OPINIÃO: Arquipélago M – vedaram-me a entrada e a estadia

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Perante o ilusionismo, sempre arrastei o corpo presente. As cartas, o copo que albergava a bola vermelha, o ser humano com temeridade de leão e convencido a planear uma mentira para desunir os membros superiores dos membros inferiores, os coelhos e as pombas no interior de um objecto que tanto pode ser revisto em fotografias do século XIX como em cerimónias de encerramento de cursos do Ensino Superior, o desaparecimento abrupto de uma moeda ou material de dimensão análoga para sabe-se lá onde, possuindo uma das palmas da mão como ponto de partida para o momento repleto de graça e o desconjuntar de parte do dedo polegar – e, em simultâneo, e vocalizar “olha o que eu consigo fazer com o dedo”, seguido de um sorriso fátuo – acomodam perenes quezílias entre o espírito e o corpo que encerro. A relação encetou com fama reduzida e a magia agravou-lhe o estado de saúde.

Durante décadas, a magia e os servos emparelhados foram sócios maioritários da Via Verde. Bem, isto é uma afirmação falaciosa e passível de mimo judicial. Reformulo, para não ter problemas com a Justiça. Longe de mim querer afagar a morosidade na área. Despudoradamente, afirmo que os mágicos empunharam, em todas as circunstâncias, a carta branca para o entretenimento. Com ou sem abrenuncia, como diz quem pavoneia os trapos pelos cafés da aldeia e promete só jogar duas partidas de Sueca mas, quando dá conta, jogou dez, descurando de substituir uma peça de vestuário pelo tamanho acima. No dicionário que ando a compor, abrenuncia pode ser entrada sinónima do anúncio de uma vaga para um representante diplomático da Santa Sé com o posto de embaixador e a palavra de ordem dita por um deputado da Assembleia da República sempre que é realizada a aproximação ao seu leito.

As traves-mestras do comportamento são decalcadas pela parábola dos fígados: O Mau Fígado e o Bom Fígado, o Fígado Moral e o Fígado Imoral, O Fígado Correcto e o Fígado Incorrecto. Ora, já viram onde é que esta patranha irá desaguar. Sob a vigilância da minha retina, tudo o que circunscreve a linha ténue entre o aprisionamento daquilo que observamos e a subtracção do que deixamos de fitar é obra de um Belze pertencente ao universo do ilusionismo e, por conseguinte, qualificada com os epítetos negativos. Viram? A última sílaba da palavra “Belzebu” desapareceu e nenhum detective reuniu condições, sequer, para investigar o caso. Esta frase, no momento em que é lida, esconde a partícula “bu”. Onde estará? Neste mundo ou em qualquer outro que exista? No lado oculto da vida ou no lado luminoso da morte? Dentro de um acessório com vários compartimentos ou num daqueles copos, juntamente com a bola vermelha? Um mágico não revela os seus truques.

Numa escala de zero a cem, quão previsível foi ter rematado o parágrafo anterior com uma das frases mais frívolas de sempre? A boçalidade constitui nódoa que teima em manchar a pele. Nas últimas lavagens, utilizei Skip, na esperança de sair afortunado. Preenchido o espaço do fait-diver quinzenal, o córtex cerebral foi saudado pela manobra de Heimlich e emitiu a batelada de sinais de maneira a rememorar os mimos. O mau fígado permanece, firme e hirto. O grau de irascibilidade aumentou na medida em que o novo assunto surge acoplado à temática da magia. De modo a evitar amargas surpresas, assevero que a expressão “grau de irascibilidade”, no meu entender, comporta a agressão verbal e física. Rebobino, rebobino, rebobino. Na gaveta da magia/ilusionismo, deixei Mr.Woland e as suas tropelias pelo facto de a carta já ter sido utilizado em crónica bolorenta. Mikhaíl Bulgákov desculpar-me-á e agradecerá, com toda a certeza.

A mímica, por toda a emoção e recreação que conferiu ao jogo de tabuleiro Party and Co, merece ser socorrida da chuva de reparos que sucederá e agasalhada com os elogios mais rasgados. Por isso, antes da tempestade, a bonança: mímica, és baril ao quadrado. Nesta área, o nó górdio prende-se com a existência de mimos enquanto artistas de rua ou de espectáculos e a relativa diferenciação face ao comum mortal. O mimo é um técnico especializado/especialista/expert na imitação, na fuga a indelicadezas e no fingimento. Quantas vezes o semelhante desejou metamorfosear-se em Marcel Marceau – defronte de um indivíduo ou de uma multidão – de lutar contra uma terrível ventania, locomovendo-se em parcos metros e, a cada passo, sendo cuspido para o ponto inicial, de puxar uma corda num esforço hercúleo, de alterar a expressão facial através do auxílio da mão que escorre ou escala o rosto, de delinear o afamado moonwalk?

Em debate com pessoas do meu círculo, – se a geometria desrespeitar esta forma, pode utilizar-se o quadrado, o triângulo, o hexágono ou o pentágono? – acerca da importância da mímica e da sub-valorização dos verdadeiros artistas, delataram a falta de atenção de que padeci enquanto criança, sustentando a correlação formada entre a falta de comparência de carinho parental e o tracto de temas tépidos, frouxos, incapazes de contribuir para a mais desinteressante discussão no tecido social. Para o progresso e respectivo estímulo, desvincularam-me há três anos atrás, na altura em que os questionei sobre a vacuidade inerente ao fabrico de bancos, atentando na produção contínua – e, não menos importante, necessária daqui a 20, 50 ou 100 anos – de objectos com encosto (cadeiras, sofás e restantes).

Formalmente, não integrávamos nenhuma organização à margem da sociedade, envolta em secretismo e vocacionada para a filosofia, filantropia e para o sentido de fraternidade. Deixei, isso sim, de pertencer a grupos de Whatsapp de nomenclatura “Memória”, “Tertúlias às quintas-feiras?” e “Chinelos”.

Na qualidade de adulto, quando sujeito a eventos que agreguem o ilusionismo, desempenho figura semelhante à de Joane, no Auto da Barca do Inferno. O litígio entre mim e a compreensão de fenómenos ligados à magia persiste. Num dos meus ombros, há sempre uma figura de mau fígados a rir altivamente, ao passo que deixa cair propositadamente qualquer objecto, a fim de me lembrar que continuo sem apanhar o truque. Contudo, com a maturidade e o bom-senso conectado por Bluetooth, deixei de dar para esse peditório. Já não me afecta. O Luís de Matos já teve o sorte de ser o rosto de um poster anexado à paredes do local onde repouso. Superei o trauma e apartá-lo para junto dos arrumos que habitam a garagem confrangeu-me o âmago, mas foi o único plano que resultou na estadia de um elemento do sexo feminino por mais de dois minutos.

Quanto à mímica, apoiado no elucidativo relato patenteado em Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin, termino com uma pergunta: se um carpinteiro surdo-mudo, por ter colocado o casaco e o boné sobre o busto de Vladimir Ilitch Ulianov, apanhou dez anos de prisão, durante quanto tempo estaria encarcerado se lhe imitasse os tiques e trejeitos de fala?

Puf. Puf. Puf. O NKVD fez magia.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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