OPINIÃO: Húbris, o affair lexical mais recente

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

“Sejam bem-vindos ao “Desinteresso-me até certo ponto”. O meu nome é Romão Rodrigues e sou o apresentador desta rubrica. Na presente quinzena, creio que muitos espectadores identificar-se-ão com a problemática trazida à discussão: gente que aprende um termo novo e, por capricho, desata a aplicá-lo em tudo o que é material sintáctico”. Através de um exame minucioso às frases anteriores, retiram-se, ainda que desinteressadamente, um punhado de conclusões: (1) na área das Ciências da Comunicação, desviar-me do grande ecrã foi uma das decisões mais sábias que tomei; (2) o título do espaço distorce a expressão “ficar no ouvido” e cristaliza na substituta “permanece no olvido”; (3) o homo sapiens identificado, caso um dia seja invocado a uma ou mais “entrevistas de vida”, deve ser questionado acerca do fetiche – curado ou não – pela tortura psicológica; (4) o intróito do programa apresenta qualidade extremamente reduzida. Proponho o abandono da mesma ou a permuta por um grito de uma avestruz; (5) referi-me a um punhado de conclusões, mas a mão que acenava para a minha massa gris desclassificou um dos conjuntos falange-falanginha-falangeta.

A húbris conferiu-me a pomposidade que escasseava. Antigamente, ostentava pouco ou nada. Aliás, passei meses sem conversas faustosas. Aquela vida de luxo revelava-se contrária àquilo que, no meu entender, significava aproveitar e gozar a existência. O procedimento consistiu, de forma periódica, na negação de comportamentos jactantes e sumptuosos por forma a vincar a diferença, a trilhar caminhos distintos daqueles que corriam a meu lado. Bem, eu limitava a minha acção ao passo irregular e dessincronizado pelo facto de ajuizar a prática da corrida, alimentada por alguns colegas, de comportamento pomposo. O traseiro, os calções ajustados à coxa, as pulseiras e relógios responsáveis pelo cronometrar da actividade e as sapatilhas com demasiada plataforma evidenciam pompa, pura e dura. Qual a razão que conduz o ser humano a aldrabar – perante passividade da plateia – acerca da altura? Aqueles quatro ou cinco centímetros atestam a prosápia. Até há bem pouco tempo, a húbris revolucionou a personalidade pacata e discreta que tracei. Agora, afirmo, sem medo, ser um vaidoso. O mundo está para os soberbos.

Esta história tem início há três dias. Mais concretamente, há três dias e meio, antes do almoço. Compenetrado na rede intrincada de relações de Laurence Passmore, e cogitando acerca de Constantias – alter ego de Soren Kierkegaard – e da recusa deste em casar com uma jovem donzela (pela qual estaria avassaladoramente apaixonado, a ponto de não achar razões para vivenciar, de modo exclusivo, o presente, sem projectar a desilusão futura e a nostalgia do advir), inquirem-me sobre qual o alimento que pretendo deglutir naquela hora de almoço. Esboço um sorriso sincero e, em troca de tamanha amabilidade, respondo assertivamente “húbris”. O caldo entorna precisamente nesse instante. Invectiva-me um olhar ao estilo da extinta PIDE/DGS, inseguro da preferência que acabara de creditar. “Ouve lá, desde quando é que gostas de grão-de-bico moído, misturado com dois dentes de alho, sumo de meio limão, uma colher de sopa de tahini, sal e pimenta quanto bastem, uma colher de chá de cominhos em pó, água da cozedura do grão e azeite quanto baste? Há duas semanas, cozinhei grão-de bico com bacalhau e tu nem lhe tocaste. Preferiste as papas de sarrabulho. O que se passou entretanto? Isso tem dedo de cachopa”.

O almoço assemelhou-se a qualquer conflito militar da actualidade dado o bombardeamento em formato de pergunta que me era dirigido. Olhei para o patê de esguelha, inspeccionei-o ao nível do olfacto e levei um pedaço de tosta à boca. O compartimento abdominal queixou-se duas vezes. Aproveitei a fluidez intestinal, antes da habitual visita à minha avó. Este período visa resumir a tramitação relacionada com o momento da saída de casa e da ida em direcção ao aposento da referida anciã. Após o habitual beijinho na testa, a senhora principia uma conversa acerca de um primo meu em primeiro grau. Adiante. Disse-me que foi encontrado ébrio num bar em Albufeira, a dançar em cima de uma coluna de som, somente com a roupa interior e um acessório de inverno. Pensei, de imediato, num cachecol. “Avó, é a húbris. O Tó-Zé, desde que entrou na universidade para o curso de Ciência Política, ficou cheio dela”. Lacrimejando, defendeu o meu primo e acusou-me de injustiça porque “ele já tinha deixado o pó que inseria no nariz” e “agora os pais controlavam o acesso ao cartão bancário”. Rematou a conversa com “O Tó-Zé não anda a dar na húbris. Que mania de acusares sempre o teu primo. Sempre tiveste ciúmes dele”.

A despedida desrespeitou o cumprimento inicial. A minha avó espremeu o léxico ao máximo e proferiu um “até amanhã” grave e áspero. Se calhar, foi merecido. As mães têm sempre razão e ela é progenitora a dobrar. De maneira a contornar o desaguisado, decidi, pela primeira vez, aceitar a perfuração de agulhas na epiderme. Desviei o automóvel na primeira saída da auto-estrada, estacionei o carro no estúdio de tatuagens mais próximo e, com o veículo imobilizado, auxiliado pelo telemóvel, pesquiso a palavra húbris no Google. A inteligência artificial sugere-me a palavra “hybris”, termo conectado com a mitologia clássica da Grécia Antiga. Abro um novo separador na Wikipédia e constato que, segundo a fonte e Higino, Hybris é fruto da união entre Nix e Érebo. Deparei-me com uma imagem associada àquela explicação, copiei o link e enviei ao realizador do desenho corporal, mal entrei no estabelecimento. O tatuador encaminha-me para um gabinete bem espaçoso, diligentemente cuidado e higienizado e com um aroma que mesclava sândalo e cedro. Picotou o desenho que recebera minutos antes em apenas três horas.

Numa primeira instância, a resistência à dor provocada pela extremidade pontiaguda da agulha quebrou e acelerou o processo lacrimal, mas um milagre interrompeu tal engrenagem: a música “funk” do Brasil, seguida de pagode e sertanejo. Educada e gentilmente, ainda lembrei a existência de Tom Jobim, Rita Lee, Chico Buarque, Elis Regina, Tim Maia e Vinicius de Moraes. Findo o escol musical, senti a carne a prolongar o queixume uma vez que a intensidade da fina haste de metal subia de tom. Talvez não tivesse gostado das sugestões do cliente, atitude perfeitamente legítima e compreensível. Encarnando no espírito rude de minha avó, perguntou se queria que vazasse a palavra hybris – legenda do desenho – para latim. Soltei uma gargalhada tímida e, bem-disposto, informei-o acerca da origem do vocábulo, pertencente à Grécia Antiga. O dito espoletou uma reacção dardejante por parte do artista. Expulsou-me da sala aos brados, alvejou-me com a húbris ao estilo de Cristiano Ronaldo e proibiu um possível retorno.

Em apenas 24 horas, nas interlocuções travadas, incrustei a – e fui incrustado à – palavra “húbris” em três ocasiões. Passaram-se três dias e a pontuação continua inamovível. Mal a pronuncio, padeço de uma obtusa ignorância por parte do ouvinte. Aprendia o termo há uma semana e queria um contacto afogueado com o mesmo. Este tipo de comportamento afasta as pessoas da Língua Portuguesa. Depois, não se queixem da caducidade das relações lexicais.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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