Uma mesa e muita imaginação: Grupo “Bad Decisions” junta amigos para divulgar o jogo DnD

Bad Decisions, Dungeons and Dragons

A imaginação é a base de uma boa história (fictícia) e também de brincadeiras entre amigos. Os jogos criam espaços onde ela, muitas vezes, ganha forma e, ao mesmo tempo, permitem que seja possível desligar das vidas corridas.

Da lógica aos filmes, à cultura geral ou ao mundo digital, a escolha do tipo de jogos é muito variada, mas, nos últimos anos, há um estilo que tem tido cada vez mais fãs: “Dungeons and Dragons” ou simplesmente DnD/D&D.

Trata-se de um jogo de RPG (Role-Playing Game), ou seja, de interpretação de papéis. O nome DnD (“Masmorras e Dragões”) vem do primeiro jogo criado, há mais de 50 anos, por Gary Gygax e Dave Arneson, nos EUA, que surgiu inspirado nos jogos de guerra para que fosse possível controlar personagens individuais em vez de apenas exércitos.

Bad Decisions, Dungeons and Dragons
Foto: Ana Ramos

Nas sessões de DnD participam vários jogadores que criam uma história coletiva e escolhem um deles para ser o mestre do jogo, ou seja, o Dungeon Master, que vai atuar como narrador e uma espécie de juiz. O objetivo não é bem perder ou ganhar, como por exemplo, num jogo de sueca, mas, sim, interpretar uma personagem, interagir com os participantes e reagir a desafios e dilemas. Os mundos do jogo podem ser clássicos, com personagens já existentes, ou então originais, e é aqui que entra a criatividade para lançar papéis fictícios ou até mesmo humanos e perfeitamente plausíveis no mundo real.

Desde então, lançaram-se vários jogos, livros, merchandising, comunidades mundiais e nacionais, transmissões ao vivo pela Internet e até mesmo eventos sobre o tema. Os apaixonados por aliar a criatividade de uma boa história à tomada de decisões em forma de jogo foram crescendo, são agora milhões à volta do mundo e há também outro fator que contribuiu para a divulgação do DnD: o facto de o cinema abordar este tema, como foi o caso da série “Stranger Things”, lançada em 2016.

Bad Decisions, Dungeons and Dragons
Foto: Bad Decisions

Grupo “Bad Decisions” quer ajudar a divulgar o tipo de jogo em Portugal

Em Portugal, não há muitos dados oficiais disponíveis sobre os jogadores, mas sabe-se que existem várias comunidades online e vários locais pelo país onde pessoas se juntam para jogar.

É o caso de Jorge Silva, que hoje em dia, além de juntar os amigos à mesa para beber um copo e conversar, também o faz para jogar as histórias que passa horas a planear. Trabalha como programador e é o Dungeon Master do grupo “Bad Decisions”, criado para partilhar o gosto pelas bases do jogo “Dungeons and Dragons” e, ao mesmo tempo, dá-lo a conhecer a nível nacional.

“Bad Decisions” (em português, “Más Decisões”) porque acredita que: “são as más decisões que criam a melhor história. Nenhuma aventura começa com uma boa decisão. Há sempre uma má decisão por alguém, alguma coisa. Depois, a correr bem, no fim, tornam-se boas decisões”.

Foi na altura da pandemia que, segundo Jorge Silva, surgiu a necessidade de procurar, a nível profissional, algo que lhe trouxesse mais realização. O ponto de partida foi sentir que gostavam da sua criatividade e ter descoberto, na altura, o jogo “Dungeons and Dragons”.

Jorge Silva, Bad Decisions, Dungeons and Dragons
Foto: Ana Ramos

“Quando descobri que isso tem a sua componente de improvisação e que as regras, na sua maioria, são basicamente guidelines, que podia criar a minha própria história, o meu próprio mundo, usar a minha criatividade e a minha imaginação como eu quiser, então, apostei nisso”, afirma.

Depois de ter explorado mais sobre o assunto, resolveu juntar alguns amigos e começaram a experimentar pôr em prática as bases deste jogo. “Eu escrevia as histórias, nós jogávamos e fomos melhorando estes aspetos à nossa maneira”, conta.

No entanto, ao longo do tempo, foram refletindo: “será que podemos fazer algo mais com isto? Porque, a nível global, há outros grupos, outras pessoas que, realmente, levam este jogo e a sua exposição a níveis extremos, a níveis muito elevados de produção, com muito sucesso e merecido”.

A resposta foi um ‘sim’ e, em abril do ano passado, resolveram lançar-se nas redes sociais. Começaram a gravar as suas sessões e a publicar os vídeos, já que acreditam que, “em Portugal, é algo que não é falado” e que é necessário ir além das referências que aparecem em filmes/séries.

Bad Decisions, Dungeons and Dragons
Foto: Ana Ramos

Foi em Gondomar que montaram o seu espaço de criação a que chamam “The Workshop”, onde já construíram alguns trabalhos e que têm vindo a apetrechar com todas ferramentas necessárias para criar um bom conteúdo para o público. A nível artístico, é um dos jogadores, Bruno Lima, que ajuda a concretizar algo que seja necessário, quer no desenho de cidades e miniaturas, quer noutros conteúdos customizados. “Ao menos, sabemos que, a nível nacional, quem quiser ver, vai ter algo bom, algo bem produzido”, diz Jorge Silva.

“A partir do momento em que nós nos estamos a divertir no que fazemos, do que fazemos, queremos tentar aumentar a exposição do conceito ‘Dungeons and Dragons’ em Portugal. Temos todo o gosto em mostrar às pessoas o que fazemos”, sublinha Jorge Silva, garantindo que é “algo muito único e é uma forma de escapatória e entretenimento única e de fácil adesão”.

Além disso, o grupo de amigos pretende também, de acordo com Jorge Silva, “lutar contra o estereótipo estabelecido na visão das pessoas no que toca a este jogo”. “Se alguém já ouviu falar de DnD, o pessoal salta para a conclusão: ‘ok, a pessoa é um geek’. Como se fossem coisas más, o que não é”, reconhece.

Bad Decisions, Dungeons and Dragons
Foto: Ana Ramos

Mas como funcionam, afinal, as sessões do grupo?

No total, na história atual, dividida em vários capítulos, há seis participantes além do Dungeon Master, que sublinha que o “livre arbítrio, a livre vontade” é o pilar do que fazem. Cada jogador interpreta uma personagem livremente e, então, Jorge Silva considera que, “se calhar, é por aí que surge o interesse em cada pessoa de querer aprender a jogar ou conhecer”.

O Dungeon Master tem a função de preparar, segundo mostra, “um cenário, um ambiente, um mundo, desafios, tudo muito abstrato e tudo muito inicial”. “O gozo é, depois, ao serem confrontados com essas descrições, com esses obstáculos, decidirem o que fazer. E, depois, o Dungeon Master tem, então, a responsabilidade de pegar nessas decisões e apresentar uma consequência, uma continuação e improvisar perante isso”, explica.

“Esse vai e vem, essa transação de informação, então, é que vai, depois, produzir a história e, de forma geral, chega-se a bom ponto, onde o resultado final é sempre muito bom”, continua.

No final das contas, além da profissão e do stress que têm no dia a dia, sabem que, de duas em duas semanas, se juntam ali e, durante algumas horas, a ‘história é outra’ e um dos ingredientes principais é a diversão: “é uma escapatória à realidade, ao que se vive durante a semana”.

Jorge Silva, Bad Decisions, Dungeons and Dragons
Foto: Ana Ramos

“Quem o prepara vai pôr uma parte de si”

“Ver a preparação disto e depois ver a acontecer e dizer são três coisas muito diferentes. A preparação é sempre feita com muito cuidado, até porque os meus jogadores, quando vêm e sentam na mesa, eles não fazem ideia do que vai acontecer”, comenta Jorge Silva.

Entre uma sessão e outra, revê todos os apontamentos que foi fazendo durante um dos capítulos e põe a imaginação a funcionar. Muitas vezes, pode passar cerca de 15 horas a preparar o próximo, prever decisões futuras ou até mesmo sessões extra.

“Aqui, a beleza do jogo também é: quem o prepara vai pôr uma parte de si mesmo na forma como prepara o jogo e também isso fica influenciado por quem esta a jogar. O jogo é um sistema de regras e, depois, aplicas esse sistema num cenário ou num setting à tua escolha e fazes isso funcionar”, indica.

A partir disso, no caso do grupo “Bad Decisions”, os jogadores reagem ao que lhes é dado e o Dungeon Master, consequentemente, reage às decisões tomadas, de acordo com as guias gerais (características e propósitos abstratos das personagens) que tem escritas para si ao lado.

E, por falar em reações, Jorge Silva admite que já viu: “todos os espectros de emoções ilustrado colocado em cima da mesa. Há de tudo. Aquilo é uma história, não é pessoal e é isso que se quer, é ver o impacto emocional das coisas”.

“Gosto de criar e de imaginar e fazer com que as coisas se tornem reais, mas gosto de ver as consequências disso. Essa é a outra parte, porque só criar – ok, é bom. Mas ver as reações… se tu consegues escrever uma combinação de palavras que faz uma reação emocional em alguém, estás a ganhar”, partilha.

Ao tentar expor ainda o que estas sessões de jogo trazem, Jorge Silva vai mais longe: “são pequenas sementes de ferramentas que te dão muito jeito na vida real em grupo, tomadas de decisão e como resolver os inevitáveis conflitos”.

Bad Decisions, Dungeons and Dragons
Foto: Ana Ramos

Grupo “Bad Decisions” convida à participação

Quanto ao futuro do grupo, Jorge Silva indica que pretendem lançar mais campanhas e gostavam que a página crescesse mais. Não descarta a possibilidade de, um dia, virem a ter uma campanha internacional, mas, independentemente de tudo, o objetivo é sempre manterem-se como um grupo de amigos que gosta de passar umas horas da semana a partilhar tomadas de decisões e criatividade.

Qualquer pessoa pode, entretanto, contactar o grupo através das redes sociais para experimentar jogar, uma vez que têm uma campanha (história) especial mais pequena para ser feita em menos tempo com a participação de jogadores que queiram apenas conhecer mais sobre este mundo.

Foto: Bad Decisions

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