OPINIÃO: Como surrealizar um hobby – prólogo

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Um texto pode ser encetado com um suspiro? E com uma pergunta? Com a gracinha, não tombou molar algum. Pelo menos, até ver. Vai na volta e a língua invade território baldio na gengiva e constata o interregno naquela bancada parlamentar. Regista-se a ausência do deputado (lá)vagante. Quando o nada se quer pronunciar, sibila-se sem sílabas. Este período é desaconselhado aos disléxicos da língua de Paulo Coelho, porque a referência a Luís Vaz de Camões está gasta que nem calça de ganga com remendo. A coceira e as esfregas encavalitam-se na soma da impotência com a irascibilidade. Palavras para quê? Convoquemos a literalidade e deixemos de plantão a interpretação, não vá Gil Vicente tecê-las.

Às perguntas “no século XXI, a surrealização ainda é viável?” e “A digitalização vem ababelar os alicerces da surrealização. Está em risco a continuidade da prática?”, os inquiridos responderam consoante o ruminar da veneta. De um modo muito específico, as respostas vagueiam entre o espírito da maior generalidade e do menor grau ecuménico. Talvez me acusem de pormenorização exacerbada, mas não podemos agradar a galegos e a frades dominicanos. Perdão. A labregos e a luteranos. A propósito, receberam o convite para a cerimónia da entrega da Exsurge Domine, promulgada pelo Papa Leão X? Nem sei o que hei-de vestir! Gastei uns bons dobrões num belíssimo conjunto: um quipá, um sari e umas botas de cano alto da última colecção da ALDO. Pena o cano ser subterrâneo…

Ceci n’est pas une pipe. E, na prática, há uma linha que separa o calçado de um cano: desde o material utilizado para o fabrico até à designação da parte cilíndrica que cobre a perna, componente que advoga a des(favor) da estatura do calcetado. Os antepassados presentes inculcaram-me no caminho da visualização de obras de arte e René Magritte tem o condão de pincelar sobre a disposição momentânea veementes tonalidades de asco. O quadro Filho do Homem – representação de uma maçã num primeiro plano, sobreposto à figura de um ser humano – induz a um manancial de indagações. A saber: o retrato é fiel àquilo que entendemos por maçã? O garante da figura masculina por trás da maçã é sóbrio e dado como axioma? Que marca se prestou ao serviço de vestir o protagonista? O fotógrafo considerou, por motivos que me são alheios, a “instagramabilidade” do clic. Porquê?

Até ao momento, vivalma tem analisado as estatísticas que contabilizam toda a estirpe de interacções digitais. O vivo corpo, vetado no caos rodoviário de final de tarde, aguarda a transição do pobre pantone do semáforo com o intento de se dirigir para a aula de cardio, seguida de treino funcional e musculação. No sábado, há jogo de padel com mais uns conhecidos daquela faina e, não fosse o aviso de outro vivo corpo, adornado de arabescos, o sofá do T1 sofreria a punição. As sevícias perpetradas naquele objecto, atentos à mandíbula de quem as relata, roçariam a sublime loa. Felizmente, o chaise-longue tem olhos, câmara incorporada em cada almofada e um sistema anti-obesidade implementado. Faz pi-pi-pi e tudo.

O sistema nervoso central emperrou. As fibras deixaram de transmitir informação e na célula nervosa cansou-se de processar os nutrientes. O domínio de zeros e uns ainda enerva uns quantos. Não há neurotransmissor que sobreviva, nem alteração química que valha. Sempre que concedo a minha atenção ao Homem e Ele a utiliza como respaldo para a demonstração de maquinaria, invariavelmente, o hipotálamo derrete. Está visto, está estudado, está documentado, está comprovado, está devidamente registado pelo notário. “Vês, a air fryer desliga por si e tudo”. E tudo não. Não se liga sozinha, correcto? Não sabe baralhar cartas, verdade? Não sabe equilibrar um pau comprido no nariz, está claro? “O telemóvel que comprei regista a tua frequência cardíaca sem precisares de instalar qualquer aplicação e tudo”. E tudo não. O telemóvel cozinha farófias? Concatena as inúmeras revistas Maria por ordem de lançamento? Auxilia na extracção de restos alimentares que se infiltram entre os dentes?

Em certas situações, mas somente nas situações certas, as porcas torcem os rabos, encaracolando a pequena cauda. As porcas sentem quando chispam com os da pocilga vizinha? Há chispa entre porcas da mesma pocilga? Na comunidade suína, o contexto é abonatório do patriarca ou da matriarca? Em Mamma Roma, os mamíferos artiodáctilos corporizaram o leque de convidados. A referência é literal e não personifica um comentário ofensivo aos noivos. Contra os visados, nada a depor. Adoro Franco Citti e o fiozinho de bigode que tão bem lhe assenta. Passeiam pela frente das mesas em formato “u”, enquanto os homens comem e bebem à fartazana, brindam aos noivos e cantam à desgarrada, fixados no improviso. As crianças saltitam e correm pelo edifício humilde, os porcos entestam o solo e apressam-se para ressaltar o sobejo. A sujidade é equacionada pelo espectador, mas o filme é a preto e branco. O monocromatismo atrapalha, mas a ausência de pipocas e Coca-Cola enfurece.

Mário Cesariny, secretário-geral do movimento, afirmou, em sede imprópria, nos idos anos setenta, que seria tempo de colocar o surrealismo na gaveta porque o país estaria em esdrúxula asfixia. Acedi a este pedido, apesar de ainda ser um microscópico espermatozoide que povoava os testículos de meu pai. Hoje, em pleno século XXI, defendo a negação absoluta do surreal assim como me insurjo contra quem não convida animais omnívoros para bodas. As touradas recentraram o debate político, mas no reino animal esta problemática supera-a. Há mais casamentos do que touradas por ano civil. E, sim, alguns casamentos também são touradas.

Apercebo-me que vos dei um motivo para dizerem que leram algo surreal. Ou será insigne farsa? No meio dos dois pólos, está o conceito.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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