De cravo ao peito, na mão ou como acessório pessoal, o maior símbolo da liberdade em português esteve em cada esquina da baixa do Porto, este sábado à tarde.
Para muitos, é já hábito marcar, ano após ano, presença na marcha que celebra o que viveram no dia 25 de abril de 1974; para outros, é o continuar de uma luta por ideais que passam de geração em geração. Várias famílias seguiram o ditado que diz que é “de pequenino que se torce o pepino” e levaram as suas crianças a viver a história e muitos jovens juntaram-se com amigos, vestiram-se de vermelho e escolheram as suas frases para eternizar num pedaço de cartão.
Por todo o lado, viam-se cartazes erguidos e faixas estendidas que ‘gritavam’ palavras de ordem, trocadilhos e ambições por um país melhor. Algumas ligadas a partidos, associações ou organizações, mas houve ainda os que decidiram ir apenas com o único ‘instrumento’ que todos têm, a voz. Certo é que o povo foi mesmo para a rua.
“Vamos acordar e ficar a ouvir o ódio no ar, a democracia a cair?”, podia ler-se no cartaz de Sara Tavares, residente em Vila Nova de Gaia. Há dois anos que fez deste dia uma celebração familiar, trazendo ao seu lado os dois filhos pequenos.
“Acho que os mais novos, hoje, não têm noção absolutamente nenhuma daquilo que foi Portugal antes do 25 de Abril e que, apesar de trabalharem isso na escola, penso que não é falado o suficiente ou não é estudado o suficiente e continua a haver uma visão muito bonita daquilo que foi a ditadura, ou muito diminuída da gravidade”, acredita. “É importante eles sentirem isto”, continua, sublinhando a desinformação que diz existir “constantemente” nas redes sociais.
Sobre o cartaz que levou, partilha que esta “é uma celebração que tem de ser popular e, portanto, daí esta pequena homenagem à música das Doce”: “realmente penso que não estamos a perceber a gravidade da situação e que a democracia está em risco, que há muito ódio no ar”.
“As pessoas têm de acordar. É urgente.”
No caso de João Borges, um jovem que vive entre o Porto e Santa Maria da Feira, que refere vir de uma família “conservadora”, aprendeu com “a família de outros sítios, os amigos” a lutar pelo 25 de Abril. Anualmente, não falha ao seu compromisso: “para defender os nossos ideais, defender a nossa liberdade”.
Quando nasceu, Portugal já vivia uma democracia, mas o jovem defende que esta é “uma luta constante”.
“Agora é a nossa vez! É só isso. Agora, está na hora de as outras gerações descansarem.”
Ao seu lado, o amigo José Lázaro conta que costumava vir a esta marcha, “em miúdo”, com os avós: “traziam-me sempre”. Agora, continua a estar presente para que o que foi conquistado não acabe “em esquecimento”. “Mesmo depois de certa parte de um trabalho ter sido feita, tem de se mantê-lo e continuar a melhorar. Nada é perfeito. Cada esforço que nós fazemos pode melhorar sempre a nossa qualidade de vida”, constata.
Já Diogo Moreira considera que a ditadura que se viveu em tempos “ainda está muito presente nos dias de hoje e prestes a ser revivida”. “É necessário que a esquerda se una toda, que se deixe de lamechices e venha para a rua gritar e defender a liberdade”, sustenta.
“25 de Abril sempre. Fascismo nunca mais” e “o povo unido jamais será vencido” foram algumas das frases mais ouvidas durante a tarde, através de microfones e megafones. Sem hesitações, de forma repetida e que se mantém na memória por muito tempo.
E, por falar em memórias, também elas participaram neste dia especial. Álvaro Sampaio veio de Braga e segurava, com vigor, um cravo e um cartaz na mão direita. Era um jovem adulto quando se deu a revolução e encontrava-se exatamente em Lisboa, a estudar na Faculdade de Direito.
Vivia na faculdade um “ambiente terrível, de muita repressão”, pois tinha diariamente no exterior do edifício a polícia de choque e, no interior, os chamados “Gorilas” (ex-comandos, ex-paraquedistas ou ex-fuzileiros), que tinham sido contratados para “espancar” os alunos, caso fizessem “alguma coisa que desagradasse o Governo”.
No entanto, neste dia, lembra-se de acordar e receber um telefonema a dizer: “está a haver um golpe de Estado”. “Foi um dia fantástico, bastante sem contar”, recorda com um sorriso, enquanto caminha.
Na altura, Álvaro Sampaio foi “para a rua”, não só naquele dia como nos que se seguiram, e participou “em várias iniciativas”.
“Foi uma grande alegria, uma grande alegria espontânea.”
“Aliás, vê-se as imagens da época porque as pessoas entraram, invadiram as praças… o Largo do Carmo estava esgotado, tirou a possibilidade de o regime disparar contra as tropas porque ia fazer uma mortandade e as pessoas encheram as ruas”, relata ao Jornal Referência.
Por isso mesmo, admite ser “sempre importante defender a democracia porque nada está seguro, sobretudo agora que há muitas ameaças, cada vez mais”. “O importante é a presença massiva de pessoas, que as pessoas participem com entusiasmo e sente-se”, confessa.
Nos dias a seguir, “houve a consolidação” do que tinha sido iniciado, mas também “alguma incerteza, porque a Junta de Salvação Nacional tinha lá personalidades bastante reacionárias”. “Houve ali algum receio, mas sempre uma grande esperança de que as coisas iam para a frente e que a Guerra Colonial ia acabar e que a repressão ia acabar e que ia deixar de haver censura, presos políticos e eleições fraudulentas”, partilha.
Mais à frente, a assistir atentamente à marcha estavam Rui e Helena Leitão, que sabem bem o que é esse sentimento. Entendem que assinalarem esta data é “da maior importância para preservar tudo aquilo” que foi conquistado com o 25 de Abril. “O importante é dar informação e educação a todos os níveis para que as pessoas possam compreender o que é que se pode perder e que é muito difícil de conquistar. Foi muito difícil de conquistar”, completa.
Neste dia, em 1974, Rui Leitão estava a dar aulas na Faculdade de Engenharia, no Porto. “A certa altura, começou-se a constar, porque, dentro de uma faculdade, as organizações estudantis sabiam e começámos a saber o que é se estava a passar e parou tudo lá nesse dia”, indica.
Quanto àquilo que sentiu, apenas consegue dizer que foi “indescritível, uma coisa nova”. “Tinha de mudar! A gente já estava a pressentir que havia coisas que tinham de ser alteradas, mas nunca pensávamos. Na altura, nem sabíamos para que lado era, mas, umas horas depois, ficou tudo claro e ficou tudo mais feliz”, avança, referindo que, “na altura, havia muita recomendação nas primeiras horas para ter cuidado e não se sabia bem como é que as coisas estavam”.
Já Helena Leitão, estava a caminho do trabalho, que ficava fora do Porto, e viu “militares na Via Norte”. Conversou com os colegas e percebeu o que estava a acontecer. Uma vez que é mulher, com o fim da ditadura, também passou a conseguir fazer várias atividades que antes eram apenas permitidas aos homens, como por exemplo votar: “todas as coisas que eram necessárias fazer para as mulheres foram feitas e não há que perder”.
Hoje, as mulheres estavam na linha da frente a sustentar frases carregadas de significado. “Livres, insubmissas e desobedientes”, usavam vermelho nos lábios que não foi ao acaso e não passou despercebido. Porque, no final de contas, “sem mulheres livres não há liberdade”.
Fotografias: Joana Aleixo




