OPINIÃO: Contos sobre Terra Firme

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Pecarei, se disser que fui lacónico nas aulas de línguas, sempre que a turma era convidada – palavra bunker para “compelida” – a resumir uma obra que tivesse lido ou constasse no manual. A imoralidade, de modo imediato, penetra a lista de partículas constituintes da atmosfera, caso eu afirme manobrar com acuidade o Orkut, o Google Ads ou Photoshop e jure jamais ter ludibriado os professores de Design Gráfico e Web Design, sempre que os docentes se imolavam em pareceres elogiosos sobre as noções espaciais e estéticas por mim apresentadas. Eticamente, outra brecha anui a ruína dos princípios e valores fundamentais, acaso eu mencione as proezas efabuladas e endereçadas ao exército feminino, independentemente da patente e hierarquia militar.

Matutada a “idade da parvalheira” – a dúvida quanto à expressão ser considerada um regionalismo persiste – e suplantadas as captações, fui admitido no plantel dos adultos. Os meus pais, responsáveis pela equipa técnica e de scouting, simultaneamente, consentiram, na condição de despojar algumas das mentiras hospedadas com o regime de tudo incluído na minha alma. Confere. Adianto, desde já, o registo imaculado no campo contabilístico e fiscal. O Imposto Sobre o valor Acrescentado (IVA) liquidado no período compreendido entre o início de 2024 e o final de 2025 é um testemunho morto-vivo disso. Morto, porque saldado. Em certas ocasiões, compensa desterrar o matrimónio e convocar as camisas-de-vénus para a profissão de baby-sitter. Ser CEO de uma (pequena, média ou grande) empresa é secundário. Fundi-la num apartamento é liliputiano. Pisei terra firme.

Na incomensurável lista de condutas a replicar enquanto adulto, moderar ímpetos deve cimentar as posições dianteiras. Relativizar, como diz alguém mais adulto ainda. A moderação conduz-nos numa jornada sumarenta em consensos e profícua em contractos sociais. De repente, no íntimo mais recatado do ser, Moisés volta a dividir o Mar Vermelho, – subentendido como o lado mais férreo e drástico – a agitar as mãos, a orar em surdina e a esvair-se num dialeto que transforma o deus-nos-acuda em quietude. Albino Castanheira dirija-se à ala de Medicina Capilar. A idade assenta-nos as ideias, adiciona-nos novas camadas de ponderação e retoca-nos, numa operação tão ética quanto estética, o brilho. Albino Castanheira dirija-se à ala de Medicina Capilar. O termo técnico, oriundo de várias formações e conceptualizado por gurus na área, designa-se por “assentar em terra firme”. Albino Castanheira dirija-se à ala de Medicina Capilar.

Com os AirPods na posição natural, Albino Castanheira quase perdia a vez no atendimento clínico. Seria uma pena, uma vez que o topo da cabeça estava minado por pequenos pontos pretos cuja explosão estaria iminente. Em excesso, tal como tudo, a compenetração no mundo adulto traz dissabores.

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“As Bajancas, terras de ti’António e ti’Guilhermina, foram sondadas pelo cunhado Joaquim e sua esposa, Madalena. O casal, que detinha a propriedade cujo nome podia servir ao de um negócio da área da restauração com três estrelas Michelin, – a letra j lega o requinte – murchou assim que soube da partida do filho para a Marinha. A noite de Reis e o Carnaval, para o ti’António, encarnavam no Lúcifer das Celebrações. As cantorias e os disfarces que fossem dar uma volta ao bilhar grande, bem como aqueles que os maçavam. A doença, a morte, a violência e o sacrilégio confinam o Douro Vinhateiro. Que final trágico se abaterá sobre o romance de Miguel Torga, um dos mais célebres autores da Língua Portuguesa?”.

Durante uma apresentação de um livro, no Ensino Secundário, a pequena exposição acima descrita caberia, perfeitamente, no portefólio de um petiz escolhido aleatoriamente. Respeitasse ou não os escritores do Plano Nacional de Leitura, a estratégia era propalada pelo número de elementos da turma: o logos, imutável, desaguava numa fugidia contextualização da obra e das personagens que ocupam o lugar central do enredo, seguida de frases menores e puramente superficiais e incapacitadas para coser os protagonistas a sentimentos/emoções e, num segundo plano, a exemplos que o ilustrassem, e culminava na clássica interrogação sobre qual seria o desfecho do livro.

Nos ciclos anteriores, o último parágrafo da apresentação do livro apurado pelo aluno aconselhava a leitura do livro, caso a turma preservasse a sede de saber. Se quiserem saber o que aconteceu no final do livro “Perfume”, vão ter de o ler (sic). Absolvam-me os visados, mas a declaração que se segue será dolorosa de fitar: a Wikipédia tinha deixado a fralda há alguns anos e, após uma rápida pesquisa, esclareceu o parco quinhão de estudantes realmente interessados em satisfazer a curiosidade.

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Em 2017, Benjamim e Barnaby Keen produziram 1986, um dos álbuns cuja audição me embala os tímpanos desde a data de criação. Esperarem uma breve recensão ao trabalho da dupla de artistas constitui, no mínimo, um acto de coragem da vossa parte. Os mais cordiais afiançam que um crítico – independentemente da área artística na qual se insira – é sempre um aspirante a desenvolvê-la. Os mais emproados sustentam que o crítico é aquele cujo fracasso na área de actividade se agigantou perante si. Uma espécie de Adamastor, ao contrário. Nesta matéria, adopto a posição de Portugal e da Suécia no decurso da II Guerra Mundial. Só quis contextualizar.

De acordo com um comentário depositado no website Genius, no espaço reservado à faixa quatro do disco (Terra Firme), “a música é uma homenagem aos refugiados que saem dos seus países em busca de uma vida melhor na Europa. Refere-se em especifico à crise dos refugiados vítimas do Estado Islâmico que chegam à Europa em barcos sobrecarregados e não preparados para a travessia ao Mediterrâneo que não poucas vezes resultam em naufrágios e no fim do sonho, antes dele ser palpável”. Opto por seguir a embarcação, até porque não detive informações que a contradissessem.

Contudo, aprumo a esta crónica uma dúvida. O título estará bem empregue? Alguma ideia relacionada com mar ou maré não resultaria de uma maneira mais directa, concisa, lacónica? Na canção, se o entendimento não me fez uma rasteira, em momento algum é revelado ou noticiada a chegada do homem que navega a qualquer porto. Ora, das palavras de Benjamim, o máximo que a minha mente é capaz de depreender centra-se na presumível náusea sentida pelo tripulante daquele meio de transporte marítimo. Além disso, julgo que propor a alteração de letra ao invés da modificação do título me parece desfasado da realidade e das necessidades do povo português, uma vez que o processo se afigurava mais moroso. A menos que os gabinetes que trataram de aprovar a Lei da Nacionalidade se equipem de caneta, headphones e uma resma de folhas de papel.

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O New York Stories foi composto por três curtas-metragens – da autoria de Woody Allen, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese – e compilado na mesma fita. Embora utilizasse o verbo “tentar” – se a valentia me assistisse – no argumento de defesa, o que aqui ocorreu é mais uma imoralidade que não pode passar impune.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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