OPINIÃO: São 19h17 e anoitece lá fora

Francisco Lima, 23 anos, Licenciado em Direito pela Universidade Portucalense Infante D. Henrique

São 19h17, acabei o clássico horário de trabalho há sensivelmente 17 minutos e agora escrevo sem pensar muito, deixo as mãos fluírem pelo teclado de um computador velho e gasto com o tempo. Engano-me regularmente à medida que escrevo rápido, faltam letras, acentos. Aparece o sombreado vermelho ou azul e corrijo. O teclado também é velho e tem algumas teclas empenadas. Penso o quão mais poético isto seria se estivesse a escrever numa máquina antiga, a ouvir e ver as pesadas alavancas a cravarem o papel. O quão mais erros também o presente texto teria. Estas tecnologias, apesar de as criticarmos, até nos facilitaram a vida.

Vou escrevendo, literalmente, à medida que surgem as palavras à cabeça, numa vaga tentativa de génio criativo. Parece um bocado oco. Se calhar até o é, mas também não são assim a maioria dos nossos comportamentos, escolhas e decisões? Faço apenas jus à forma mecanizada que nos dizem que temos de comportar. Mas numa tentativa de forma poética. A complexidade perturba, assusta. O ser humano não gosta de respostas ponderadas, complexas e difíceis. O raciocínio faz-nos questionar toda uma coletânea de paradigmas estabelecidos. Que trabalho. Fiquemo-nos pelas respostas automáticas. Mecanizadas, como o teclado de um computador.

Preparo ainda o refugado do jantar que vigio cada vez que termino um parágrafo. Não está ninguém de momento em casa. Ecoa um silêncio reconfortante, as precianas estão entreabertas e vê-se os últimos raios de sol a desvanecerem-se por entre os tons alaranjados e a brisa crepuscular – esta não a sinto, mas presumo que exista -. Se calhar daqui a uma semana, a esta hora, já não me distraio com os poucos feixes de sol que entram subtilmente pelo pouco de janela aberta. No outono os dias ficam repentinamente mais curtos.

Ouço os berros académicos dos doutores e dos veteranos na praxe a decorrer no jardim em frente. Assim relembro as boas memórias académicas. Os meus amigos, as pessoas que, de tantas formas, marcaram o meu percurso, permitindo-me chegar à pessoa que hoje escreve descontraidamente e sem fio condutor lógico em frente ao computador velho e desgastado.

Troco, nos intermédios, entre o jantar e a escrita, umas mensagens com os meus amigos. Lembro-me ainda dos convívios que tínhamos, antes de pandemia, e que agora, cautelosamente tentamentos retomar. O cozinhar em conjunto, as misturas espirituosas com sabe-se lá o quê, os jogos de tabuleiro e de cartas. É reconfortante esta reminiscência dos pequenos momentos.

A verdade é que somos feitos de memórias. Pequenas e grandes memórias. Simples e saudáveis construções de momentos que nos marcam de formas tão particulares e individuais, que ficam connosco numa tentativa do ‘para sempre’.

25 de outubro de 2021

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