OPINIÃO: Aguarda-se a desaparição

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês, impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

A epagoge e contra-epagoge que bamboleavam na mesa de esplanada converteram-se em outono. Cada membro do casal – a libertinagem sexual e a anarquia relativa à escolha do parceiro assentaram nos loucos anos de uma década que fez da jovialidade oceano de quimeras – ordenava e emaçava raciocínios para, instantes depois, os alongar na maca do arrependimento mecânico e da profanadora confissão. Numa determinada ocasião da presença das visadas, a restante comitiva (isto é, a vasta gama de clientes que inundara o espaço no qual o sol estirava o astro) exprobrou as sucessivas cenas de novela rasca contempladas, responsáveis por desenrascar o pecado da coscuvilhice aos que não compraram as mais recentes edições das revistas da especialidade.

No plano meteorológico, falar de vendaval roça o excessivo. Um casaco, especificamente um corta-vento, solucionava as pequenas manifestações hipotérmicas que encrespavam a pele. No plano passional, o epíteto “tempestade” tornava-se clarividente. À mulher número um, o cabelo esbofeteava o semblante e as duas mãos, alternadamente, tentavam pôr cobro àquela auto-flagelação. À mulher número dois, toda aquela representação lhe fustigava os compartimentos da ignorância: a única tarefa digna do seu interesse parecia corresponder ao aspirar a couvert e os acepipes que equidistavam sobre a mesa. Trazer nomes à equação seria deselegante, uma vez que a privacidade das pessoas descritas ficaria comprometida.

[metade de narrativa, metade de mea culpa do autor]. A equipa de serventes espectacularizava manejos de panelas, travessas e pratos entre temperaturas cálidas sentidas em Beja e o ponto de ebulição do leite: [inserir enumeração] a marcha alinhada e militar, o braço alado num ângulo indecifrável, o avental geometricamente cintado e impenetrável ao sulco mais acintoso, a caneta de feltro e o bloco para tomar notas dos pedidos com odor ao estado que sucede o “cheiro a novo” e que antecede o “cheiro a velho”. Perdoe-me, leitor, mas a incúria que empesta este espaço é avassaladora: negligenciei, por completo, a tentativa de substituir as expressões “cheiro a novo” e “cheiro a velho” por outras mais ou menos perifrásticas, temperadas pela carga sentimental/racional que as fazia crepitar no forno da opinião publicada.

[continuação do mea culpa]. Subitamente, reparo que o emprego da palavra “servente” empalidece a vontade de garatujar a história dado que remete para a ideia de haver – persistir, em bom rigor – a bifurcação entre o mais pobre e o mais rico. Ferir susceptibilidades é inconveniente, nomeadamente num tempo em que precisámos do corrector automático do teclado QWERTY para as grafar, sem erros ortográficos. “Criados” ou “criadas” nem vale a pena soprar a menção, não vão os assalariados unir-se e marchar em direcção ao fontanário mais próximo. Serventuários também parece adequado de aplicar e não belisca as rugas de vivalma. Esperem! Se calhar, confundi “servente” com “servil”. Rasure-se esta parte, por favor.

A refeição arrefecia, a menos que flutuem nas mesas somente salgados e estirpes de leguminosas a estagiar em azeite, convinha comer tudo enquanto o vento e a humidade autorizam. Contudo, tal não se verificava. Na mesa 15, só para servir de exemplo, repousava um cabrito que, com base na informação prestada por um dos serviçais, e cito, “assou muito lentamente, durante três horas, a 225ºC”. À experiência gastronómica, socorriam-na um maralhal de garrafas de vinho sem código de barras, os cajados e a fila interminável de fêmeas de carneiros capaz de circundar a praça principal da região, as camisas de flanela que envergavam as costas da cadeira e uma folha de papel que distinguia as principais formas de relevo predominantes no território português. Estávamos perante pastores. O pastor um enunciou que se avizinhava – dali a uma semana – o périplo de quase 140 ovelhas na Estrada Nacional n.º2.

[Voltar à mesa do casal que discute]. À medida que o teatro feminino era exibido, a discussão baixara de tom. O facto foi impulsionado pela chegada do pedido que anteriormente tinham efectuado. O empregado de mesa dispôs as vitualhas e os respectivos acompanhamentos. O casal esboçou um longo sorriso e agradeceu em dupla. Nada daquilo tinha sido combinado. Pressentindo a trovoada que adviria quando o empregado regressasse ao caminho de volta, a mulher número dois tentou espraiar o diálogo e estancar a presença do jovem: toda a informação observável no cartão de cidadão foi extraída sem grande esforço, tal como uma breve súmula sobre aspectos biográficos adicionais. Em visível desespero, tentou voltar à década dourada e de indizíveis excentricidades.

[continuação do tópico anterior]. Enfurecida, a signatária do responso matrimonial raspara os talheres no prato de tal modo sibilante que o restaurante, a certo ponto, tinha aguardado a desintegração do mesmo. A pessoa responsável por satisfazer pedidos junto dos clientes – para precaver e deixar o assunto entre o azoto, o oxigénio, o dióxido de carbono e outros gases – enxergara a sua indesejada comparência e retirara-se. Após um brevíssimo período de silêncio, a mulher número um optara por plagiar vultos mundiais do ventriloquismo. Toda a gente conhece os seus nomes, é irrelevante perder tempo a relembrá-los. Uma coisa é certa e sabida: no acervo da RTP1, o Donaltim jamais foi visto a exercer o seu talento saboreando um esparregado de espargos e acelgas e rilhando uma perna de peru assado. Sem expelir qualquer um dos dois, claro está.

[apontamentos recheado de sapiência, na mesa dos pastores]. Resgatando os últimos tubérculos da pingadeira de barro, face à notícia do pastoreio em via pública, o pastor dois respondeu que “toda a ideia vivida era do sangue, não do cérebro”, segundos depois de ter inculcado ao número um o pensamento encerrado pela significação da problemática, dado que a mesma “se determina pelo grau de sua profundeza e, subsequentemente, da sua permutabilidade. E, assim, o que é mais perdurável é o que é menos resolúvel”. Quando se encaminhavam para o digestivo, limpando a superfície labial, vogou ainda sobre “o que há de perturbante na experiência em nós – e de inacessível para muitos – é ainda a simultânea evidência de uma absoluta necessidade de sermos e a absoluta certeza de um dia não sermos”.

[continuação do tópico anterior]. Solicitada a sobremesa, topando a prosápia do colega de profissão, o guia um da docilidade animal queixou-se que a incursão pela especialidade do gado ovelhum, balançando os prós e os contras, não lhe deu jeito algum. Os porcos, esses sim, davam a vida a ganhar. E a fala, escorropichando a última garrafa, reproduziu: “cada porca, como sabe, tem dez tetas. Se nascerem onze porcos, é claro, um fica a ver navios. Mesmo dez porcos é de mais. A não ser que seja uma porca mais robusta. Oito porcos é que é o normal. A minha porca é um monumento. Aguenta ali dez crias. Mas nasceram onze e eu tive de matar uma. Eu tive muita pena”.

[junção das duas histórias paralelas]. Perante a repetição do vocábulo “porcas”, e considerando a curta distância entre as duas mesas, o casal atirou-se aos pastores. Uma vez que do almoço se tratava, pode afirmar-se que a clientela assistiu a porrada de duas da tarde.

[esta não convém apagar, por múltiplos motivos] NOTA: (1) enquanto autor desta redacção, tentei levar o leitor de lorpa. Repeti a estratégia, porque já lhe dei usufruto, há dezenas de episódios atrás. Ao evitar a rasura das palavras entre parêntesis rectos, quis dadivá-lo com parte do processo criativo e oferecer-lhe o texto em estado bruto. E o leitor, qual astuto recolector de grémios de letras, sabe perfeitamente que a única razão pela qual todos os meus textos vigoram em estado bruto prendem-se com o simples facto de me terem como autor; (2) Depois disto, prometo assear o túmulo do Vergílio Ferreira com flores provenientes das páginas da Aparição.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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