Esta terça-feira, 17 de fevereiro, é comemorado o Carnaval, que é uma data sobre a qual não se conhece a origem exata.
Há várias teorias sobre como surgiu o Carnaval, mas acredita-se que remonta aos gregos, que todos os anos faziam festas para agradecer aos seus deuses a produção agrícola desde meados dos anos 600 a 520 a. C. Mais tarde, em 590 d. C., a religião católica decidiu incluir esta tradição pagã nas celebrações religiosas da Páscoa.
Nos dias que antecedem a Páscoa, que simbolizam, para os cristãos, um período de tristeza e de reflexão pela morte de Jesus Cristo, realiza-se, por isso, uma grande festa em que todos os excessos são permitidos.
Atualmente, os países católicos usam o calendário gregoriano que tem por base o calendário solar usado pelos romanos, mas existem várias celebrações católicas que ainda são agendadas de acordo com o calendário lunar. Entre elas, está a Páscoa, uma vez que é uma data móvel. O Carnaval é comemorado sempre a uma terça-feira, 40 dias antes do primeiro domingo que se segue à primeira lua cheia que assinala o equinócio da primavera (altura em que se assinala a morte e ressurreição de Jesus Cristo ou domingo de Páscoa).
Na Idade Média, durante o período da Quaresma (os 40 dias que antecedem a altura que assinala a morte de Jesus Cristo), as pessoas deixavam de comer carne. Assim, os dias antes da Quaresma passaram a ser conhecidos como “carne vale” que, em latim, quer dizer “Adeus, carne”, daí a palavra “Carnaval”.
A palavra “Entrudo” era usada antigamente para designar o Carnaval (e ainda hoje é usada por muitos) e provém do latim “introitus” que significa “entrada”. No Entrudo, as festas pagãs celebram a chegada da primavera e, na religião cristã, comemora-se o início da Quaresma.
O Carnaval moderno, celebrado desde o século XIX, em que as pessoas se fantasiam e desfilam nas ruas, tem como modelo uma festa que se realizava em Paris (França).
Em Portugal, os primeiros registos do Carnaval datam de 1252. Hoje em dia, o Carnaval é celebrado em diversas zonas do país e de formas muito distintas. No Norte de Portugal em particular, estas tradições populares estão ligadas ao folclore e artesanato locais e delas são exemplo: a Festa dos Caretos, o Carnaval de Lazarim, o Entrudo do Pai Velho, o Entrudo de Vila Boa de Ousilhão (Vinhais), os Caretos de Palha Entrançada e o Pai das Orelheiras no Carnaval de Cepães (Fafe), os Juncetos e Juncetinas do Entrudono de Penedono, os Caretos de Portugal e Espanha no Carnaval de Bragança, o Carnaval de Famalicão, os Gigantones, os Cabeçudos e os Zés-Pereiras. Entre as celebrações mais populares do Carnaval, destaca-se também o de Torres Vedras, o de Loulé, o da Madeira, o de Alcobaça e o de Ovar.
As celebrações
Pelo país, são várias as formas de celebrar o Carnaval. Entre desfiles de carros alegóricos e participantes brincalhões ou foliões mascarados, as comemorações incluem referências internacionais e tradições populares portuguesas. Aqui ficam alguns exemplos do Norte do país.
Festa dos Caretos
Em Podence, uma aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros, há uma tradição secular nesta altura do ano que foi considerada Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2019.
Por estes dias, os rapazes solteiros vestem um fato de corpo inteiro feito de franjas de lã de cores vivas e colocam na cara uma máscara de metal ou couro com um nariz pontiagudo. Acrescentam ainda um cinto de campainhas, guizos e chocalhos (daí esta festa chamar-se também Entrudo Chocalheiro) e caminham pelas ruas fazendo muito barulho e provocando e “chocalhando” quem passa, especialmente as raparigas.
Estas personagens chamadas Caretos representam o “diabo à solta” e simbolizam os excessos, a euforia e a alegria permitidos nesta altura do ano, depois dos meses frios de inverno, celebrando também a fertilidade da primavera que se aproxima. São seguidos por rapazes mais novos (chamados de “facanitos”), que aprendem e asseguram a continuidade da tradição.
Carnaval de Lazarim
Em Lamego, na aldeia de Lazarim, o Carnaval é comemorado com máscaras de madeira esculpidas à mão por artesãos locais. Conta com caretos de madeira, demónios e senhorinhas e caldo de farinha.
Os caretos levam ferramentas agrícolas e os seus trajes, nos quais é utilizada a serapilheira, apresentam diferentes elementos da Natureza, como entrançados de palha, lã ainda por fiar, espigas de milho, vides da videira, entre outros.
A festa começa com a leitura dos testamentos do Compadre e da Comadre que são uma lista de defeitos ou críticas (ou quadras satíricas de crítica social) feitas pelos rapazes às raparigas da aldeia e vice-versa e acaba com o “enterro” dos compadres. Depois de ser anunciada a sua “morte”, as personagens que tinham liderado o desfile pelas ruas da aldeia e lido os respetivos testamentos são substituídas por bonecos que vão ser queimados.
No final, servem-se um caldo de farinha e uma feijoada de porco regados com vinho da região.
Até março deste ano, o Entrudo de Lazarim encontra-se em consulta pública para inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
Entrudo do Pai Velho
Na aldeia de Lindoso, no concelho de Ponte da Barca, o Carnaval é assinalado com um desfile de dois carros de bois decorados pelas ruas, que traz à memória as origens desta data na festa pagã que celebra o fim do inverno e o início de um novo ano agrícola.
O primeiro carro transporta o busto do Pai Velho, que representa o inverno que termina, e o segundo carrega ervas que representam a primavera.
A festa inclui ainda a leitura do testamento e queima simbólica do boneco do Pai Velho.
Outros símbolos do Carnaval em Portugal
Nas festas de Carnaval pelo país, desfilam também outras figuras, como bonecos ou marionetes de vários tamanhos, conhecidos como gigantones e cabeçudos.
Gigantones
Os gigantones são bonecos que formam réplicas de seres humanos de grandes dimensões, que podem atingir os quatro metros de altura e possuem uma cabeça grande.
Geralmente, a cabeça é feita de pasta de papel e assenta numa estrutura própria, que é vestida a imitar roupas humanas.
Um gigantone pode pesar cerca de trinta quilos e a sua articulação e movimentação é feita por uma pessoa escondida no interior da estrutura metálica.
Muitas vezes, nas festas tradicionais e em festejos de Carnaval, aparecem aos pares ou em grupos maiores e são caricaturas ou representações exageradas e divertidas ou cómicas de personalidades famosas, como políticos, artistas, desportistas, etc.
Cabeçudos
Os cabeçudos são bonecos também de grandes dimensões e com uma cabeça grande, que podem ser vistos em cortejos alegóricos ou carnavalescos.
Usam a mesma técnica de construção dos gigantones e também podem representar personalidades famosas, mas a diferença está no facto de que apenas é feita uma enorme cabeça que se coloca sobre os ombros de uma pessoa. O aspeto final é um boneco com uma enorme cabeça, demasiado grande ou desproporcional para o corpo que a carrega.
Zés-Pereiras
Tanto os gigantones, como os cabeçudos aparecem sempre acompanhados de uma banda de música de instrumentos de percussão (caixas de rufo, timbalões e bombos) e aerofones (pífaro e gaitas de foles) conhecida como zés-pereiras.
Embora pareça uma abreviatura do nome José Pereira, não consta nenhuma referência de uma pessoa assim chamada associada à criação deste tipo de banda de música popular.
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