OPINIÃO: Nova hermenêutica para César

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Junto a um museu, César divagava. Após breves instantes a contemplar a fachada do edifício, as pernas desentenderam-se: uma delas decidiu genuflectir ante a parede, imprimindo a pegada no mármore cálido; outra, pigarreando, retesou-se sobre a calçada. As funções de cada um dos membros inferiores alternavam consoante o desconforto sentido. A estrutura óssea, altiva e senhora do seu nariz, decidiu tocar a sinfonia dos pequenos estalidos, em sol menor e mi sustenido. Esteve-se bem até àquele espectáculo. Depois, citando César, começou a ficar “razoavelzinho”. Os olhares multiplicavam-se por todas as direcções, com o sentido dos ponteiros do relógio no papel de potência de base n. A espera assimilou o barulho do tráfico rodoviário e da horda de turistas que empunhavam tripés, caixas de pastéis de Tentúgal e exemplares de cerâmica Bordallo Pinheiro. César distraiu-se do desígnio que o conduzira ao local, apressou-se a retirar a esferográfica da algibeira e aviou uns quantos apontamentos avulsos.

O préstimo da contextualização acerca do ambiente no qual se insere César e o porquê da espera levada a cabo por si é incalculável? Receio que não, pois ignorei estipular a cobrança de dízimo para este culto. Radiografá-lo ao nível do histórico familiar serviria alguma teoria da utilidade para o público? Encavalitado na mais elevada sinceridade, encolho os ombros e deixo escapar um riso estridente. Submetê-lo a uma tomografia computorizada, física e psicologicamente, responderia ao desejo que o público encerra em ver esclarecido o imbróglio? Escalando o mesmíssimo cume, assevero tal posição: comparativamente à galera, ao tanque e aos bidões de químicos, é tão ou mais importante o enquadramento. César posicionava-se desfavoravelmente face à exposição ante productos químicos sem garantia de todas as regras básicas de segurança. Em qualquer circunstância, sem excepção. O perfil escandinavo contrastava com a postura latina da maioria dos portugueses perante o meio envolvente. César e o incumprimento jamais se cumprimentaram. Nem um aceno. É do conhecimento lusitano que, na mais pequena boçalidade, o português nunca sabe ser César.

Supostamente, o plano coado do primeiro parágrafo comportava apenas uma dimensão: informar o leitor acerca do encontro de César com uma garina bem aprumada, apresentar o estado civil dos protagonistas de uma trama prestes a transbordar a fronteira que separa o conteúdo interdito ao internauta do conteúdo permitido ao internauta e relatar a experiência. Simples, directo e conciso. A fórmula não enganava. Todavia, como corolário da minha defectibilidade cognitiva, dispersei as folhas do guião, solenemente preparado, pela mioleira que Deus me deu. Na alcateia, o lobo-chefe adormeceu enquanto treinava o primeiro uivo, representativo da alvorada. Houve revolta, escusado será mencionar. Parietal e temporal de um lado, occipital e frontal do outro. Uma barafunda dos diabos. A bulha durou alguns minutos. Valentes sopapos foram permutados. Decorrido o somatório, relembro a dívida da dupla parietal/temporal para com o adversário. É bastante provável que, durante o período de convalescença, tenha dirimido uma quantidade considerável de atoardas.

A César o que é de César. Os fariseus tentaram armar uma cilada a Jesus, mas o menino predestinado – sagaz e astuto ao nível dos participantes nos testes de coeficiente de inteligência – previu a maçada que resultaria da, à altura, evasão fiscal. Soraia, a mulher que embargou a extração de notas para o pequeno caderno de cor escura, incorreu igualmente na prática de algo parecido ao conceito de emboscada: pela extremidade de um dos membros superiores, segurava na mão de uma criança com estatura inferior à envergada pelos bancos de jardim. Denota-se, de modo rútilo, a probidade evidenciada por tal comportamento, anteriores à ignição labial. Soraia mostrou ao que veio, na primeira impressão. Ali, diante da retina de César, esperneava a alma jovial de Marcelo, imberbe de gengiva escarlate. O encontro entre a parelha foi simplificado devido a dois factores: em primeira instância, pela utilização de objectos que os diferenciassem dos restantes concidadãos; em segundo lugar, pelo douto manusear do instrumento de orientação geográfica: o Google Maps.

Caso travasse, por razões indeterminadas, a reprodução do diálogo estabelecido entre a dupla Soraia/César, fustigaria o leitor com quilos de desilusão. O oitavo botão, em amena cavaqueira com quem o cose, depois do abandono dos outros sete, convenceu-o a narrar. Uma pessoa não fala com os seus botões, cose-os. Enquanto fala, talvez. Falar para botões é estranho. A insanidade chegará a tal ponto? Duvido. Desculpe, leitor. Piquei o dedo com esta confidência, enquanto fazia o ponto recto, seguido do ponto cruz. Com a dor, creio que deixei cair a agulha. Contudo, ela expirou. Estou há 45 minutos de olhos postos no soalho e nem sombra. Se tal situação se transpusesse para a habitação de Soraia e respectivo filho, o imberbe não desceria do colo da mãe. O pezinho estaria impedido de pisar, mesmo com sapatos calçados, não fosse a agulha entrar-lhe na chicha perfumada com Mustela. Com criançada, aspirar o chão de 20 em 20 minutos é a práxis adequada.  Desculpe, novamente. Distraí-me. Agora, sim. Atente na interacção:

César: É mãe divorciada, Soraia? O seu casamento falhou recentemente? Eu sempre fui solteiro…

Soraia: O Marcelo não tem pai. O Hugo, nome do balde de caca, abandonou-nos quando o menino tinha um mês. Nunca mais regressou.

César: Pois, é chato. Infelizmente, no seio familiar, conheço um…

Soraia: Marcelo, pára de lamber o paralelo. Isso tem algum jeito? Levanta-te, se fazes o favor. Que chatice!

César: Como lhe dizia, uma prima, que para mim é tanto ou mais que uma irmã…

Soraia: Vais levar uma palmada, Marcelo! O aviso foi feito, não queria passar ao acto. És mesmo igual ao teu pai. No dia em que o conheci, estava a lamber um poste elétrico. Chovia a cântaros! Quando me recordo…

César: Bem, deixemos os pormenores para o almoço. O que diz de um pargo assado? Se calhar, precipitei-me. Prefere carne, é isso? Naquela esquina, existe um restaurante de comida tradicional da região de Bragança com uma posta incrivelmente suculenta. Que me diz?

Soraia: Marcelo! Que vergonha! A fralda vazou! Costumas chorar desalmadamente e, desta vez, nem isso. César, não quero assustá-lo, mas parte da obra de arte cobriu-lhe a bota. Por lapso, esqueci-me dos lenços de papel. Vou agarrar tudo com uma fralda suplente e despejá-la no lixo.

César: Ora essa, acontece. São miúdos. Eles mal se sentem. Quanto ao almoço, aceita a sugestão ou tem algo em mente?

Soraia: Olhe só para isto! Uma agulha! E o meu Marcelo a gatinhar por esta calçada fora… deixa-me ver se estás perfurado, meu anjo! Que perigo! Ó César, podia ter escolhido outro local para o nosso date. Naquele largo, as fontes de tétano ainda estão com a película…

César: Calma! A agulha é minha. Deixei-a cair. Momentos antes de chegar, estava a tricotar. Depois, cansei-me!

Soraia: Um homem que costura! Vê-se cada coisa agora! Sinceramente… saia-me da frente! Mais uma perda de tempo! Marcelo, micta e defeca a teu bel-prazer! A César o que é de César!

Caro leitor, pasme-se! Naquela tarde, pela primeira vez, Marcelo obedeceu à progenitora.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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