Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês, impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
– “Louco tenho eu sido”. “Ananás degluto eu em espaventado pranto, quando da derrota da equipa de corfebol me tento recompor”. “Esfaimados são os que procedem à recolha de alimentos nos caixotes do lixo e ecopontos de grande porte”. Existirá vínculo entre as três frases mencionadas, partindo do pressuposto de que as mesmas foram proferidas por três individualidades distintas? Na disputa entre a interpretação do conteúdo morfossintáctico e o traçar da questão formal da linguagem/expressividade das palavras, qual elemento sairá vencedor? Constituirão as três mensagens um teor apócrifo, sendo que, durante o programa, o nosso entrevistado acolitar-nos-á no sentido da explicação de cada uma delas e atribuição ao respectivo autor? Farão parte – as três sequências de palavras – da conversa vadia travada entre Agostinho da Silva e Miguel Esteves Cardoso e é nosso objectivo descortiná-las no actual contexto social, económico e político do país?
Perdoem-me a facécia. No referido diálogo, todas as perguntas e consequentes explicações sobrevoaram doutos e elevados edifícios – a certa altura, afirmou-se que Portugal não tinha um regime verdadeiramente português desde, suponhamos, 1800, considerou-se que a natureza dos livros era tão morta quanto um cadáver inteiramente decomposto e acusou-se quanto à falta de complexidade na vida conversacional. Contudo, a crítica mais beluína atingiu outro patamar: Miguel Esteves Cardoso delatou o facto de o anfitrião, nos seus escritos, amofinar os seus botões somente em relação ao passado e ao futuro – e cumpriu escrupulosamente a missão de desordenar a mente dos que assistiam. Fora, sem dúvida, uma das brigas mais civilizadas às quais assistira.
Infelizmente, esta análise terá de ser legada a um programa futuro. Connosco, nesta emissão e nos estúdios da nossa estação televisiva em Pampilhosa da Serra, está Egídia, filóloga de profissão e residente em Seia. Neste momento, o telespectador perguntar-se-á, talvez, quanto à omissão do sobrenome da visada. Ora, devo dizer que não se trata de uma falha. Não é assim, Egídia?
Egídia: De acordo, sim. Da minha autoria, é o pedido de ocultação do sobrenome. Conhecem os apelidos que possuo somente pessoas da circunferência que me é mais próxima. Neste caso, três.
– Qual a razão para tal comportamento perante algo tão banal? Se reparar, em inúmeras situações do dia-a-dia, é solicitado o primeiro e o último nomes a fim de desencadearmos qualquer processo. O que há de errado nisto?
Egídia: Desagrada-me sobremaneira o tom que nesta conversa deposita. Acaso algum mal lhe fiz? Que vele os nomes genealógicos de pai e mãe repugna-o assim tanto? Subitamente, prova-se uma coisa: valorizam os jornalistas a vida dos outros em detrimento de com as suas se apoquentarem. Desgostar de referi-lo é suficiente razão?
– Para finalizar este tópico – até porque não foi isso que nos trouxe a esta conversa – trago uma situação hipotética: conceba mentalmente uma sala repleta de 30/40 Egídias, onde algumas cruzam idades ou locais de residência (para me reportar às informações aqui mencionadas). Na sua ideia, que outra etiqueta se poderia utilizar de maneira a prevenir que soasse a qualquer tipo de discriminação?
Egídia: Com a discriminação não me desassossego. Com ela convivo sem vexação alguma. Talvez a fisionomia dos visados apontasse. E depois? Quem caso disso fará para que me importe eu? Para me chatear escolheu este dia? Aqui para falar de hipérbatos estou.
– Registo o desconforto nesta temática. Mas avancemos! Falemos, então, do hipérbato. O amor pelos hipérbatos vem de berço ou traduziu-se unicamente numa paixão mais recente? Se calhar, devíamos começar por explicar ao público qual a definição/conceito de hipérbato.
Egídia: Assim, o mesmo dialecto já falámos. Óptimo. À sua pergunta, com o maior detalhe responderei. Da associação Associação Portuguesa de Linguística foi presidente meu pai, Ludgero.
– Ludgero quê? Na Biblioteca Nacional de Portugal, no arquivo referente à Associação Portuguesa de Linguística, consta lá tal nome, igualmente sem sobrenome.
Egídia: Ao dó se aconchegue. Por qual motivo o apelido de meu pai iria revelar? Ignorando a sua pergunta, o raciocínio prosseguirei.
– Um jornalista tem de fazer o seu trabalho. Escrutinar, investigar e esburacar qualquer caudal que lhe pareça noticioso…
Egídia: A licença de falar me é dada? A licença de falar me é dada? Obrigado. A dizer estava… educada sempre fora junto dos hipérbatos. Desde jovem, que das frases inverto as palavras de ordem. No fundo, à utilizada pela franja mais jovem da sociedade (os bebés), se compara esta conduta, quando vozeadas e repetidas aleatoriamente as palavras esparsas.
– De modo a clarificar o telespectador, esmiúço a definição da palavra hipérbato: segundo a Infopédia, recurso estilístico que consiste na inversão da ordem habitual das palavras de uma frase. Tem a noção do quão privilegiada é por florescer nesse reduto, frequentado por uma minoria silenciosa?
Egídia: Pois reconheço. À ventura de crescer no meio de linguistas e filólogos e de vastíssimos livros sobre gramática e ortografia se refere o meu amigo, não está correcto? Isso lho concedo. No seguinte atente: ideia fará de quantas noites perdi nesta aventura de quase 46 anos a afincadamente estudar o fenómeno estilístico? Silenciosa é a minoria, como diz. Silenciados são os suplícios que se lhe associam.
– No registo autobiográfico apresentado no ano transacto, intitulado “Eu não das palavras troco a ordem”…
Egídia: Pára o baile e alto! A um álbum de hip-hop de um artista designado Nerve diz respeito o titulo mencionado. Com a decência que se impunha, o trabalho de casa foi incapaz de realizar. A falta de respeito do entrevistador para com o entrevistado, uma vez mais, Portugal testemunhou.
– Peço imensa desculpa! Devo ter baralhado as folhas de suporte desta conversa com o trabalho solicitado pelo professor de Educação Musical da minha filha Matilde. Além disso, estou a divorciar-me, a minha cabeça pensa sempre longe…
Egídia: De terminar de falar ainda não cessei. Investigar e escrutinar todos os factos disponíveis até à exaustão comportam o dever do jornalista. A sua situação contractual a estação televisiva que representa deveria repensar. De injustiças basta!
– Oiça, já lhe dei razão! Inclusive, entrei em aspectos pormenorizados da minha vida. Creio que estará a exagerar na reacção. Vamos continuar. Qual a importância de inverter o encadeamento dos vocábulos nas frases?
Egídia: Um aspecto falta abordar. Continuar a repreendê-la tenciono. A esta entrevista de espírito aberto vim e prova cabal se traduz na pacatez com que assisti à introdução deste programa. Foi demasiado longa e, por isso, aborrecida a parte incipiente desta conversa. Mormente, da análise morfológica e morfossintáctica da problemática distanciou-se, por completo, a referência à conversa vadia entre aquelas duas personagens. Do lamento pela falta de análise ao interlocução entre tais figuras de falar me abstenho.
– É necessário voltar a pedir desculpa? Caso seja, de quantas carece? Estamos a chegar ao fim do programa e o público deve ter incompreendido grande parte deste diálogo. Questiono-a quanto ao futuro do hipérbato: o que sucederá? Considera que é uma técnica literária em vias de extinção tal como o lince ibérico no capítulo da biodiversidade?
Egídia: Embora insultá-lo passe pela vontade mais indómita que possuo, descer ao nível que ocupa me recuso. O sucedido lamento, mas tamanha incivilidade não tolero. O programa abandonarei, a partir deste momento.
– Aguarde um momento, por favor! Quero, perante a nação, ter a oportunidade de me desculpar deste imbróglio. Peço-lhe, deste modo, para continuar sentada na cadeira.
Egídia: Pelos portugueses, única e exclusivamente, a sua vontade respeito. O favor faça.
Representando a pausa dramática que julguei adequada, vinguei-me:
– Um manguito lhe dirijo, Egídia! Para se deixar de fintas relativamente ao apelido pode servir-lhe este gesto obsceno, mas merecido.
A emissão termina. Os créditos saltitam para o final do genérico. Egídia permanece sentada, pensativa, enquanto arrumo os meus pertences apressadamente. À medida que me desloco para a saída do estúdio, pareceu-me escutar a filóloga admitir ao operador de imagem o vinco da minha personalidade, na altura da aplicação do hipérbato.
Quanto à possibilidade de os entrevistados não se ficarem a rir à custa dos jornalistas, a certificação se exige.
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação