alguém / Que ainda não tem / O tanto que temos / Sempre, há sempre alguém / No canto do mundo / Que sonha também – mas não. Vivíamos, ainda, isso sim, no país que assistiu à altercação de Charlie Haden com a PIDE/DGS, em 1971, após dedicar Song for Che aos movimentos de libertação das colónias ultramarinas, em pleno Pavilhão Dramático de Cascais. Ainda se pode dizer “colónias”, certo?
Conhecem-me tão bem! Ai, os meus sem-terem-onde-caírem-mortos! E não, não é um insulto. É só uma questão de tempo até a crise de habitação alastrar à crise de espaço nos cemitérios. Pois! Está a faltar-me algo. Têm razão. É uma admissão, correcto? Aqui vai: nas últimas semanas, constituí um fardo para uma agência publicitária na zona do Porto. Não fiquei com o trabalho. Por essa razão, publicito tal acontecimento com o meu público. A má publicidade nunca vende, é tão certo como estar a trautear a música do ano de 1990.
P.S: Para não gerar preocupação desmesurada, aviso também que, dentro em breve, marcarei consulta com um psicólogo. Vamos por partes. Se não for solucionado, tento com um psiquiatra. Mas até para a insanidade existe hierarquia, caríssimos leitores. Até daqui a 15 dias!
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação