OPINIÃO: A Empatia no Jornalismo

Francisco Lima, 23 anos, Licenciado em Direito pela Universidade Portucalense Infante D. Henrique

Já é de conhecimento, mais ou menos, genérico que os meios de comunicação social tradicionais, numa parca tentativa de acompanhar a natureza disruptiva do digital, têm sido moldados por um sensacionalismo questionável.

Esta premissa inicial não é novidade, refletindo-se, por exemplo, nas duas semanas de sensacionalismo sobre o conflito, já, por sinal, há muito prolongado, no Afeganistão, em incisivos acompanhamentos de acidentes de viação ou na queda, amplamente dissecada em todo o mundo, de uma criança marroquina num poço, como presenciamos há bem pouco tempo. Os media descobriram que a catástrofe vende, o apelo às emoções e aos sentimentos mais tribais, para o bem e para o mal, é que se tem, e cada vez mais, tornado importante noticiar, num claro detrimento pelo interesse público ou pelo bem-estar pessoal dos envolvidos na notícia, muitas vezes reduzidos a um estatuto, ou de vítima ou de “vilão”, polarizando, da mesma forma, a opinião pública. A crescente mercantilização do acesso à informação, pelos canais televisivos está, urgentemente, a carecer de um toque de empatia e humanidade. É importante haver um foco, despido de hipocrisias, em cada um dos casos particulares, por parte dos meios de comunicação, veiculados, evitando a alimentação de teorias da conspiração ou suspeitas não fundamentadas, assegurando a celeridade e a investigação empírica de todos os factos noticiados.

O mais recente alvo do sensacionalismo português foi a “tentativa de terrorismo” na Universidade de Ciências de Lisboa. É importante, antes de mais, ter em atenção que o termo “terrorismo” é, por si só, muito relativo e abstrato, assente numa base jurídica pouco coerente.

Contudo, e sem prejuízo pelo parágrafo anterior, dada a nomenclatura “tentativa de terrorismo” – aplicada precocemente -, o envolvimento do FBI no contacto com as autoridades portuguesas – algo que, apesar de nunca noticiado, acontece regularmente dada a cooperação internacional – e as particularidades do caso; ligaram o alarme social, inundando consequentemente as redações dos jornais, numa hiperabundância de factos e dados, alguns deles nem sequer compatíveis, numa desumanização do caso em apreço, bem como dos envolvidos. A exposição pública do acusado e da sua família, a corrente conspirativa do eventual motivo, a falta de ética no esmiuçar da vida dos envolvidos – comentários quanto a traços de personalidade do jovem, à forma de ele ser ou estar, gostos pessoais, amplamente irrelevantes para o interesse público -, a infundada culpabilização e demonização de videojogos e de animes sobrepõe-se e abafam as verdadeiras preocupações que deveriam ser o cerne das notícias.

Muitas perguntas pertinentes ficaram, e ficarão, por responder. Não houve, por exemplo, uma merecida medição do impacto que a crescente e rápida digitalização está a ter na sociedade, nem como a banalização na acessibilidade – através da internet – a meios, objetos e substâncias ilegais e nocivas, está a ter nos jovens. Não houve um encarar, um contraditório às alegações perpetuadas nem uma visão humanista sob o jovem como uma potencial vítima e não apenas como um agressor. Não se apelou a uma consciencialização necessária sobre a saúde mental nem sobre a violência perpetuada e, muitas vezes, branqueada nas, e pelas, instituições.

Há uma necessidade, mais do que nunca, de humanização do discurso jornalístico. Deve, o jornalismo, ser promotor da sensação de empatia e não de “chacina em praça pública”, independentemente da situação, dos motivos e das pessoas, individualmente, envolvidas. Este individualizar, fortemente vincado ao longo do artigo, torna-se, hoje em dia, mais essencial do que nunca, dada a importância, e a responsabilidade, deste discurso na criação da opinião pública, da pressão social que se torna quase tão punitiva e decisiva como os sistemas penais e o prejuízo que deste resulta no princípio da livre apreciação da prova dos juízes. Por isto e tudo mais, torna-se necessária uma ponderada reflexão sobre o rumo que o jornalismo está a, e pode, tomar, bem como o papel da empatia nesse rumo.

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