OPINIÃO: Estudar para não podar

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

As sete da manhã ainda nem ressoam no sino da aldeia e já há quem em pé esteja numa azáfama que só em tempos de vindima se justifica. Na paragem, enquanto os meus pés impacientes se resignam a esperar pelo autocarro, a dura tarefa de nos capacitarmos da coragem suficiente para enfrentar mais um dia, que isto dos corajosos tem muito que se lhe diga, a Isabel sai de casa, e lá me solta os seus habituais bons dias com um sorriso mascarado, seguindo o seu percurso para o lar de idosos, onde trabalha.

A seguir, pausa-se no mundo e é na imensidão do silêncio e do vazio da manhã que me imbuo. Ainda a manhã nem espreguiçada está, custa-se-lhe abrir os olhos, claro está, torno a pensar que as levezas daquelas manhãs para sempre me ficarão recordadas noutra idade. As raízes funcionam assim. Por mais que, de início, nos sintamos arrancados delas, e nelas choremos pela partida custosa, em posição fetal, há sempre a coifa que, profundamente, nos abraça e nos retoma ao leito, calorosamente. No fundo, é estar feliz por ser raiz de uma videira mesmo que torta, como diria Manel Cruz.

Entretanto, são as carrinhas brancas dos trabalhadores que se entregam à escuridão da manhã, dando o ar da sua (des)graça, deambulando naquele que parece ser um amanhecer triste e, de dentro, as gentes descuidam-se e entornam o seu olhar curioso, botando-se à janela numa última réstia de distração do mundo em movimento, para saber quem é que sou, ali, especada, a olhar também para elas. Tem graça, agora que penso, já estive mais longe de saber quem sou e o que quero. E, para ser sincera, a única coisa de que tenho realmente certeza – vá lá, menos mal – é a de que estou à espera do autocarro. Podia ser pior, como dizem uns, e os outros lá respondem, Pode sempre!

Cheire-se de perto – não o leitor, claro está que, por óbvios impedimentos, fará da memória um apoio –, pois repare-se: o pão escaldante e fresco sai de mão dada com a vindimeira, com a rapidez de fome atiçada. Vestindo uma camisa aos quadrados, essencial para os arranhões das videiras, que isto do campo tem muito de dureza, mas de cautela mais ainda, trazia na cabeça o chapéu do partido que a convenceu, ou isso, ou nem por isso, a verdade é que estas bugigangas dão sempre um jeitão nestas alturas. Daí viessem mais comícios, que era feira o dia todo! Oh!, oh!, homem, então não haveria eu de querer, claro que quero uma bandeirinha, nem que seja para abrandar o fumo que sai da fogueira, num domingo à noite, que por vezes me enxerca o raio da cozinha e se me fazem arder os olhos; claro que quero o seu álcool gel para tratar deste vírus que não há forma de nos vermos livre dele!; uma caneta? Ora, mais viessem se tivesse, fazem-me tanta falta para rabiscar nas cartas das finanças e na lista de compras que nunca se faz sozinha, a maldita! Por tudo isto, tragam mais introitos de aborrecer o velho e a criança e de os alancear com o rugir de vitória, gritando aos sete ventos de que já está no papo! Viessem mais estojos destes, que o pão que de manhã se compra não é grátis, nem que pedinchasse!

A mulher, dentro da carrinha, aguardava, assim, o regresso da malta que ainda no parlatório andava sem emenda alguma. Os comparsas, que não faziam questão do tempo, exultavam daqueles escassos minutos de tal forma, que davam a sensação de que nem teriam quaisquer responsabilidades para com a vinha que os esperava de plantão. Ora, fosse eu a vinha, a ver se não viriam logo por uma orelha! Ou, por um bago! Faça-se a analogia de forma realmente credível, pelo menos. É que, tenhamos dó, o café ficará agarrado – e com certo gostinho – e prolongar-se-á pelo resto da manhã, enganando o ronco estomacal, e é ele quem dará ao corpo o cebo até à hora da bucha. Há poucas mais vezes que esta em que o sabor escorre na língua, fica escorado numa lembrança matutina, como se de um coador se tratasse, e ali ficasse a marinar com dois dedos de conversa à mistura, antes da mola vergar e do corpo se fazer trapo. Ala que é moleiro!, ouvir-se-ão, daí a um nada, nas profundezas da alma, as motivações impreparadas. Até porque, para molezas, bastam as do meio dia, a seguir ao almoço, que bem custam arcar e fazer arrancar o motor, perro que fica com o entulho amontoado.

No campo duro de roer, em plena época da apanha da uva, sacode-se o corpo da cama como quem sacode um tapete cheio de borboto contra a parede abaixo da janela, e, surpreendentemente, sempre com aquele descuido inofensivo de adivinhar que, ui ai, lá vai a vizinha a passar, toda carregada com os sacos das compras e recebe vindo dos céus um cotão energúmeno; como haverei eu de descrever tal despertar? Olhe, acorda-se e pronto!, num ápice, dormente e cansado, ainda com os resquícios dolorosos do dia anterior, ao ponto de, ao redor do hábito rotineiro do Tem de ser, mais um dia, mais uma farra no duro, É pra valer, hoje!, Haja ao menos a pinga, pá!, eis que, ao leme de um descontentamento, uma voz sibilante e aterradora, denunciante e bem agitadora, surgindo sabe-se lá de que revolta, nada parecendo querer e tudo nos anseie levar, avisa, com a audácia de que o quente dos lençóis são um poiso mais aconchegante que o sol de verão a raiar nos lombos expostos, mesmo à mão de semear…

Num rompante, ai de quem adormeça! Ai de quem se deixe tombar! Até porque…haja rigidez, comadre, que nem sempre Deus se põe em bicos de pés para ajudar a gente quando às aranhas andamos, pois não sabe vossemecê que a morte não nos escapa?

Talvez seja o café a espevitar o corpo, como o caso daquela comitiva, até porque, tanto pelo trabalhador, como pela trabalhadora, o pobre coitado, dorido que está esmagado pelo tempo e torcido pelos anos, descobre-se que aquela, ao fim ao cabo, torna-se na iguaria – a seguir ao vinho, ora essa – de eleição para se aguentar só mais um pouco disto a que nos propusemos desde que nascemos. Quiçá, seja este o aquecimento das gentes e dos corpos entanguidos: tagarelar na padaria logo pelo amanhecer, conspirar contra o molangueiro, reclamar com o Governo, respingar contra o empreiteiro, olhares cruzados entre os namoradeiros que na flor da idade se denunciam, antecipar o desfastio e comprar um bolo para enganar o resmungão das horas, indignar-se por se viver no lugarejo, do campo não se amanhar sozinho e de se troçar da companheira de bardo.

O autocarro chegou e, infelizmente, penso eu, hoje tenho aulas. Que sorte a minha! Afastada do árduo trabalho do campo, mas sempre com a consciência de que, se fosse numa outra altura, não assim há tanto tempo, poderia ser eu ali, obrigada pelos meus pais, embora ainda mais obrigada pela fome e pela sobrevivência.

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