Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
Ultimamente, com isto das pelejas a céu aberto, evito ajuizar acerca do armamento, independentemente do aspecto proverbial: aos cágados, ao pingarelho, aos cucos ou em carapau de corrida. O outro lado oculta-nos a compra, a venda e um possível lobby que daí resulte. “Está a armar-se, tem a mania”, resmungo, enfurecendo os botões. Há sempre alguém que, acocorado atrás de um arbusto, de um veículo ou outro objecto capaz de acomodar as feições, irrompe na minha direcção e alerta no sentido de avisar as autoridades, questionando, de seguida, sobre o momento em que me tinha dado conta daquele facto e informando que, em Portugal, a aquisição de porte de arma se efectuar mediante cláusulas específicas. Curiosamente, a segunda parte da frase (“tem a mania”) desmerece o reparo: a mania das armas? Enquanto empunha uma espingarda, pisca irreflectidamente os olhos? Estremece numa dança esquizofrénica, a la Ian Curtis, quando avista um drone? É coleccionador de armas, exibindo-as numa vitrine embutida na parede? Ficar pela rama nunca é solução e confunde o entendedor.
Suplico remissão de culpa a quem considerou que o parágrafo anterior fosse radicar numa apreciação a alguns dos adágios portugueses – parêntesis para uma calorosa saudação à pátria Lusitânia, para o caso do patriotismo de pacotilha vir a tecer loas – mais conhecidos. Se o atraiçoei, foi por erudição vulpina. Enraizado está, contudo, um outro motivo para trazer à berlinda o assunto: o confronto entre o dito e o aforismo, enunciação com raspas de moralidade e uma calda que mescla concisão, saber contrário ao livresco e filosofia em estado cru. Diante de Agustina Bessa-Luís, confessei e esgrimi a chusma de argumentos conducentes à preferência pelo ditado, momentos antes de folhear aquela primeira edição de fundo azul. A conversão durou minutos, o catecismo foi lido de fio a pavio e os sacramentos realizados de uma assentada. Era, oficialmente, um devoto aforístico. Ressalvo, ainda, a tolerância dos devotos ditosos que me rodeiam na resistência à excomunhão, pesasse embora a pressão exercida na cúpula da sentença popular.
Citando a autora, “um homem é feito de insucessos vários e de algumas oportunidades”. Quando estive desempregado e a munir o canhão com intermináveis Curricula Vitarum, a frase ribombou no corredor mental exíguo que possuo. Por puro acaso, nesse dia, como as janelas estavam trancadas, o aforismo lá se deixou deter. Nessa altura, qual salto livre de uma ribanceira, fui iluminado: tornar-me, a todo o custo, agente imobiliário. Reuni a documentação requisitada, dirigi-me a quem de direito et voilà. O cartão de cidadão não mente. Vinte e cinco é superior a dezoito e, como tal, deixou de haver entrave à concretização de um sonho colectivo. À disposição do leitor, algures na internet, encontra-se um manifesto denominado SMS via WhatsApp, no qual eu explico – por intermédio de versos avulsos – a necessidade de reerguer o imobiliário português, sendo urgente que outros tomem o sonho que outrora moveu os membros fundadores da ERA, que transformados em messias redentores, conduzirão os portugueses à construção de um novo império. Suporto, tranquilamente, todas as tentativas de denegrir a minha (falta de) originalidade.
Tomando conhecimento da nova incursão profissional, uns tios propuseram-me que vendesse a casa deles na sobressaltada cidade de Felgueiras, avançando o intento de investir numa pequena propriedade no distrito de Beja, em Mértola, e, por conseguinte, gozar a reforma à sombra de um chaparro. Acedi prontamente e coloquei o anúncio em todas as plataformas sociais, inclusive afixada a postes de eletricidade. Dias volvidos, surgiu o primeiro potencial comprador e agendei visita à habitação. Na noite anterior, o sono REM e não REM andaram à bulha e fui impelido a curar as olheiras com incontáveis chávenas de café. Tocou a campainha, franqueei o portão e cumprimentei uma jovem que aparentava ter, no máximo, 34 anos. Abri a porta, cedi a passagem e encetei a apresentação. “A vida é insucesso, não importa se breve, se extenso. A frase é de Agustina Bessa-Luís. Conhece?”. A mulher meneia a cabeça na vertical, esboça um sorriso tímido e eu disparo “Todos são tímidos que se desmentem”. Ela riposta “Tem cá uma memória!”. Estava no papo. A casa, pérfido leitor.
Perpassado o hall de entrada, deparamo-nos com a cozinha. A exaltação da multitude de electrodomésticos finou-se e, olhando para a fruteira, foge-me a goela para a frase “a fruta e os gostos, fora de época, sabem melhor, mas são mais caros”. A donzela, num espasmo sedutor, açoita-me carinhosamente o braço. Prosseguimos a marcha. A sala-de-estar, asseada com lavanda e com a frescura de uma brisa marítima, cristalizou o foco da cliente. Com a última gama do chaise longue da Chateau d’Ax, tentou convencer-me a interromper a visita e a fazer explodir a rolha do Raposeira Super Reserva Espumante Távora-Varosa. A intimidação fracassou. Os meus tios eram assim. Chapa ganha, chapa gasta. Ou havia dinheiro para sofá, ou para champagne. No frigorífico, a par da garrafa, só constava um pacote de leite meio gordo. E, para conferir um toque de classe àquele certame, o resgate do frappé e dos copos finos mostraram-se capitais. “Não tenho coragem para as pequenas coisas”, admiti, de supetão, compenetrado na tarefa. Estas palavras inflamaram-lhe o desejo. Foi um ver se te avias, a partir deste momento.
Adentramos pelo mundo da higiene e da fisiologia. A casa de banho, palavras da cachopa, “segredava-nos a um banho” porque “a coleção Carmen obrigou-nos a viajar ao passado para realçar o valor do trabalho em porcelana, madeira, mármore ou vidro. As pinceladas artesanais dão forma ao mobiliário, torneiras ou banheiras que, embora evocando outros tempos, não desistem das inovações atuais, tais como a tecnologia Rimless que facilita a limpeza das casas de banho”. No que concerne a loiça sanitária e peças decorativas sincronizadas, a jovial optou sempre pela Roca. Eu ripostei, içando a bandeira da Valadares. O diálogo subiu de tom. Finalizei-o com “nunca se deve esgotar a bílis, porque se esgota o assunto”. A voltagem sexual ascendeu a outro patamar e foi proposto um banho, para arrefecer. A temperatura rondava os 36º e a ponderação valor semelhante. A recusa derrotou a aceitação. O amuo soou e traduziu-se em desagrado por parte da visita: “pensar é o acto mais violento que há”, sentenciou.
Encolerizada pela nega, saiu esbaforida rumo a outra divisão. Penetrou o antigo covil dos meus tios e repousou sobre um espécimen de divã. Calmamente, caminhei na direcção da mulher, fixei-lhe a mão no ombro e anunciei “este é o reduto dos antigos inquilinos. Aqui, neste leito, foram realizadas algumas obras pecaminosas, ilícitas. A meu ver, algumas até foram consideradas demasiado ousados para serem concebidas neste pedaço de madeira, dada a massa corporal dos dois intervenientes. Mediante isto, repare na qualidade do colchão. É da altura da compra da cama. Tem mais de 25 anos”. O olhar feminino fuzilou-me. Momentos depois, planou rumo à minha testa uma cristaleira, datada dos idos 1997, ano no qual os familiares juraram combater o tabagismo. “A opinião de um porco como você deve ser registada, porque pode fazer adeptos” embateu no parco desmaio que me assolou e parou junto ao traçado sanguíneo que manchava o tapete cor de ovo. Ouvi a porta a bater e cerrei as pálpebras.
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação