OPINIÃO: Sublevação solteira em nome de um casal

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Face aos constrangimentos da semana transacta, apostaria na inevitabilidade de abordar a temática da greve geral nesta coluna. A aparição quinzenal – decretada pelo ócio e pelo gozo de contribuir para a análise política de lana-caprina – obrigou a que emitisse pareceres sobre a paralisação geral na presente crónica, atendendo, simultaneamente, ao holístico e ao específico do happening. Ler pertinazmente – que outro modo existe de ler? – a proposta de Alteração à Lei Laboral, acompanhar as conferências de imprensa e depoimentos televisivos quer das centrais sindicais, Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) e União Geral dos Trabalhadores (UGT), quer dos membros do governo, quer da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), assistir aos debates ocorridos na Assembleia da República e, numa segunda instância, realizar o habitual zapping e montar opiniões sobre as opiniões dos que integram os painéis televisivos. O pós-greve e o respectivo rescaldo deram alguma água pela barba, mas nada que se assemelhasse ao pré-cenário. Têm sido pungentes semanas no que respeita ao repouso corporal.

Por conseguinte, honrando os camaradas, cesso o dirimir dos argumentos em relação a tal assunto. Sucederam, sem direito a vacilo, dias de enorme prazer e compenetração diante de um computador, de um caderno de apontamentos e de uma fotocopiadora cujo papel engolia ao estilo do mais esfaimado animal. Todavia, quando reparei num indecoroso acto que me vitima desde tenra idade, desdenhei a expressão de juízos sobre os acontecimentos grevistas por colidir com o cardápio de princípios e valores recebidos. Aliás, para ser conciso, vitimou os meus pais e, por intermédio de osmose, a sarna transferiu-se. Sem mais delongas, destapo o véu: o colchão da cama onde me deito é mutante. Perante este dado, ridicularizar é um acto insolúvel quando misturado com a fúria que me envolve. Se não enxergam o que possa tal facto significar, perguntem que eu explico de boa vontade. A peça que colocaram em cima de um estrado e que habita o meu quarto há 26 anos falha a categoria de “solteiro” e a categoria “de casal”.

Destroçado com a descoberta, procurei conforto no regaço dos familiares e amigos mais próximos e, durante a fase do luto, lacrimejei copiosamente. O desabafo, movido pela angústia que me amarfanhava a alma, encontrou os dois ouvidos de sempre: amigos de longa data, companheiros de capítulos anteriores à maturidade, parceiros de jornadas imemoriais. “Consideras que o teu exemplar se aproxima mais da cama dupla ou da cama individual?”, inquire-me um deles. Sobressaltado, o meu gesto agasta-se e metamorfoseia-se no espírito tresloucado do Rei Lear assim que decide afastar do testamento Cordélia, uma das suas três filhas, por não denotar o mesmo amor e veneração comparativamente a Regan e Goneril. Cito, sem vergonha, a resposta que lhes dirigi: “párvulos, as camas são todas individuais, a menos que uma surja ao lado de outra. Nesse caso, podiam constituir uma dupla, mas só nesse. Uma cama de casal é individual. Uma cama de solteiro é individual. O beliche é individual, mas constituído por duas camas. Estamos entendidos?”.

A indignação custou-me a entrada em estabelecimentos como a Conforama e o IKEA. Barrarem-nos a entrada numa grande superfície comercial tem mais valor do que ser expulso de uma discoteca ou bar. Principalmente, quando empamos com duas estacas um cartaz onde surge patente a clara distinção entre a cama mais pequena e estreita e a cama maior e mais comprida, dimensões incluídas; na parte inferior deste, consta uma mensagem verborrágica e vernacular a instar ao boicote, à destruição e à caça dos abutres que cometem tais logros. Não tinha nada a perder, depois da falta de respeito demonstrada pelos meus progenitores, no momento de venda da cama. A adesão ao protesto excedeu as expectativas que reuni. Eu, autor moral e líder daquela pequena sublevação, juntamente com os quatro incondicionais mosqueteiros, aguentei mais de oito horas dentro daqueles estabelecimentos.

Barricamo-nos com a ajuda das estantes arranha-céus e com toda a madeira ao dispor de forma a vedar o contacto com o corpo de segurança da marca e, mais tarde, com as autoridades. Naquele dia, involuntariamente, os operários daquela sucursal submeteram-se à paralisação laboral.

Nos jornais da nossa praça, disseram que o Ensino e a Saúde foram os sectores mais afectados pela greve geral ocorrida a 3 de Junho de 2026. Contestar tal informação nunca me assaltou a consciência, até porque não reúno dados que demonstrem uma inflexão na teoria. Contudo, lanço para o tabuleiro civil outro que me parece digno de registo: com a “insurreiçãozinha de meia tigela” de que vos falo – as más línguas e os inimigos da revolução urgente apelidaram-na desta forma vil – houve, pelo menos, um jardineiro, três electricistas, quatro enfermeiros, duas esteticistas, seis operárias fabris e oito empregados de balcão que estão, há uma semana, em interrupção voluntária dos serviços que desempenham. Jornalistas de estações televisivas estiveram na rua onde eu e os visados vivemos, mas transmissão da peripécia está quieto. Detalhei o mais que pude, abri as portas de minha casa ao serviço do público português e nem uma linha, num uma nota de rodapé, num um oráculo.

Na varanda, à janela, empunhando uma tábua de um estrado – cada revolução com os seus símbolos cénicos – e um copo de vinho, a calorosa recepção no regresso da esquadra comoveu-me. Nos dias que se seguiram às invasões não violentas – só lido com gente ordeira e cordata – no silêncio cipreste e recatado da localidade onde resido, apesar de se escutarem, nas ruas contíguas, discussões ricas e esclarecedoras acerca das distinções objectivas entre as duas estirpes de colchão, reflectiu-se, sob perspectiva historiográfica e etnográfica, sobre o colchão.

“Solteiro” designa uma pessoa e, como tal, a dimensão do objecto é menor para caber, precisamente, um indivíduo; “casal” denomina um conjunto de pessoas (duas) e, desse modo, o objecto é ampliado para albergar tal número. Segundo o vizinho jardineiro, a indústria que fabrica tais productos fecha-se à poligamia e à prática da orgia por puro delírio ideológico. É um capricho, uma cisma. Estou a citar. Há dias, ouvi um zunzum sobre um possível busto em concordância com o meu semblante. A ser verdade, peço que não tomem o do aeroporto Cristiano Ronaldo como exemplo.

A diferença entre o carpinteiro que construiu a cama e Edgar, filho legítimo do Conde de Gloucester, é manifesta: um deixou-se enganar pelo filho bastardo do pai e serviu e mendigou por quem foi, durante algum tempo, desprezado; o outro tentou brincar com a cara de um casal e de um filho (à data) solteiro.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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