OPINIÃO: As façanhas de ruminantes ao som de castanholas

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

O ato de ingerir qualquer alimento que provoque uma espécie de crepitação ou estalido crocante na mesma mesa que meu irmão é agoniante. A mesma atividade – que, por norma, é sinónimo de júbilo numa pessoa que se benze quando cheira e contempla um cabrito assado – realizada na mesma mesa que meu pai traduz-se em algo confrangedor. Quando tenho a sorte de almoçar ou jantar com os dois, choro de alegria.

A intolerância é inversamente proporcional à distância a que me encontro de cada um dos ruminantes. Contudo, como exceção à regra, surge em cena minha avó: com ela, nem ao lado, nem de frente, nem na cabeceira oposta, nem por baixo da mesa. As façanhas a que tenho a honra de assistir estão ao alcance de poucas dentições. Até há pouco tempo, pensei que comíamos com os grunhidos estridentes emitidos por roedores – até procurei buracos nos rodapés – mas era só a minha avó a esbichar ossos de Suã.

Cada passado acarreta um vasto leque de tormentas, o meu acarreta assobios destinados a tímpanos caninos. Recordo, por isso, o desempenho do meu falecido avô na competição que parecia erguer-se durante uma refeição que continha sopa, prato principal, sobremesa e café.

Após sucessivas observações exaustivas e análises pormenorizadas, estou habilitado a descrever aquele sopro que incluía pequenos solavancos. A expressão “recolher obrigatório” não é apenas oriunda da pandemia que assolou o mundo a partir de 2020.

A sopa estava revestida, quase sempre, por uma floresta de couve muito verde e por um pedaço de carne envolto num osso. Ao içar a colher e conduzindo-a para junto da boca, os meus olhos arregalavam-se; depois, absorto naquele comportamento, contava os segundos até ao próximo aspirar. Findo o espetáculo, um pormenor curioso: a colher não respingava água ou caldo, não incrustava couve alguma nem tinha a menor evidência de vaporização.

Caros leitores, se com sopa e derivados o festim estava neste patamar, imaginem com cereais, batatas fritas e tudo o que estala. A certa altura, quem convive à refeição com estes seres adoráveis não sabe se está no campeonato internacional do rebentar de bolhas de plástico se numa festa techno de espaço muito reduzido com mais 299 pessoas – esperemos que estejam só – transpiradas. É nestas situações que vislumbramos a vida sob o ângulo completo.

Eu sei no que estão a pensar. E respondo “sim”. Claro que é possível emitir sons a comer morangos. Nada ali quebra ou parte, a menos que a semente seja substituída – durante a produção – por grãos de areia. Ao ingerir um morango, o meu tio consegue tocar a nota mais básica da pauta da castanhola. Ao ingerir 15 morangos, o meu tio concebe um medley com sevilhanas e rumbas junto de um acampamento cigano em Santa Clara do Louredo.

Na época natalícia, o riso fácil e incontrolável é o zombie de serviço porque está toda a gente imbuída naquele espírito muito bonito e um gajo aproveita. No resto do ano, engole em seco, trava risos e evita o contacto direto.

Apesar de ruminarem, são família e acabamos por nos afeiçoar a eles.

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