OPINIÃO: “Silêncio fúnebre”, disse

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

27-04-2021.

Guardo este dia como se fosse amanhã e depois do dia seguinte.

Poucos são aqueles que se dirigem a nós e nos entregam as más notícias. Imagine-se o que seria se um certo desconhecido se chegasse ao pé de si, enquanto tomava a sua bica na mesa mais escondida do alcance da miragem, e lhe dissesse Ora então boa tarde, meu caro, posso sentar-me, ora, sabe o que lhe trago, exato, péssimas notícias, está preparado, sabe que mais, nós vamos todos morrer e o mundo um dia vai ser consumido por ovnis e extraterrestres que nos farão escravos deles, ah, não acredita, bom, pois fique sabendo que foram realizados estudos…que…

E ali prosseguia. O outro, o recetor, esse estaria de olho pregado no fala-barato, estático, meio que afónico, mas dos olhos e dos ouvidos, desejoso que aquele se pirasse.

Custa-nos ter de entregar a bandeja torta, não é? É mais fácil vir com ela estendida nas mãos e rejubilar que nem uma alface fresca. Só que, vejamos, neste caso em específico, o contexto era outro. Não um local de convívio social de retirar as bicas e de sermos interpolados por um desconhecido carregado de teorias da conspiração, mas sim o ambiente de sala de aulas. Também, sejamos francos, tem dias que se confundem ambos os cenários. Às vezes, pouco ou nada se distinguem.

Reformulo: serão más notícias, ou será o desenho daquilo que é a realidade, realidade essa que apavora, nos tolhe devido ao duro impacto, revelando-nos o fundo da garrafa que há em nós, por sermos uns míseros seres inferiores e indefesos num mundo maléfico e canibal? Poucos são aqueles que se direcionam a nós, jovens estudantes, inchados até aos olhos de um leque vasto de utopias parecidas às de Marx, e nos dizem tintim por tintim, entregando-nos a batata quente nas mãos, ou para os que estão na mesma área, entregando-nos a notícia de última hora que nos faz tremer o peito e sentir que neste corpo ainda por começar há nele um desterro profundo de um quinquagenário próximo de uma reforma antecipada.

Ai a juventude e as suas tamanhas fantasias meio que trôpegas! Ou trôpegas, ou embriagadas, ou ambas e a coisa fica-se pelos encostos. Abra-se a próxima garrafa e esgote-se o sangue fresco da desmotivação para, no dia a seguir, sugarmos o que restou e desse escasso despojo nos impregnarmos de otimismo débil. Pois, olhe, espante-se que o Sonhador ali vá, desliza com confiança pelos corredores, coitado!, mal esse sabe do tombo que vai dar, e não é com certeza das escadas que vai subir para o segundo piso, e muito menos da marca que leva calçada, olhe só para ele, bem composto, cabelo no sítio, arranjadinho, bem polido, parece-me, que o olho não é vesgo, mas vai apanhando cada calinada que até custa a crer, e, veja-se, repare-se, aproxime-se, o entulho ali vai, expresso nas entrelinhas dos sonhos guardados nas algibeiras que nem um guardador de rebanhos. Espante-se, pois, na miudagem esquerdista que aposta num mundo mais respirável, mais justo e igualitário, esquecendo-se da realidade que vive mesmo ali encostada ao seu ombro, debaixo dos seus olhos…ai, há de tudo, meus caros! Há que estar simplesmente interessado, mantendo uma aparência de desinteresse, só que claramente fingido. O observador é como o poeta e finge; finge duplamente.

O discurso do sábio professor caiu em nós como um estrondo se faz ribombar numa noite de tempestade. Estourou de tal ordem, que se ouvia o ecoar dentro dos nossos peitos como as locomotivas da era industrial do século passado. As palavras frias e sinceras, objetivas e diretas, traziam a dura realidade para debaixo dos nossos pés. Outrora macios e felpudos, maravilhados com a capacidade de nos ensinarem a voar e de nos desprenderem levemente e de escasso alcance, mais parecendo os Deuses do Olimpo com aquelas sandálias de impressionar, tornaram-se rapidamente pesados, duros, à medida que o restante corpo, trémulo e estático, paralisava conforme o mapa se ia desenhando nas nossas caras. Ouve-se ele dizer, O mercado está competitivo, está feroz, está canibal, e vocês não estão preparados para o que aí vem, Alguém aqui já pensou alguma vez na possibilidade de emigrar, disse ele, e uma das alunas pronuncia-se afirmando timidamente, as restantes ainda a resgatar os resquícios da informação ficam caladinhas, Pois comecem a pensar seriamente nisso, porque não é Portugal que vos vai abrir as portas para o que querem, sobretudo na vossa área.

Sem falinhas mansas, sem rodeios, sem apaparicar a nossa alma. Saem disparadas como tiros, ainda por cima são bem alinhadas para nos ferirem com acutilância. Estamos a batalhar interiormente, resistindo às suas palavras, resistindo à dor instalada. Jornalistas, esqueçam, oiça, o dinheiro, na vossa área, está no planeamento de meios e audiências, e têm de ser realmente bons no que fazem.

Afinal, as más notícias podem ser só e somente a realidade. Esta é uma delas. Custa, mas é o que é. O discurso permaneceu e deu pernas para mangas…que é como quem diz…durou cerca de uma hora e meia. Uma hora e meia a desmotivar. Uma hora e meia a conhecermos, na verdade, o que nos espera. As filas que nos esperam e os bolsos vazios que traremos para casa. E todos sabíamos que o discurso poderia ser apenas vindo de alguém que acordou com os pés de fora e adora espicaçar os alunos, mas nada disso; experiente no mercado, olho desperto e conhecedor, sabia perfeitamente e de forma eloquente do que falava e sabia o que dizia, motivos esses que contribuíam para intensificar o nosso medo.

Desdenhar as vozes messiânicas que nos berravam cá dentro e prosseguir na agonia, quem nunca, quem nunca. Assimilar mais este conteúdo do que a própria matéria em si, quem nunca, quem nunca. Venha o Espírito Santo salvar-nos das trevas em que acabámos de cair. E, enquanto eu assim pensava, tal como os restantes presentes, bom, pensava que amanhã acordaria sem este peso recalcado e que o sol, apesar de fraco, abriria a medida certa para dar alento suficiente para fingirmos ser capazes.

De rompante, oiço ele dizer Vocês estão com aquele que é chamado o silêncio fúnebre, e ninguém diz nada, mas sei que os peitos se ouvem a léguas, e as mentes, essas parecem chaminés ardentes.

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