OPINIÃO: A morte, que eu saiba, ainda é minha

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Não está morta, esclarece, simplesmente, trocando o copo de vinho por um aperitivo salgado, Ainda, espanta-se o aqueloutro, especado à vitrina, trazendo à memória outras várias que tropeçam em tapetes e cortinas de fumo. Ao fundo, na televisão, o aprumado do chá das quatro da tarde, com mais uma estória para preencher o auditório refastelado. Desta vez, o reformado que se licenciou em história, aos setenta anos de idade, foi mestre e agora doutor! Upa, upa! De tão repetitivo nas suas interrupções, acrescenta, dizendo não ser grande apreciador de que se mascare a palavra velho por idoso.

Aqueles dois, desligados da televisão ligada, alheios do debate presente e da emoção convalescente, conversam agora em silêncio. Se conspiram a morte da Adelaidinha, engane-se; ela, trazida pelo vento da vida, com caracóis que nem Nossa Senhora dos Remédios poderia esmerar com espuma e trezentas lavagens com champô, é só mais uma que retira a casca do tremoço apenas para os comer separadamente, portanto, inofensiva; por seu turno, ele agradecia que lhe comprassem um computador novo e, por vezes, tem dó das pessoas. O tema da morte rumina pelas cabeças, incomoda e empurra-os para a realidade de novo. O luto da morte alheia regressa tão depressa quanto se vai. Mas ninguém morreu! Ainda…

É a vez de ele se recompor, regressando os óculos, que escorregam pelo nariz pontiagudo, ao lugar do costume. Indo ele indo ele a pensar seriamente em como a morte nos torna míseros soldados combatentes, descai os ombros. Tem sentimentos, parece. Os olhos dos dois tocam-se ao de leve, gesticulando a compreensão mútua por denunciarem certa melancolia.

Diz-se que está tresloucada de todo e, enfim, estouvada, solta ela, voltando a trazer o vinho aos lábios, desfeita por dentro, consciente por fora e tão vasta e poucochinhoa como uma herdade de oliveiras dispersas, Ao que a idade nos faz chegar, Pois é, ao que os números somados podem chegar. O silêncio correu pelo vazio do cubículo, talvez na esperança de ir em busca do grito, da desordem, das palavras não ditas e do raciocínio rebuscado. Ou isso, ou então obrigar-nos a estar perante o discurso do reformado com inteligência de fazer invejar um jovem de dezasseis anos. Podia ser pior, pode sempre ser pior, não é, responde ela, secamente, E a morte não é o pior, fica a questão a sobrar no ambiente e esfuma-se conforme o embuste pesado, calando os passos de quem na rua se desvia a passo voador. Ela, como que pousando os pés na terra, afirma, Estou a falar dos amendoins, pá!

De rompante, um altivo gargalhar surge do outro lado, e eis que a velhaca do supermercado resplandece com as sobrancelhas em riste, e, como em nada escapa aos habitantes da vila, ela fez questão de explicar, Anda às aranhas por causa da abertura do novo supermercado, já sabes como é. A curiosidade sobre a mulher lá fora esvai. Quase que a quase morta desvaneceu da conversa, mas rapidamente regressou. Por mais ilustrações distrativas que o quotidiano nos impinja, por mais cheias de graça que sejam – que o são –, até porque a dona do supermercado veio cá fora espalhafatar um raspanete à mulher dos tremoços sobre ela estar constantemente a ir ao homem da caixa refilar por um roubo que não aconteceu, por mais caricato desacato que nos suceda e a nós não nos assista, tornamos a envolver o nosso novelo e a enrolá-lo novamente aos poucos. Há humor até no mau humor, já que na profundeza regozijam as maiores carrancas do Diabo sempre à espreita, à espera de ver-se alcançadas pela oportunidade de nadarem e surgirem à tona e de nós tomarem conta. Troçar da morte por estas bandas é que não, que todos os santos andam ao penduro no pescoço e se pronunciam em uníssonos. Proclama-se o respeito até pelas obras por pregar o prego, honre-se a memória dos que foram e dos que partirão! É provável que aqui seja o único local da terra onde a morte tenha menos graça.

Sabes o que te digo, meu caro, aproveitemos o quão moderadamente nos sentimos intristes, termina ela, momentos antes de entregar o guião a quem escreve este texto.

Morrerá um dia, como todos nós. A semente que deixará, se é que cá deixará ao Deus de ará, enlatar-se-á, acabrunhar-se-á, recostar-se-á ao prazer do vazio, do bosque desencantado, às escadas surdas, à rua desalinhada, às pedras murchas, às folhas ressequidas, às uvas a pingar da rameira e por apanhar, de as encurralar, esborrachar e delas fazer brotar um verdadeiro tempero culinário de fazer arrepelar os calcanhares invejosos da vizinha.

Moer, lá isso ela mói. Tritura a paciência com palavras repetidas e tira o tino a quem passa, mas só se dela fizerem pouco, que dessas coisas ela não admite! A coitada, como é vista, baloiça na anca, descai ora para a esquerda, ora para a direita, perna com contraperna, anda e desanda, atarefada, sabe-se lá de quê, de casa para o terraço, do terraço para casa, umas mais de dez vezes ao dia, desengonçada até nas vestes escuras, como se de luto andasse, todos os dias, pelo dia que nunca mais chega, de luto pela sua própria morte, caminhando à lentidão de um caracol desnorteado, empenada de um só lado que descuida o outro, faça-se a atenção devida, e só não diz Ó sol que te vais pondo a passo poucochinho e mingas em tapar-me as mangas desabotoadas, só não o diz, repito, porque tem uma vida para não ver despachada. E… mesmo assim… ela prefere agarrar-se às pedras.

A Adelaidinha – revelado o seu nome agora mesmo – ocupa o corpo, a cirandar que nem mosca confusa e embirrenta, não larga o que é seu, por mais nada que seja, é osso seu, ocupa a mente com estórias do arco da velha, enquanto o silêncio é sibilado pelos compassos ritmados, muito habituais, até enfadonhos para quem está a vê-la. Houve um dia, um qualquer, que enraivecida, se virou para a vizinha dizendo que lhe roubaram o garrafão vazio que tinha nas escadas de pedra. Diz ter sido furtada por aquele que lhe foi ajudar, bastou ela virar costas para lhe roubarem um grande garrafão de plástico vazio. Vazio!

Os outros dois jovens ainda estão à mesa. A conta está à disposição de ambos e, antes de saírem com os bolsos mais vazios, ela aproveitou para contar um pormenor que poderá perfeitamente findar este contar, segredando-lhe: No outro dia, vê lá tu, virou-se para mim e disse-me o seguinte ‘Se não for pedir muito, deixem-me cá quieta comigo e com os meus pertences’, e eu não haveria estar mais de acordo, dizes-me tu, se a morte é dela, tal como a vida, deixai-a morrer quando quer e como quer!

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