OPINIÃO: Esta embriaguez foi saudável

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Que fazer, quando alguém que não lê revistas ou jornais não possa ver a minha afeição por elas através de palavras nunca lidas? Pois bem!

Dona Eugénia, recordo-me como se fosse hoje o que me disse no Mercado Municipal de Vila Real e fique sabendo que, apesar de não vir a ler estas palavras, eu declaro as minhas saudades. Rechonchudas, não tanto quanto a sua fruta, enchem-me o entulho. Não a estou a engraxar, você sabe disso.

Ao pé da sua banca, doce que nem uma avó de quem passasse, simpática e coberta de uma genuína vontade de nos ouvir, com as mãos ocupadas de favas por aviar, recetiva às parvoíces das jovens e à coscuvilhice das câmeras fotográficas prontas a atiçar poses e expressões, Avia-te que tenho ali fregueses para atender, dizia ela, toda de olho afiado para receber os fregueses, ainda que escassos marmanjos com narizes taciturnos, lançou conselhos que foram remoídos e talvez agora latentes como uma dor de cabeça avistada numa ressaca. Ainda a oiço, ainda vejo os seus olhos alarmantes e o seu dedo em riste, Tende cuidado com as bubidas, dizia ela de voz prolongada, como que a benzer-nos com palavras d’oiro, Cuidado com os companheiros, pensa em Deus, ele está sempre connosco próprios e se precisardes de ajuda, ele ajuda.

A dona Eugénia mal sabia o que viria a suceder-se nas próximas semanas, até parecia que o seu conselho vinha como um pronúncio. Talvez tivesse vindo, vá-se lá perceber as andanças que Deus nos aguarda, não é. Cá para mim, que eu nem sou de intrigas, de que seria se fosse, a dona Eugénia tem contacto com Ele e tanto um como o outro me quiseram testar. Aprecio o desafio, desde já. Se me estiverdes a ler, bom, é favor de se fazer o proveito, ao menos isso!

Mas, dona Eugénia, vamos ao que a fiz trazer até aqui. Oiça lá com atenção.

Para além do pivete da Ria, julguei que não ouviria pivetes. Sei que parece incrédulo, mas eu ouvi pivetes. Não cheirei, ouvi. Enquanto o álcool tratava de em mim embarcar, sabe Deus a velocidade da sua contaminação – e também do mafarrico que andava sempre a despejar-me cerveja como se de água da torneira tratasse –, às tantas sabe mais ele do que eu, já que é ele quem tem o controle de tudo, mas como eu estava a dizer, enquanto o álcool entrava em mim como se eu fosse uma barragem de portas escancaradas, via certos semblantes estremecer, aos tremeliques, perante a neblina em que os meus olhos se semicerravam. Não se apoquente, porque, por incrível que possa parecer, querida Eugénia, há no desconhecido um certo fascínio e uma forma confiável de nos entregarmos. Por sorte, quiçá; por instinto, o mais provável.

Tal sensação – a borracheira, sendo ela boa, diga-se – não nos permite, por vezes, focar no que nos está a ser dito, e são casmurras palavras que persistem em tentar entrar-nos à força toda, como se um balde de tinta linguística nos estivesse a escorrer com placidez, embora com motivos alheios. E, enquanto uns tentavam atirar o barro à parede, outros eram um autêntico pivete. Faziam estalidos e tudo!

Ambulantes – quase – nos entorpecemos nas palavras que nos são dirigidas, ainda que consigamos captar o charme de quem as debita. Só de algumas bocas. O sorriso esboça-se, os lábios trémulos conseguem esforçar-se em soletrar o que o coração ditar – o coração, ou o álcool – e eis a tagarela consciente à mostra. Aguente-se, quem puder. Ou, a bem ver, quem quiser. A consciência, embora trôpega, turva, que nem água choca, arrebita com a substância a bailar-lhe pelo corpo. Deambulando com apenas um mergulho, atiça as entranhas todas. Falam-se enredos e enredos, e outros até se esquecem. Faz parte.

Voltando a si, dona Eugénia, e com base no ambiente em cima descrito, lhe asseguro que vivenciei as bubidas e as companhias da melhor forma, sem precisar de Deus. Talvez ele tenha estado lá pelo meio, algures, a espreitar, a dar os ares da sua graça, com uma mãozinha aqui e outra acolá, nunca se entregando totalmente – do que seria se tal acontecesse. Seja como for, tomei conta de mim, ainda que tivesse quem o quisesse fazer por mim. E, isto, porque há amigos das bubidas e há as companhias das bubidas.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta