A arte e a cultura têm muitas formas e feitios e são amadas por muitos. O teatro, que é uma forma de arte e de comunicação, conta histórias e faz com que os próprios atores possam viver outras vidas em cima de um palco e também despertar sorrisos na plateia. No primeiro artigo da nova rubrica “‘Bora ao Teatro”, vamos conhecer o GT O Povo Penafidelense e Paulo Jorge Oliveira, que acredita que é preciso “fazer rir as pessoas” e também por isso fundou um grupo na cidade que o acolheu.
É no centro da cidade de Penafiel, mais propriamente no Edifício S. Martinho – que, curiosamente, já foi um cineteatro -, que cerca de 10 mulheres e homens se juntam regularmente para interpretar e reviver o teatro de revista dos anos 40, 50 e 60. Têm profissões e ocupações distintas, mas uma coisa em comum: o “bichinho” do teatro.
Com base em “melodias antigas, as músicas conhecidas que faziam sucesso nos anos 50, 60, 70 ou antes e as pessoas gostam” e numa homenagem a vários atores, Paulo Jorge Oliveira escreve e reinventa cenas sobre o quotidiano, a sociedade e outros temas, mas com uma particularidade: “nós não temos política no teatro”. “Eu prefiro meter-me com as pessoas, ‘sacanear’ as pessoas, do que meter política. A política é assim: eles na casa deles, eu na minha. Acho que no dia em que eu mostrar um ‘sketch’ e puser a política, estrago o teatro todo. No país em geral, eu considero que, para eles, os políticos, é só números e a cultura fica para trás”, comenta o fundador do grupo independente.

No meio de diferentes músicas, danças e também poemas, estão as cores e os pormenores de cada roupa que trazem em cada atuação. São elaboradas com a ajuda de “uma amiga extraordinária” de Paulo Jorge Oliveira que é costureira e corta todas as peças com base no desenho do modelo que faz. “No fim de cortar, sou eu que coso, prego mangas, prego fechos… às vezes, ela dá-me ajuda”, acrescenta, revelando que ninguém sabe a roupa que vai levar até à véspera da estreia.
Há ainda interpretações de várias artistas portuguesas que Paulo Jorge Oliveira faz com especial satisfação. “Eu sou um grande fã das mulheres, eu adoro as mulheres. Nasci de uma mulher e eu adoro as mulheres. E, então, têm características que a gente pode apanhar, fazer tiques, sem achincalhar a vida. (…) Escolho as roupas e, depois, como as pessoas dizem que eu tenho umas pernas jeitosas e não faço nada por isso, eu ainda provoco mais com uma saia mais curta”, brinca. Nesse sentido também, está a criar um grupo de madrinhas do grupo de teatro que pretende que chegue às 50 mulheres.

Além disso, há sempre um ponto alto no final de cada época de revista com uma música conhecida: “a voz da pessoa que está a cantar para e as pessoas cantam sozinhas. Elas cantam essa música do princípio ao fim, a bater palmas”. “Isso é uma coisa assim espetacular, uma coisa grande. Para mim, é maravilhoso. E, depois, fazer as pessoas felizes naquele bocadinho é engraçado”, afirma ainda.
“Estamos num momento da vida em que a gente tem de fazer rir as pessoas. As pessoas já têm uma vida tão complicada, tão embrenhada em problemas que a gente tem de melhorar nesta hora, hora e meia que a gente tem de teatro”, continua.

“O teatro é muito bonito. Eu gosto de estar no teatro, gosto de fazer rir as pessoas”
Paulo Jorge Oliveira é também conhecido como Jorge Silva, mas apenas no mundo do teatro. Foi o nome que escolheu, num tributo à mãe, para se identificar como ator. Nasceu em Alcochete e foi lá e na zona de Lisboa que começou a dar os primeiros passos nesta arte.
Estreou-se oficialmente como ator amador a 9 de junho de 1986, com 19 anos, numa coletividade local, com sala cheia, e por isso mesmo é que fez questão de que a data de fundação do Grupo de Teatro O Povo Penafidelense fosse nesse dia. Ainda hoje se recorda que estava “muito nervoso” até porque também aguardava a chegada da atriz Ivone Silva, a sua madrinha de teatro, que ia participar nessa peça.

“Já tinha estado um bocadinho no Parque Mayer, mas foi muito pouco tempo e, quando ela saiu, ela disse no palco que me ia levar para o teatro, para o Parque Mayer, porque tinha muito jeito. Na altura, andava em operações por causa da mão. A minha rainha – a minha mãe -, quando foi à saída da coletividade disse-lhe: ‘a Dona Ivone, se quiser, ajude o mais que pode o meu filho aqui, mas não o leve para o teatro’”, conta.
Depois disso, Paulo Jorge Oliveira acabou por estar “muito tempo parado”, mas continuou, mais tarde, a fazer teatro e a ser animador cultural em várias coletividades na sua zona.
“Quando ia ao teatro, eu chegava cá fora e decorava tudo. Eu decorava os textos, os guarda-roupas… eu sempre desenhei. Eu tenho um dossiê lá em casa, algures não sei onde, com uma revista escrita e com o guarda-roupa todo desenhado a lápis. Há fatos que eu agora vou tentar descobrir para fazê-los, adaptados dessa altura”, lembra.
Entretanto, voltou a fazer uma pausa na representação devido à sua mãe ter ficado doente e, algum tempo depois, também veio viver para Penafiel, onde começou a dedicar-se profissionalmente ao artesanato religioso.

A viver na cidade há 12 anos com o marido e onde se dizem muito “acarinhados”, Paulo Jorge Oliveira quis prestar “uma homenagem ao povo de Penafiel” através do nome que escolheu para o grupo e associação de teatro: “agradecemos às pessoas de Penafiel por nos terem recebido”.
Em 2019, através da Associação de Artesãos Intermunicipal do Tâmega e Sousa, da qual é também presidente, organizou um concurso de vestidos de chita na junta de freguesia e, passados uns meses, um “concurso das Marias de Penafiel”. Estes dois eventos fizeram despertar novamente o “bichinho” e começou a pensar em fazer espetáculos de homenagem a artistas e teatro de revista. “Veio a pandemia e isso tudo, mas, depois, por causa da saúde, eu voltei a fazer e não mais parei, nem dá para parar”, refere.
Em 2023, depois de ter tido alguns problemas graves de saúde e ter estado internado, Paulo Jorge Oliveira decidiu que o hobby do teatro era para continuar e oficializou o grupo, como uma forma de não só fazer cumprir a sua paixão, como também ter mais uma atividade além do artesanato. “Eu acho que hoje, se parasse de fazer teatro, era um bocado complicado para a minha cabeça em não estar ocupado. A minha cabeça tem de estar ocupada”, partilha.

Hoje em dia, poder representar e ter um grupo de pessoas “extraordinário” com quem partilha este gosto é algo que o realiza. “É o dar largas à imaginação daquilo que eu sempre quis ser: ator de teatro”, confessa.
“Claro que não faço nada sozinho. Eu tenho de ter aquele grupo para fazer, porque eu, sozinho, não conseguia fazer tudo. Por isso, quem já esteve ou quem ainda está comigo, muito devo a eles por estarem aqui comigo, porque, se não fossem eles… por isso é que eu, no final, digo: ‘batam palmas para eles, não para mim’. Estou encantado com o meu grupo. É muito bom estar com eles, eles dão-me todo o apoio”, diz ainda, sublinhando o especial apoio do marido, que faz parte da direção e ajuda na parte técnica de som.

Para Paulo Jorge Oliveira, “o teatro é muito bonito”. “Eu gosto de estar no teatro, gosto de fazer rir as pessoas. O teatro, para mim, é um fascínio muito grande. É assim uma maneira de transvasar aquilo que tenho cá dentro e poder animar as pessoas, o saber que as pessoas estão a gostar, que as pessoas batem palmas, gostam das minhas brincadeiras, essas coisas todas. Isso, para mim, satisfaz-me imenso”, sublinha.

“Grande Noite no S. Martinho” termina este mês
Atualmente, o GT O Povo Penafidelense está em cena com a revista “Grande Noite no S. Martinho”, cuja última exibição vai acontecer no dia 30 de maio, no Edifício S. Martinho, em Penafiel, pelas 21h00. Algumas coisas são certas para essa noite: música, risadas e, claro, bolinhos de amor ou bolinhos de coco e um copinho de vinho do Porto ao intervalo.
Mas já há novidades para o resto do ano. Depois de uns meses de descanso, o grupo vai regressar a palco em outubro com uma nova revista sob o título “A Revista é linda”, numa homenagem a várias personalidades, como Maria João Abreu, Beatriz Costa, Vasco Santana e Nicolau Breyner.
Para o futuro, o fundador do grupo manifesta que gostava de conseguir um espaço para fazer um ensaio geral e onde pudesse ter um palco e cenários sempre montados e o guarda-roupa guardado.

Imagem: Ana Regina Ramos/DR/Jornal Referência