OPINIÃO: Morreu aquele que cuidava dos mortos

Corria o ano de 2007, era eu um jovem estudante de psicologia perdido entre os enigmas da mente humana, quando tomei conhecimento de um curso livre e de iniciação à medicina legal que se ia realizar no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) no Porto. A formação foi ministrada pelo Professor José Eduardo Pinto da Costa que faleceu no passado dia 8 de dezembro por doença prolongada.

Frequentei esse curso com mais dois colegas sendo pretensão inicial afastarmo-nos um pouco dos enigmas da alma e da mente humana e abraçarmos as causas de um outro enigma: a do corpo dos mortos. O curso de iniciação à medicina legal tinha alunos de várias áreas desde psicologia, direito, medicina, enfermagem, farmácia, mas tinha também alunos de engenharia e das tecnologias dando um colorido bastante heterogéneo à plateia que se amontoava num dos anfiteatros do ICBAS.

Havia, nessa altura, duas razões para a frequência massiva do curso: o Professor Pinto da Costa, o seu estilo de comunicar e ensinar, e os assuntos da medicina legal, sempre um mistério para todos, um misto de medo, enigma e curiosidade. As duas razões não eram dissociáveis uma da outra pois a temas tingidos por uma seriedade enigmática, como eram os assuntos ali tratados, o Professor Pinto da Costa dava-lhes um tom coloquial de análise que em nada comprometia o exame sério e rigoroso de todos aqueles cadáveres que apareciam nos seus slides. A acompanhar tudo isto havia um ambiente de mistério que cobria um outro mistério, espécie de cena dentro da cena que se desenrolava. As aulas eram à noite, uma vez por semana, iniciavam-se às 21h00 e terminavam às 23h00.

Quando as luzes do anfiteatro se apagavam para dar lugar à exposição luminosa dos slides com as figuras dos mortos, havia qualquer coisa de Sinistro que emergia. Este ambiente era ainda mais assustador quando as noites eram chuvosas e fustigadas pelos ventos e quando tais condições climatéricas eram acompanhadas por trovoadas e relâmpagos violentos, que deixavam o anfiteatro com uma claridade momentânea podendo vislumbrar-se, num ápice, os olhares abismados e atentos dos colegas que se prendiam aos mortos e às palavras do Professor Pinto da Costa que circulavam livremente por ali.

Recordo-me de, por essa altura, numa das aulas, o Professor ter dito algo que ainda hoje mantenho como bastante válido:

“- Não tenham medo, não tenham medo. Estes já não fazem mal a ninguém. Tenham só medo dos vivos, dos mortos não.”

Foi em torno da sua figura e do modo sui generis de comunicar o seu inesgotável Saber, a razão pela qual muitos dos alunos ali se encontravam. O Professor Pinto da Costa, à semelhança de muitos outros professores com que contactei ao longo da formação académica, recuperou o “discurso do mestre” tão referido pelo psicanalista Jacques Lacan e que conflitua, nos dias de hoje, com um “discurso universitário” pueril e impregnado de práticas institucionais que o deformam, moldando a transmissão do Saber em torno da dialética: Senhor-que-sabe-tudo – Escravo-que-não-sabe-nada. Em suma, havia ali os termos ensinados e tratados nas sessões e depois havia qualquer coisa que se desprendia do Professor, espécie de auréola mágica, sensação de rasto discursivo daquilo que era proferido e que nos seduzia e atraía. O Professor era um Aristóteles dos tempos modernos.

Este exímio professor portuense faleceu com 87 anos e obteve em vida consideráveis êxitos e vários louros no âmbito da Medicina Legal quer a nível nacional quer internacional. Mas, como homem do Saber renascentista, que acalentava sempre a curiosidade como horizonte primeiro da sua formação pessoal, ética e científica, destacou-se também pela sua admirável cultura geral.

Por tudo isto e por muito mais que as limitações impostas para um texto desta natureza não me possibilitam apresentar resta-me lamentar a morte do “Mestre Professor” vivendo das memórias que aconteceram naquele anfiteatro do ICBAS nas noites de inverno de 2007 onde se abriam com palavras os mortos já previamente dissecados e analisados com o bisturi aguçado do Professor Pinto da Costa.

Um muito obrigado, Professor. Descanse em paz.

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