OPINIÃO: Alistamento sentido

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Vivi com o sentimento de dever incumprido a cutucar-me a omoplata até 2023. A idade que delimita a casa de correcção do estabelecimento prisional zarpou faz (quase) uma década e contemplou – no canto mais abscôndito da sala do controlo comportamental – o alistamento voluntário no exército, sorumbático elevado a ‘ene’ e de cabeça entre as pernas, na homenagem que tanto poderia versar uma determinada espécie de avestruz como um contorcionista da melhor estirpe. Atribuo a todos os praticantes de yoga a honrosa terceira menção, uma vez que tamanha flexibilidade traduz contornos anti-natura. A tropa foi substituída pelo Ensino Superior, os exercícios matinais deram lugar às noites de facas longas, a marcha e os momentos de formatura estática comutaram com o passo desalinhado e incontinente do percurso académico. Hoje, nem exercício profissional do estudo académico, nem postura ou compleição física. Não podia ser pior. Ainda por cima, com o Verão à porta.

Os exemplares do Homem mais arcaicos da nossa praça (na era da inteligência artificial e da robotização em massa, impera o registo da patente a fim de designar os idosos) depreciam as novas gerações e montam a escada da moralidade defronte delas, trepando-a em poucos segundos. “O que faz tu dizeres uma coisa dessas é o facto de nunca teres andado na tropa. Se tivesses ido, não pensavas assim. Muitos de vós deviam de ser obrigados a fazer, pelo menos, a recruta. Só para saberem o que é vida e quais as dificuldades que existem. E, acima de tudo, para aprenderem mais sobre respeito e sobre ordem”. Embora se reflita acerca da educação como um conceito de amplitude idêntica à de um ângulo giro, atenho-me a adivinhas: todos fomos educados a, em primeiro lugar, respeitar os mais velhos e, em segunda instância, não brincar com quem veste fardas e usa espingardas. Resta bater continência.

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Incipientemente, antes de ingressar na universidade, as reticências moldaram e prolongaram a minha posição pelo facto de ouvir ‘zunzuns’ quanto à alta probabilidade de as raparigas apreciarem façanhas realizadas por jovens recrutas, envergado o uniforme da praxe. Na altura, diziam “as miúdas acham graça aos tropas porque o fetiche da farda institucionalizou-se e recrudesceu na sociedade portuguesa, nas últimas duas décadas. Se namorares e trocares correspondência, aguardam ansiosamente a tua chegada e depois preparam coreografias típicas do ritual de recepção aos militares”. Contudo, visualizar o Full Metal Jacket impregnou alteração de sinais de pontuação face ao serviço militar. O tenente Hartman cozinhou um caldo de sadismo e desumanidade tal que dois dos três sinais que pontuavam o meu juízo emigraram. Sobrou um, que acarretou com todas as despesas e preocupações daí em diante. Ainda tentaram persuadir-me com a Marinha, mas as roupas claras tingem-me a personalidade e fazem-me mais anafado.

Quem me conhece, sabe que possuo uma miscelânea capilar algures entre o afro, os caracóis e o ondulado. O mais provável é não corresponder a nenhum dos três tipos em particular porque, de acordo com a explicação garatujada no website da L’Óreal Paris, cresce a sensação de os níveis 4A, 4B e 4C se fundirem nesta ninhada. Ora, deste facto deriva uma provecta e circunspecta angústia: a má memória e a pior figura (sim, é possível) proporcionada pelos três desvarios que me apararam o pêlo. Em mim, a estima jamais se automatizou uma vez que as razões para a consumação permaneceram sempre num hemisfério contrário ao qual me situava. Imaginem de pente um ou pente dois. Durante o regime militar, como é sabido, a máquina zero tem pilha infinita e, nesse sentido, o método exibicionista para arreliar carecas voluntários ou prostrados defronte da alopecia conheceria um só destino: a queda.

Mãos ao ar, se fizer o favor. Assalto, tentativa de intimidação ou homicídio caíram do baralho. A aspereza do intróito foi inadvertida, só quis um pretexto para compor acerca dos testes de mira e manuseamento de armas. A sinalização de perigo, desta feita não metafórica, é requerida neste parágrafo. Segue agora o ponto de exclamação. Tenha cuidado, caminhe em bico de pés, a partir de agora! Como é que eu hei-de explicar a má pontaria ou a falta jeito para alvejar os alvos definidos? Incriminar a visão deficiente e o apêndice que lhe hasteado foi a primeira solução no horizonte, mas a cobardia corroer-me-ia. Portanto, apronto a verdade. Junte o Inspector Closeau, Cosmo Kramer e o oficial de polícia Andy Brennan numa liquidificadora e recolha producto diluído. A mistela corresponde à minha perícia, mais coisa, menos coisa. A maldição principiou com uma caça ao pombo, de fisga em riste. O resultado foi um vidro partido, em sentido contrário. O pássaro riu, defecando. Não alongarei mais.

Quantas dioptrias enxugam os seus olhos? Não leu o anúncio supracitado? É estúpido? Que pergunta disparatada. Remeta-se ao silêncio. Adira ao Premium, cafajeste. Quantas vezes serão necessárias repetir? Será que estou a dirigir-me a paredes ou a objectos inanimados? Estou a gastar latim à toa! Eu sabia que devia ter escolhido a vaga no Call-Center ao invés do emprego como voz-off. Estes não vão aderir ao serviço pago, está-se mesmo a ver. É uma fantochada. Eu não o subscrevi e estou aqui a defendê-lo. Que hipocrisia. O despedimento chegou agora aos auriculares. Sim, sim, já vou. Deixo algo que sempre quis dizer e que, sabe-se lá por que razão, não constava nos guiões: quem são os pais da maçaneta?

No instante em que recupero as advertências e os conselhos dos mais sábios, recordo a vez na qual semeei os argumentos descritos. “Na tropa, esse azar saía todo. Lá, nem tinhas tempo para pensar em maus fados. No mato, nas casernas, nos refeitórios, nas cerimónias. Preferes estar aí diante da cerveja, a escrever porcarias sem sentido e a elaborar a habitual campanha de vitalização. Devias ver era os documentários sobre a Guerra Colonial para perceberes o que era bom para a tosse. Precisamos de homens com H grande e, de momento, a espécie é residual.”, disse-me um nado nos idos 1947.

O homem levantou-se, ajeitou e fixou a saia à cinta, colocou a mala da Cavalinho ao ombro e dirigiu-se para a saída do estabelecimento. De súbito, regressa à mesa onde estávamos de modo a recuperar o batom da Yves Saint Laurent, “que não podia perder por nada deste mundo porque fora oferecido por um camarada dessa faina”. Passou-se há três anos e meio, época na qual efectuei a minha inscrição nos Paraquedistas.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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