OPINIÃO: Catarse normal

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Embora o suporte dentário o negue, a sociedade portuguesa abriu as pernas à estratificação. A hierarquização cavalgou o patamar medieval e atingiu o “ai, falta-me o nome!”. O período histórico seguinte, para simplificar: ralé, pobres, remediados, classe média, patrícios que açambarcam veículos Tesla, afortunados pela Santa Casa da Misericórdia, clientes do restaurante São Gião às quartas e sextas-feiras e SEO’s e CEO’s de grupos empresarias que fundem múltiplas áreas de negócio. A homofonia dos estrangeirismos mencionados previamente desnorteia a bússola orientadora da minha compreensão. Ditosamente, existe um espaço digital – por vezes, o homo sapiens menospreza a sorte atribuída ao facto de viver no séc. XXI – designado Nume, hábil na diferenciação conceptual. Um diz respeito à pessoa, outro corresponde a uma técnica de aumento de visibilidade. Um é o capitão do navio, o outro o conjunto de manobras rebuscadas a fim de impedir o seu naufrágio. A leitura do folhetim é objectiva e directa. O knowledge e o awareness são instantâneos. A catarse é consequencial.

O distanciamento ocorre com base no numerário, na oportunidade, no acesso àquilo que deveria ser de e para todos – a máxima é sobejamente repetida – e nas regras de covid-19 que ainda perduram, timidamente, em locais destinados à cidadania ou à saúde. Para a fogueira, eis uma acha: a purga sentimental, a meu ver, reúne as condições suficientes para ser, tal como outros, elemento de discussão pública, distendida e desdobrada do parlamentarismo à antepenúltima letra do abecedário.

Está tudo pensado e tem lógica. Toda a gente sabe que o prazo estipulado para a maturação exacta de algo, segundo as instâncias europeias e órgãos especializados na matéria, aponta para a duração de três semanas. Ora, a conjectura dura-me há quatro/cinco, acrescendo à contagem o tempo demorado na escrita e esquematização da mesma: dois dias, com pausas para (1) refeições, (2) resumir a matéria da cadeira “Estudo de Mercado e Comportamento do Consumidor” e (3) montar mobiliário encomendado a uma cadeia escandinava. Agir a esmo é para pelintras.

Deste modo, na proposta elaborada, o episódio catártico subdividir-se-ia em três eixos de actuação. Nela, consubstancia-se a forma como a catarse é introduzida ao nível do discurso com o próximo ou de que forma se insere num solilóquio, momentos antes de ser libertada qual arroubo jaculatório. Traduzido por miúdos, anunciar uma epifania segundos antes da sua manifestação. Concretizemos, portanto, a conversa fiada, até prova em contrário:

– O primeiro eixo agrega “ralé”, “pobres” e “remediados”. Ante uma qualquer enxurrada emocional, os membros pertencentes às classes mais baixas enunciam um simples “Fod****, pu**********, car****!”, seguido de um “Esta me*** não tem jeito nenhum. O 25 de Abril não foi cumprido. Os abutres continuam a alimentar-se do suor da massa trabalhadora” e finalizado com um “Isto só vai lá com uma nova revolução. O povo é quem mais ordena. Se os trabalhadores pararem, o país é obrigado ao mesmo. Votemo-nos ao inconformismo, camaradas!”;

– O segundo eixo é composto, unicamente, pela classe média. Vários estudos vaticinam a erosão desta camada social. Aliás, alguns encetaram a declarar a sua morte a partir de 2018. Outros, a viva voz, limpam-lhe o pó e bradam a sua sobrevivência. Lida-se, concebo eu, com um morto-vivo. Este espécimen, ao que tudo indica, conserva no seu dialecto maioritariamente urros em forma de desavindo lamento. Em vários locais, por vezes, numa cama de sussurro oriundo das paredes ou ambiente que o delimita, escuto palavras como “neoliberalismo”, “tecnocapitalismo”, “asfixia empresarial”, “IRC” e “Jorge, não queiras fazer as coisas à pressa”, proferidas por uma mistura de zombie com um indivíduo que se abotoa enquanto caminha e que percorre todos os dias o Parque das Termas, em Vizela. Concedo que “Jorge, não queiras fazer as coisas à pressa” seja fruto da minha imaginação, uma vez que o timbre se assemelha à voz da minha vizinha;

– O terceiro eixo abarca as restantes camadas da sociedade. A síndrome do novo riquismo e a patologia do velho chelpudo são sobejamente observáveis. O capital, o (aparente) frágil polígono de papel impresso à fartazana, os criptopatacos, também designados “ativos virtuais”, transferidos e armazenados em formato electrónico e alicerçados em tecnologia blockchain (Bitcoin, Ripple, Cardano ou Solana), os líderes empresariais de multinacionais disfarçados, no Entrudo e fora dele, de sanguessugas e de chupistas, os milhões de euros gerados a partir de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) e por plataformas de redes sociais, a cotação de holdings e grupos económicos na bolsa de valores, o cálculo dos múltiplos EV/EBIDTA, utilizando ou não os de Damodaran, o oceano poluído de juros, impostos, depreciações e amortizações, a dívida líquida, a pestilência das agências imobiliárias e consequente especulação, o alojamento local, os Airbnb, o que ainda carece de cotação. Vá lá, vá lá Estaríamos aqui o dia todo.

Trabalhem, trabalhem. A trabalhar é que a gente se entende. Há tantos que não querem trabalhar e os mesmos de sempre é que os defendem. O socialismo caiu em saco roto há décadas e, em Portugal, ainda ninguém o descortinou. A Constituição da República Portuguesa consagra-o, mas o país guinou à direita. Ninguém quer saber disso. Altere-se o preâmbulo. Socialismo significa pobreza, precariedade elevada, falta de liberdade e cancelamento, censura por se dizer aquilo em que se pensa e por divergir. Uns descontam e pagam impostos, dão no duro oito horas por dia, sete dias por semana. Ganham o salário mínimo e ao dia 20 carregam a cruz porque a míngua do ganho se impõe. Mas existem mais problemas: os imigrantes têm todos os direitos e os portugueses avistam o mar e a marinha, as minorias querem cortar e pregar nas instituições públicas de ensino e já se apropriaram das agendas das organizações partidárias. Voltamos a 1975, 1976. A facilidade com a qual se passa uma esponja e se branqueia os que só querem ajudar o país, movido pelo ímpeto patriótico. Porque somos mais patriotas. Os mais patriotas. Protejam, em primeiro lugar, os nossos. Os que combateram por nós contra os guerrilheiros africanos. As forças policiais que são violentadas, constantemente, na rua. Os artistas que decidem opor-se à cultura de esquerda implementada no nosso país.

Abril foi um sonho bonito, mas falhou. Falhou, porque vocês deixaram que falhasse. Não tiveram mãos nem unhas para guiar esse automóvel. Eu estarei aqui, à espera, para servir o meu país. Já conduzi um Tesla.

“Mãe, eu quero ficar sozinho / Mãe, não quero pensar mais / Mãe, eu quero morrer mãe / Eu quero desnascer / Ir-me embora /Sem sequer ter que me ir embora / Mãe, por favor / Tudo menos a casa em vez de mim / Outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar / E de me encontrar fugindo / De quê mãe? / Diz, são coisas que se me perguntem? / Não pode haver razão para tanto sofrimento”.

Na passada segunda-feira, desloquei-me à loja Normal, no Espaço Guimarães. Cedo depreendi que, para efectuar o pagamento do producto escolhido, não existia outra hipótese se não a de atravessar todo o estabelecimento e contemplar todos os artigos expostos. No local, sete pessoas assistiram à catarse. A polícia interveio a meio da primeira parte. A segunda parte refere-se somente ao acto que compreende o pagamento, diante de um empregado indiano. Em episódios de génese catártica, impera sempre a figura de José Mário Branco, razão pela qual repeti uma estrofe da canção FMI.

O momento foi, em tudo, anormal.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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