OPINIÃO: Isto não foi escrito à mão

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês, impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Acumulam-se sucessivas chances de prosar ou versejar em papel, mas eu insisto em grudar a falangeta ao teclado computorizado. Nesta batalha, aprontam-se-me lanças, archotes e espadas enferrujadas ao passo que ante mim esgrimem dichotes, facécias e diversos fac-símiles de baixa categoria. O abalo sísmico foi dado pelo artigo que protagonizou a edição n.º 1755 da VISÃO, cujo título alertava para “O PODER ESCONDIDO DE ESCREVER À MÃO”, seguido da sintética contextualização que desaguava “(n)os benefícios para o cérebro, a memória e o raciocínio. Na era da Inteligência Artificial, a opção pela caneta e pelo papel ainda pode fazer a diferença”. Nas cavidades internas, possuo bonacheironas pontadas, alguma acidez no compartimento estomacal e nem sombra de D. José I e/ou de Sebastião de José Carvalho e Melo. A propósito, se alguém souber do paradeiro, faça o favor de cutucar-me: é imperativo expulsar a vintena de jesuítas que morfei.

Embora provocado e instado a aparecer nas parangonas pelos piores motivos, envidei esforços, a custo, para vender a discussão a outras latitudes. O povo luso desmerecia uma afronta deste calibre, mas cá vai: o terramoto de Lisboa coincidiu com a celebração do Dia de Todos os Santos. É verdade, uma das mais puras, que Deus a tenha. O dia simbolizou uma tristeza em dose dupla: os que por cá andavam, coitados, a ultimar os preparativos – velas, candeeiros com porta-velas, arranjos florais com e sem suporte, rezas, orações, preces e deprecações religiosas – no alvoroço sobejamente conhecido pasmaram-se assim que, num sacudir de pálpebras, se abateu sobre eles uma infra-estrutura de pequena, média ou longa compleição. No século XVIII, talvez a grande maioria dos portugueses andasse descalça e tal dado instiga a seguinte questão: se o mecanismo bípede já vinha com bactérias e germes do exterior, qual seria o comportamento dos maníacos que cativam o calçado à entrada da habitação?

Inquino o desaforo para outro ângulo porque ainda quero, posso e mando neste colóquio com as restantes identidades irmanadas àquela que, de momento, respeita a identidade digital do meu polegar. Diz-se, por apartados e zonas de coexistência, que o fascismo espreita, de mãos enfiadas na popelina íntima, de língua a encharcar os lábios carnudos, figura arquétipo equidistante entre o glutão depravado e um caso de paralisia de Bell irresolúvel. Todavia, importa reajustar o ponto de mira: e a facção que insiste na preparação para o jantar quando o mesmo se encontra finalizado? “Agora não estou disponível, vou preparar-me para jantar”. Como assim? Mentalizar-se de que vai abrir e fechar as mandíbulas? Calçar umas luvas e encontrar brindes no prato de favas ou caça ao tesouro de parecida igualha? Submeter-se a uma série de testes e provações para atingir a refeição como prémio? A sociedade está pútrida e fétida e deve-o à permuta entre o proscénio e a cena.

Bem, isto é que foi circunvagar! Repescar o tópico “escrita à mão” foi um achado. No peitoril “Memória”, a “codificação profunda e o maior envolvimento de circuitos neuronais ligados ao controlo motor capotou”. “Foco e concentração”, no meu caso, podia ser substituído por focaccia e com-sem-tração. Dispersei, todos deram por isso e é inútil velar o comportamento. Ignore-se o patamar “Criatividade e Pensamento Crítico”: com cuidado, para não tropeçar. Por outro lado, de modo a respeitar as práticas da inclusão e empatia vocabulares, resgato o termo “Neuroplasticidade” para a composição. Se valorarem como supimpa, já sabem quem creditar. Agora, é que o sus scrofa domesticus retesa as nádegas: segundo os investigadores do estudo, a escrita à mão espicaça a “Motricidade Fina” e tarefas como “usar talheres, abotoar botões ou apertar os sapatos”; porém, indago novamente: montar e desmontar tendas encerra que tipologia de motricidade?

Os meus avós resistem a permanecer na vala comum. Dado o tempo da estadia, devem sentir-se confortáveis naquele sepulto. Jamais me oporei a tal escolha, porque acredito que ainda vivemos numa democracia. Locupletados, de papo virado ao céu, a passar mais do que pelas brasas. Volta e meia, recebem um raminho de flores, uma luz artificial e conversas pelas quais julgo não se interessarem minimamente uma vez que os diálogos em cemitérios, não raras vezes sobre tais locais e respectiva envolvência, enfadam os defuntos. “Fulano de tal está muito mal. Tem um mal ruim. Agora, há muito disto. Dantes, não se ouvia falar tanto. Nem exames se faziam aos magotes. Agora é tudo diferente”. Tomo partido no assunto, para defesa da honra da família: deixem os mortos descansar, nos seus aposentos, a seu bel-prazer. Ainda por cima, de contas certas e sem embaraçar pagamento algum. A casa ainda é deles.

O pai evocou-me. “O almoço está pronto”, avisa, “vem para a mesa”. Já vou, respondo, guardando apressadamente as tralhas que empunhava. “Não é <<já vou>>, é vou já!”. O pai trasladou o advérbio de tempo na frase no período que sonorizava o riso satírico. Ignorei a preparação do jantar. Condoí-me, porque andava a prepararme para efectivar as refeições fazia meses e, de supetão, amarfanhei centenas de dias de trabalho. Cruzando a soleira da porta que separa a cozinha do resto da habitação, deparo com a mesa posta (e preparada, claro): sento, observo os restantes participantes naquela ceia e noto o ar contrito, os rostos cabisbaixos. Inquiro a razão do mal-estar e obtenho o vazio das respostas. Insisti uma e outra vez, o placard congelou. Sem me levantar, agarro na colher em formato de concha que pousava sobre a panela porque estava à mão de semear. Oiço o ruído metálico, provocado pela fricção dos dois objectos. Num pranto, o pai admite ter pago a prestação moderada do mês.

Vale-me ter comido a última refeição em final de julho. Até à data, extraio restos de comida da placa dentária e petisco em dias intervalados. Podia ser pior. Ao nível do Stress e da Ansiedade, (último tópico do artigo) faz-se o que se pode: embora não os escreva a lápis no bloco de notas, dá para expulsar alguns litros pelas ventas dos ecrãs. Esta é uma situação entre muitas e não tem qualquer respaldo na sociedade portuguesa. As restantes pessoas comem do bom e do melhor. Eu desempenho o papel de vítima, porque quero abalar a harmonia existente. Sou do contra, gosto de desagradar. Qual é o problema? Ajo conforme dita a consciência. Pacificamente, claro. A violência repugna-me. [o resto do parágrafo sofreu uma carga policial e ficou detido. Provocou a autoridade e a ordem pública. À semelhança do que aconteceu com Arthur e Belvedere, em “Monty Python and the Holy Grail”. Era dispensável, o parágrafo destravou a língua].

Noutros tempos, lembraria o álbum “Madrugada dos Trapeiros”, de Fausto. Hoje, descarto tal possibilidade. Ainda sobra para mim, caso continuem a agir de forma “especialmente cuidadosa e competente na reposição da normalidade”. Rezemos, portanto, pelos vivos, pelos mortos e pelos que estão pior do que isso.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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