Este sábado, 25 de abril, assinala-se um dia histórico para Portugal. Desde 1974, este passou a ser o dia da liberdade para muitos e um dos seus grandes símbolos que dá também nome à revolução é o cravo vermelho.
A noite de 24 para 25 de abril de 1974 foi longa e a rádio teve um papel fulcral. Pelas 22h55, foi transmitido o primeiro sinal de que algo estava prestes a mudar.
Tocava “E depois do adeus”, de Paulo de Carvalho, que tinha sido a música vencedora do Festival da Canção desse ano e funcionava como um sinal secreto para a saída das tropas dos quartéis. Meia hora depois, noutra estação, a escolhida foi a canção de Zeca Afonso “Grândola, vila morena”, que confirmava o arranque da revolução.
Além disso, foi também através da rádio que foram ouvidas as primeiras notícias sobre os acontecimentos e as reações de quem acompanhava a revolução que viria a dar lugar à democracia em Portugal.
Em menos de 24 horas, forças militares ocuparam pontos estratégicos em Lisboa e derrubaram a ditadura do Estado Novo. O golpe de Estado foi encabeçado por um grupo de jovens capitães (Movimento das Forças Armadas) que pretendia repor o prestígio das Forças Armadas e a defesa da democracia como solução para negociar o fim da guerra colonial.
Já após a rendição de Marcello Caetano, presidente do Conselho de Ministros, a Junta de Salvação Nacional tomou as primeiras medidas legislativas, que passaram, sobretudo, pela dissolução dos órgãos do Estado Novo e a destituição de funções de todos os seus responsáveis.
No entanto, o período pós-revolucionário foi marcado por um clima de tensão e instabilidade políticas, o que ficou traduzido na constituição de seis governos provisórios entre maio de 1974 e julho de 1976.
Porquê uma revolução com nome de flor?
Esta revolução portuguesa foi uma das primeiras a receber o nome de uma flor (Revolução dos Cravos), que passou a ser, até aos dias de hoje, sinónimo de liberdade.
Existem várias explicações para que o nome dado tenha sido Revolução dos Cravos. A mais conhecida foi contada na primeira pessoa em inúmeras ocasiões, por Celeste Martins Caeiro, “a mulher que fez do cravo o símbolo da revolução”, como refere o título de uma entrevista publicada pelo Jornal de Notícias.
Na altura, Celeste Martins Caeiro trabalhava num restaurante que celebrava o seu primeiro aniversário justamente naquele dia. Quando lá chegou, o dono informou que não iriam abrir uma vez que estava a acontecer um “golpe de Estado”, mas pediu que os funcionários levassem consigo as flores que tinham para a celebração daquela data – cravos vermelhos e brancos.
À saída do restaurante, a lisboeta viu que estavam nas ruas os tanques e as chaimites e tentou perceber o que se passava. Entretanto, um soldado pediu-lhe um cigarro, mas como não fumava, decidiu dar-lhe a única coisa que transportava consigo naquele momento: um grande ramo de cravos.
O soldado aceitou e colocou o cravo no cano da espingarda. Celeste Martins Caeiro deu os restantes cravos que tinha aos soldados que foi encontrando pelo caminho e assim se fez história e criou-se o símbolo da revolução, que significava a paz e a ausência de violência.
Celeste Martins Caeiro faleceu em novembro de 2024, aos 91 anos. Também conhecida como “Celeste dos Cravos”, o seu nome está agora inscrito numa placa em Lisboa, desde abril de 2025, numa homenagem prestada pela Câmara Municipal de Lisboa. A autarquia também decidiu atribuir-lhe, a título póstumo, a Medalha de Honra da Cidade.
A placa foi colocada no local onde o cravo foi oferecido e contém o poema “Celeste em Flor”, de Rosa Guerreiro Dias.
Uma revolução (quase) sem sangue
Contudo, apesar de o 25 de Abril ter ficado para a história como uma revolução sem sangue e quase sem violência, não foi bem assim. A revolução teve uma grande adesão da população, que foi para a rua. No final do dia 25, perto de uma centena de populares dirigiu-se à Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, onde ficava localizada a sede da PIDE/DGS, a polícia política do regime ditatorial português que ainda não tinha destino definido depois dos últimos acontecimentos.
De repente, a dada altura, do alto do edifício, alguém (cuja identidade nunca foi conhecida) disparou sobre a multidão, ferindo 45 pessoas e matando quatro: João Arruda, Fernando Reis, Fernando Giesteira e José Barneto.
Cerca de uma hora depois, morreu também António Lage, referido como um “servente assalariado” da PIDE, que tinha saído do edifício e foi detido pelos militares, que, entretanto, haviam acorrido ao local e bloqueado os acessos da rua. Tentou fugir, assustado com os gritos de populares que pediam a sua morte, e acabou baleado nas costas.
Na sequência destas mortes, o MFA foi obrigado a reagir, tendo o edifício sido tomado na manhã de 26 de abril e a polícia política extinta.
As cinco pessoas não se conheciam e não existem ainda explicações concretas sobre o que teria levado os quatro civis àquela rua. Este acontecimento é pouco conhecido e não costuma também ser mencionado durante as celebrações oficiais desta data. Tal aconteceu pela primeira vez em 2024, nas celebrações dos 50 anos do 25 de Abril.
Foto: Joana Aleixo