Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
O término do mês de Agosto indicia uma lembrança comum e, atrever-me-ia a classificar, de “universal”: o Natal está ao virar da esquina. No meu caso particular, considero reunir a autoridade suficiente para alterar a palavra “lembrança” por “pensamento”, dadas as horas de afinco e elevada morosidade que dedico ao tema. O método e a responsabilidade estiveram sempre pespegados ao coldre de cabedal cintado que usava, mesmo à beira da ponta e mola e do canivete suíço. Contrariamente às expectativas que depositaram, imbuí-me nesta missão. Senti um chamamento, não vou mentir. Algo ascético e místico, nada corpóreo. Uma espécie de brisa iluminada. Nunca deixei de lutar, as vozes críticas jogaram constantemente comigo à batalha naval e os submarinos adversários foram os primeiros a afundar. Em certas circunstâncias, vitupérios e vexames, via correspondência, transbordavam a caixa de correspondência pessoal. Chegaram, ainda, a premiar o meu busto, como se de uma recompensa Western se tratasse, orquestrada pelo xerife de uma cidade do Velho Oeste americano.
Com o advento da internet e a explosão das plataformas e fóruns online, o tópico furou todas as barreiras e estereótipos em si envoltos e solidificou a presença no espaço público devido à contribuição de artigos, recolha de dados estatísticos, ensaios, comícios, congressos nacionais e conferências transatlânticas. Felizmente, tive a sorte de beber das fontes onde jorrava conhecimento no estado mais bruto e de travar amizade com os grandes mestres – nacionais e internacionais – desta comunidade. Motivado pelo investimento e crescente interesse na problemática, em Portugal, em 2023, ergui, como resultado da minha transpiração, a – tão cravejada de insultos – fundação “Setembral”. Literalmente, porque a construí em telha, betão e pladur, em tempo recorde, com a ajuda do Basílio, construtor civil e primo em primeiro grau. As pessoas que defendem a tese de que setembro enceta as festividades natalícias saíram à rua e libertaram-se das grilhetas da opinião publicada e vozeada. Neste país, o Estado Novo e a Democracia foram inimigos dos que quiseram trazer a causa à berlinda. Recuso ceder ao medo e ao conformismo. Alguém tem de o dizer. Esta minoria também existe.
Para terem uma noção mais exacta do grau de entendimento que adquiro sobre o facto do acontecimento ter ponto de partida no nono mês do calendário gregoriano, ministro pura medição estatística: li, revi, analisei e critiquei, em dissertações de variegas páginas, 87% da informação que consta no digital; em formato papel, o número decresce ligeiramente e resvala nos 74%; a presença em eventos juntamente com colegas de profissão e oradores afectos à temática, a partir do momento no qual atingi a maioridade, exibe uma taxa de participação de 93%, considerando que foram efectuadas todas as digressões em território nacional (internacionalmente, Chile, Azerbaijão, Mauritânia, Seychelles, Canadá, Eslovénia e Nova Zelândia correspondem a solos pisados. A pandemia fechou as portas à Lapónia, coincidentemente). Há notícias, crónicas e reportagens que me apontam, inclusive, como um dos mais proeminentes especialistas na questão. No meu quarto, fixado na parede mais distante da cama, sobra uma moldura branca que salienta três recortes de jornais distintos, cujos títulos das peças abarcavam expressões como “sumidade portuguesa”, “o segundo menino Jesus” e “Pai Romão: era isto que precisávamos para voltar a acreditar no Natal”.
A profundidade que emprego neste assunto provêm de uma paixão hereditária de incontáveis décadas: o meu tetravô, desde tenra idade, reparou na reminiscência natalícia pós-31 de agosto; o meu trisavô seguiu-lhe as pisadas e adicionou à discussão um complemento em formato de relatório, denominado “ O Natal inicia-se em Setembro: análise de dados e entrevistas realizadas à população de Moimenta da Beira entre 1890 e 1908”. O meu bisavô, no período conturbado da I República, tentou levar à Câmara dos Deputados e ao Senado, mas, pelo meio, meteu-se a morte de Sidónio Pais e ficou sem efeito. O meu avô e o meu pai optaram pela via do trabalho fabril e ignoraram a herança riquíssima legada pelos antecessores. “Aquilo era uma palermice”, disseram-me, incontáveis ocasiões. Decidi não fazer caso e levar a minha avante. “De tão irrefletido que parece, nem pode ser considerado trabalho. Procura algo útil! Faz-te à vida!”, continuavam, abespinhados. Matéria de relatório e de política nacional e apelidam de “irrefletido”? Até parece que fui eu que laborei numa fábrica 40 anos, pai e avô.
Um dos argumentos de acusação com o qual nos alvejam reside no facto de apontar para a data dos preparativos: embora admitam a simples lembrança de o Natal habitar a mente da espécie humana mal se inicia o mês de setembro, objectam que a dita cuja acontece por escassos segundos e que a mente, de modo automático, se embrenha no planeamento da habitual tramitação que circunscreve o Halloween. Porque, na cartilha dos críticos, “a festa importada dos Estados Unidos da América teve repercussões surpreendente e francamente positivos em todo o território nacional. Até as escolas, os centros de dia e lares de idosos, os cafés, os restaurantes, as discotecas e demais estabelecimentos adoptaram a festividade”. Desmontei o raciocínio há algum tempo, com base estatística e devidamente fundamentada, retorquindo que, findo o mês de agosto, em 97% das pessoas inquiridas – num universo de 11 000 000 de portugueses – o primeiro vislumbre de consciência radica no ambiente natalício, ideando, involuntariamente, um cenário que agrega cheiro, cor, diálogo, decoração, trajes, costumes, tradição alimentar, carraspanas de tios e outros traços característicos daquela época. A recordação do Halloween é realizada quando já vamos a meio da anterior projecção mental.
Acresce, ainda, outra objecção ao trabalho de profissionais da área, na qual me insiro. Sem modéstia alguma, basta rememorar os recortes dos jornais. Os detractores do Natal em Setembro reiteram que, após 1974, em nenhuma habitação foi montada uma árvore e/ou presépio, juntamente com a respectiva iluminação e decoração dos espaços da habitação no decurso do nono mês do ano civil e que, por isso, jamais a preparação da festa pode ser grudada àquele período. A informação avançada está correcta, assume carácter verdadeiro e eu também a detenho em minha posse. Surge no Arquivo Nacional dos Relatórios Anuais Sobre Os Preparativos Natalícios. Ater-me-ia a precisar o capítulo, o sub-capítulo e a página correspondentes, mas vou deixar passar. Não é minha atenção melindrar alguém. Contudo, nesta tese, persiste uma falácia: em contexto festivo, o termo “preparação” significa um planeamento prévio, minucioso e contínuo, independentemente de a execução se aproximar ou não da data limite. Aliás, mesmo celebrando o Halloween, a cabeça está no Natal, porque a preparação é mais exigente e complexa face ao número de intervenientes, por si só.
A tradição pesa mais do que importação. O Natal é o sofá velho que tem o molde da nossa posição predilecta, o Halloween é o novo e rijo que é incapaz de nos fazer essa vontade. O Natal é o primeiro amor, o Halloween é uma paixão de outono. O Natal é luz e filmes épicos, o Halloween é penumbra e filmes aterradores. O Natal é batatas cozidas, peru ou polvo. O Halloween é marshmallows, gomas, rebuçados e chupa-chupas. O Natal é família, o Halloween é a destruição do lar, com as crianças na rua. Reflitam bem acerca do que valorizar futuramente. Ainda estamos nos primeiros dias de setembro.
P.S.: Conto que apareçam algumas personagens a dizer que responderam contrariamente ao inquérito realizado. Irá a fatia de três por cento da população assanhar-se?
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação