OPINIÃO: Falhei. Deparei com a proprietária de tripé. Sosseguei.

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Falhei na vida, meninos. A quarta baderna era para ser apresentada faz hoje não sei quantos dias ao certo, mas entretanto imensas peripécias sucederam. Não me lembro necessariamente das razões que conduziram ao referido afastamento, mas certamente que ninguém irá contestar a plausibilidade das mesmas. Arrependo-me, – tenho sentido arrependimento fugaz – mas é passado. A vida anda, a bola rola e ressalta, os cães ladram e a caravana passa, os burnouts reclamam cada vez mais um cantinho na mente humana. Ao escrever a frase anterior, fiquei ofegante. Achei que o facto de imprimir ritmo ao texto – através da enumeração – fosse resultar em algo. Pelos vistos, enganei-me.

Mas não fui o único a falhar, não fui. Considerando o raio-x executado pelas minhas retinas, constato que (sobre)vivem espécies mais obtusas do que eu a habitar o planeta. Pode parecer a piada da década, mas não. Após a descrição que tenciono realizar, veremos se esses risinhos de fundo não se transformam num “afinal, este gajo tinha razão. Vou imediatamente acondicionar 5000 moedas de 1€ em sacos de plástico e fazer-lhe uma surpresa”. Provavelmente, uma ou duas delas formavam a vossa gorjeta e o café com cheirinho estava pago. Tenham cuidado com os sacos e não os rasguem. Assim, escuso de pagar quando for ao supermercado.

Estava sossegado na região algarvia do Carvoeiro quando um tripé maleável assalta o meu campo de visão. Atrás, uma senhora com um biquíni malparecido e berrante. De telemóvel preso àquele dispositivo, ajoelha-se de súbito e começa a exibir – penso eu – o que deu lugar a uma combinação de espasmos e pequenos acidentes cardiovasculares. A maré avançava, o tripé desequilibrava-se e era arrastado pelo ímpeto da água, a proprietária erguia-se sobressaltada e voltava a montar o cenário. No período que compreendeu as 11:30h e as 14h, este processo repetiu-se cinco vezes, de forma espaçada. Sempre que o tripé honrou o seu nome, a pessoa de género feminino, para além de se contorcer devagar e – acha ela – sedutoramente, desapertava e apertava uma espécie de alças que seguram a parte inferior do biquíni.

A primeira observação que teço – por sinal, é comum à observação das pessoas de sexo masculino que lerem este texto – aponta no sentido de a mulher não se ter despido nem de ter simulado nada relativo à palavra “nu”. Nem um mero seio. Os Cadernos de Dom Rigoberto e todo o erotismo/sensualidade intrínseco não só à personagem de Lucrecia como também às referências artísticas e estéticas que povoam o livro podem ter catapultado esta noção para o primeiro lugar das prioridades. A proprietária do tripé não se assemelhava em nada a uma Justita sequer, mas nua podia fazer sonhar. Tudo sob o véu da ignorância e não foi por falta de ajuda da água.

A segunda observação que teço surge em forma de pergunta. Aos leitores que se situem no Carvoeiro ou que já tenham assistido a um caso idêntico mais a Norte ou a Centro: em que website disponibilizam as imagens a que assisti sem o incómodo dos anúncios e da publicidade virtual? No caso de lidarmos com uma plataforma mais vetusta, que revista assino para obter este conteúdo? Quero descortinar as fontes o mais rápido possível de maneira a falar com os responsáveis porque a circulação deste fenómeno é imprópria e abusiva. A senhora tinha algum potencial, mas o sargaço estragava-lhe o ritual. Quando se levantava, salientaram-se as marcas das pequenas e grandes conchas nos joelhos. Este verão, o telemóvel da proprietária de tripé mergulhou no mar mais vezes do que eu e não há arroz de qualidade alguma que o salve. Um problema nunca vem só, pois não?

A terceira observação expressa uma forte exasperação. Durante a atuação de uma ilustre desconhecida, as Bolas de Berlim deviam ser vendidas sem emitir sons que fujam do espetro audível e sem a prática de movimentos que desconcertem quem gosta de apreciar Arte e dela retirar prazer. Está visto que não se pode ser hedonista neste país. A Cultura está como está também por culpa destes vendedores ambulantes. Espanta-me que ninguém seja capaz de propor uma revisão constitucional, entristece-me até. Então quando versam os seus produtos ao ritmo de música de António Manuel Mateus Antunes – citando a Wikipédia – e, simultaneamente, colocam a mão sobre o ombro delicada e levemente o melhor é mesmo esquecer: realizo greve de fome e vou até às consequências mais drásticas.

Nisto, a mulher do tripé cansa-se e regressa à toalha. Volvidos alguns minutos, o vendedor ambulante passa novamente por mim e, nessa altura, inquiri-o sobre o porquê de não vender as suas bolinhas ao som de Plácido Domingo, por exemplo. Ele expôs as suas razões e voltou a colocar a mão sobre o meu ombro. Tentou vender-me uma bolinha, mas resisti porque não compactuo com a atitude dele. Vou dizer-lhe isto quando nos encontramos no Brady’s Irish Pub, por volta das 23h, para tomar uma bebida.

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