Sahri Dessert Art oferece memórias comestíveis ‘geek’ em forma de bolos e bolachas personalizados

Sílvia Baptista, Sahri Dessert Art

Com fotografias e vídeos, registamos momentos e pessoas que nos marcaram e que podemos guardar para sempre. Mas também há sabores e cheiros que nos fazem recuar na memória até àquela festa de aniversário temática em que conseguimos reunir pela primeira e única vez os amigos todos. Através da Sahri Dessert Art, Sílvia Baptista traz universos de séries, filmes e jogos à vida, em forma de bolo ou bolachas, e permite marcar no tempo determinada ocasião com apenas uma dentada.

Entrámos no ‘multiverso’ de Sílvia Baptista, muito organizado e repleto de referências geek, com personagens em miniatura ou em peluches e quadros, e assistimos ao concretizar de uma das suas paixões: a pastelaria. Mas não é uma pastelaria qualquer. É pensada e elaborada ao pormenor, com esculturas realistas, por vezes; outras vezes, com uma experiência sensorial e visual através de uma bolacha. E o mais importante: amor pelo que faz e ser fidedigna à cultura geek que transmite em cada migalha.

“Adoro o que eu estou a fazer, porque eu sempre fui uma mulher/rapariga de mil e um hobbies”, conta ao Jornal Referência, lembrando que já desenhou, pintou, bordou e esteve uma década a fazer cosplay. Há cerca de dois anos e depois de já ter tido outros contactos mais informais desde cedo com a pastelaria, decidiu lançar-se nesta área, primeiro como hobby e oferecendo bolos a amigos e familiares. No ano passado, formalizou todos os processos e transformou a Sahri Dessert Art num negócio, o seu side quest.

O nome vem exatamente do nickname que usava nessa altura em que trazia personagens à vida através da roupa e comportamento, juntando depois a expressão “Dessert Art” para simbolizar literalmente o que faz: “arte em sobremesas”. Agora, continua a fazer o mesmo com as personagens, jogando com sabores e com a ajuda de um ‘player 2’ imprescindível: o forno.

“Eu tenho o inside geek, porque sou geek desde sempre e estou dentro da cena, ou seja, eu sei o que é que aquela pessoa pode procurar ou não e, mesmo que eu não saiba o que a pessoa procura, porque eu não conheço todos os universos – é impossível -, sei o que perguntar. E isso, muitas vezes, é o que dá o head start para começares”, partilha Sílvia Baptista.

Sahri Dessert Art
Foto: Ana Regina Ramos/Jornal Referência

“O sabor é muito importante”

As suas inspirações passam pelos mais diversos mundos, desde “Interstellar” a “Batman”, mas também estão nas pequenas coisas do dia a dia que, de repente, fazem acender uma lâmpada na sua mente.

Todo o tipo de pedidos dentro deste género geek são bem-vindos, mas Sílvia Baptista acredita que o seu “super poder é criar” e, por isso, claro que prefere que lhe deem liberdade criativa. Contudo, se tiver de ter como base uma determinada personagem, o seu toque pessoal – ou “twist”, como gosta de chamar – estará sempre presente. “E não estamos aqui a falar de preço. É aquilo que eu sou capaz de fazer dentro do tema que a pessoa me dá. Eu sei que sou capaz de dar o meu melhor quando sou eu a desenhar, porque eu estou a visualizar aquilo”, explica.

Sahri Dessert Art
Foto: Ana Regina Ramos/Jornal Referência

Já que tem formação em Artes Plásticas e sabe um bocadinho de tudo dentro desta área, a maior aposta que quer fazer é nas esculturas, no fator “wow”, sem descurar nunca o sabor. O objetivo é quebrar o estigma que diz que “o bolo era bonito, mas o sabor nem por isso”. “O sabor é muito importante”, garante.

“Quero oferecer um bom clássico, que toda a gente poderá gostar, com aquele wow factor do lado de fora. Ou seja, tens a experiência do lado de fora e, depois, a experiência do corte… aquele bolo ‘fotografável’, com aquele cheirinho geek”, exemplifica.

E não só. Também a embalagem conta. “Prezo muito também pela experiência de unboxing, que é muito importante. Tens aquela cultura toda do unboxing pela Internet fora, que, no fundo, é o teu primeiro contacto com o produto e, se tu te sentes mimadinho, é bom: ‘vou comprar outra vez’”, reflete.

“Quero que a comunidade geek se sinta vista numa sobremesa”

Acima de tudo, Sílvia Baptista quer “mimar a comunidade geek”, uma vez que considera, hoje em dia, ao contrário dos “anos 90/2000”, “há toda uma glorificação dos geeks”: “eu própria sinto-me glorificada, depois de tantos anos a ser chamada de esquisita porque lia livros em vez de sair à noite”.

“Eu quero que a comunidade geek se sinta vista numa sobremesa. Porque arranjares coisas assim tão personalizadas é possível, arranjas quem faça, mas não com a alma que eu tenho e eu acredito firmemente nisso”, assegura.

Sahri Dessert Art
Foto: Ana Regina Ramos/Jornal Referência

Por outro lado, a pessoa que a vai receber “pode ser mulher, homem, criança, adulto e o tema é aquele, não foge”. “Tu não tens estereótipos de género neste tipo de pastelaria. Ou seja, é mais fácil trabalhar e ser criativo. Eu não falo para mulheres ou para homens, eu falo para geeks”, refere.

“Eu acredito que, tendo este tipo de comunicação, torno o aproximar mais fácil, porque é aquilo que a pessoa procura. Estou ali para ajudar e para fornecer o melhor serviço possível, mesmo que não feche o orçamento. Porque as pessoas também se lembram disso, da atenção, do cuidado a escrever, do ouvir”, reforça Sílvia Baptista.

Sahri Dessert Art
Foto: Ana Regina Ramos/Jornal Referência

Cada bolo e cada bolacha conta uma história

“É um acréscimo ver a experiência que a pessoa tem, que gostou tanto”, acrescenta, referindo que gosta muito de oferecer e vive “um bocado pela reação das pessoas”. “O facto de querer oferecer este serviço também advém um bocado daí, do género, dar bons momentos, dar memórias. Porque, para mim, isto não é só um bolo, não é só um conjunto de bolachas, é uma memória numa caixa comestível. E o que fica é a memória daquele sabor, é aquela trincadela que deste naquele momento. É por isso que eu faço o que faço”, sublinha, mencionando que “o dinheiro vem por acréscimo”.

“Faz-me feliz fazer pessoas felizes. Adoro as reações. É todo um carinho que vem do fazer, do estar a acompanhar. No fundo, eu estou a acompanhar a história da pessoa naquele momento e a pessoa quer contar uma história com aquele bolo, seja aquilo que ela gosta, aquilo que ela é. E eu, ao estar a fazer o bolo para a ocasião, estou a fazer parte dessa história. É o ajudar a trazer à vida a visão que a pessoa tem”, concretiza.

Até agora, Sílvia Baptista já fez parte, pelo menos, de dois grandes momentos da vida de duas famílias: um pedido de casamento e um casamento. O pedido de casamento foi feito através de bolachas com o tema “World of Warcraft”, que não só foi o seu primeiro jogo, mas também fez com que se lembrasse e identificasse logo com a cliente: “é engraçado como a minha história e a dela são um espelho. Foi tal e qual. Conhecemo-nos [eu e o meu marido] a jogar e acho que eles também. É incrível tu teres uma conexão com o cliente dessa maneira”. “Fiquei tão entusiasmada. Ela disse que ele [o noivo] achou a ideia super engraçada, fora do comum. Óbvio. E que adorou o aspeto, que estavam muito boas e isso, para mim, também não tem preço. É muito incrível”, diz, com um sorriso no rosto e revelando que o noivo aceitou.

Quanto ao bolo de casamento, teve como tema “Dark Romance” e demorou cerca de três dias a estar pronto, mas foi um projeto de preparação de meses. “Este foi um first aqui no atelier e foi mega especial”, escreveu Sílvia Baptista na partilha que fez do processo nas redes sociais, explicando todos os pormenores da decoração, que vão desde rosas a borboletas e folhas em chocolate de modelar.

“É incrível! Histórias para contar e tudo mais… não tem mesmo preço. Há coisas que eu realmente não consigo pôr em palavras porque é aquilo, é aquele sentimento, é muito cru. E, à medida que vou avançando enquanto profissional, há coisas que vou aprendendo e não falo só da técnica de pastelaria”, completa.

“Isto é todo um processo também terapêutico, porque aprendes sobre ti”

Resiliência, paciência e “todas as ‘ências’” que dão para imaginar são algumas das palavras que cada vez mais têm ficado no vocabulário de Sílvia Baptista desde que começou este negócio. Também a gestão da ansiedade de querer fazer, terminar, fotografar e mostrar logo tem sido um grande desafio.

No entanto, “confiar no processo” e perceber que é melhor tentar e errar do que não tentar tem sido o seu segredo e aquilo que mais tem aprendido a nível pessoal. “Isto é todo um processo também terapêutico, porque aprendes sobre ti ao estares aqui a sujeitares-te a que as coisas corram mal”, defende.

“Difícil, muitas vezes, é o processo de tentativa-erro, porque, às vezes, o que funciona na tua cabeça não posso reproduzir, mas isso faz parte. No fundo, é ter o espírito de ‘cientista maluco’, porque acho que sem esse espírito não vais muito longe, ficas presa àquilo que tu sabes e não exploras”, considera.

Sahri Dessert Art
Foto: Ana Regina Ramos/Jornal Referência

Além disso, conciliar a pastelaria geek – algo que aprendeu sozinha e que tem vindo a explorar ao longo do tempo – com a sua profissão principal como programadora, que executa em teletrabalho, é também “desafiante” e “muito solitário”. Porém, também ajuda a que saiba tratar sozinha de outras tarefas em que, se calhar, noutros casos, seria preciso contratar outro profissional.

“Eu tenho muito a mentalidade de: ‘olho para uma cena e penso quão difícil é isto? Não é assim tão difícil, pois não?’. Eu vou e faço e quero fazer e quero experimentar e quero aprender. Então, eu pensei: ‘o quão difícil será fazer arte com comida?’”, compartilha.

“Tem sido um processo espetacular. Gosto mesmo e as coisas que se aprendem… e mesmo não só em pastelaria, mas trago também para a vida pessoal. Não só faço sobremesas melhores aqui para casa, como também para os meus”, diz ainda.

Sahri Dessert Art
Foto: Ana Regina Ramos/Jornal Referência

“Ser geek é sinónimo de comer”

Como autodidata que é, Sílvia Baptista está sempre à procura de fazer mais e melhor e, por isso, vai fazendo alguns produtos para criar portefólio e está a explorar novos formatos, técnicas e sabores para preencher o seu menu.

“A minha ideia é também ter não só esta parte dos personalizados, mas também quick snacks, ainda dentro da cena geek. Para mim, ser geek é sinónimo de comer. No fundo, todas as ‘geekices’ que tu fazes hás de estar a comer alguma coisa”, afirma, adiantando que está a testar bombons recheados e uma maior especialização em bolos em 3D.

“Até porque também é excelente oferecer bombons, portanto, tudo na base do oferecer. Fazer pessoas felizes, sempre. Premissa. E, lá está, fazer-me a mim também, porque eu adoro fazer isto”, admite.

Esta semana, a Sahri Dessert Art teve ainda um grande lançamento para assinalar o Dia do Orgulho Geek, na passada segunda-feira: sprinkles.

“Tenho reparado bastante… comprar um bolo destes é caro. Então, eles vão ao supermercado comprar. Fixe, tudo bem, sabem bem, estão em conta. E eu pensei: ‘ó pá, e se eu fizesse aqui um produto que transformasse esses bolos ‘meh’ em aspeto numa coisa mais deles, mais elevada, mais personalizada?’. Neste caso, eu pensei em sprinkles geek, porque é o meu tema, mas é uma coisa que realmente transforma”, destaca. Estão disponíveis três gamas de sprinkles, que vão desde ícones de comandos e poções a espadas e escudos.

Para encomendar estas “pequenas obras de arte comestíveis”, a Sahri Dessert Art disponibiliza um website e redes sociais, através dos quais é possível ganhar inspiração para o pretendido. Os bolos poderão ser levantados presencialmente na cidade do Porto e as bolachas estão disponíveis por encomenda para toda a Europa.

Sahri Dessert Art
Foto: Ana Regina Ramos/Jornal Referência

Por cá, nós já experimentámos e aprovámos: bolachas red velvet com recheio de chocolate branco e framboesa, com pedaços de Oreo, bolachas com pepitas de chocolate de caramelo salgado e um bolo também red velvet inspirado no jogo “Diablo”.

Foto: Ana Regina Ramos/Jornal Referência

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