Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
E lá vai a quarta parte da centena! Parabéns, Romão! Hurra, hurra, hurra! Não, leitor, não quero que vocifere como o animal que mais teme – parto do pressuposto de que o porte do irracional é superior ao pequeno/médio. Trata-se apenas de um congratular, de um brado de contentamento, de um urro de suprema felicidade. Afinal, não é todos os dias que alguém alcança uma marca tão prestigiada como a do vigésimo quinto texto. Rio desbragadamente dos que dizem – remexam a consciência ao estilo do tilintar de uma colher na chávena – que a auto-felicitação é vil e humilhante. Alongar-me sobre este assunto só iria estragar a minha comemoração. Sou (muito) mais do que isso.
O leitor não entende a quantidade incontável de coisas que eu já conquistei. Se a contagem for balizada somente entre o fim do Ensino Secundário e o momento atual, eu já tenho pano para mangas. Senhoras mangas. Nem lhe passa pela cabeça a panóplia de coisas que já se passaram na minha vida. Eu tenho um historial do qual ninguém faz ideia e poucos se atrevem a adivinhar. Já passei tanto, já chorei tanto, já suplantei tantas dificuldades. Só quem me conhece desde criança sabe. E mais uma ou dez cachopas que comigo privaram em noites tórridas. Lancei a semente para fertilização mental. Espero que resulte. Gabarolas!? Não. Apenas verdadeiro.
Depois de retirar, a papel químico, uma filosofia de algibeira dos tempos modernos – as tiradas de Aquilino Ribeiro, enquanto desempoeirava os registos e informações acerca da Casa Grande de Romarigães tinham outra pinta, digam o que disserem – de um post de Instagram, vejo-me forçado a admitir que estou compenetrado numa verruga. A melhor maneira que encontrei para declarar a minha obsessão foi esta. Os julgamentos em praça pública e os cancelamentos ainda não me dilaceraram, mas há sempre uma primeira vez, “há sempre um fardo que se aninha no meu peito”. Bonita frase, não é!? Ainda há força para negar a utilidade do copy paste?
Em criança, o fascínio pelo rústico apanhou-me desprevenido. As pessoas da terra, nomeadamente as mais idosas, carregavam inúmeros sacos, com toda a parafernália e mais alguma. Desconheço a fonte de tanta robustez. Adoraria beber de lá umas gotinhas, só para não cair na tentação de bater com os costados no ginásio mais próximo porque já estamos junho e o meu corpo está tão firme e esbelto quanto os sopapos que o Jake LaMotta providencia aos adversários. Voltando às pernas arqueadas. Havia um elemento em comum em todos os sacos: couve. Todas as senhoras transportavam aquela couve vivaça, nenhuma gorava sequer de aspeto dúbio. Uma pessoa que saiba escolher couve vale por duas ou três. Ensinaram-me isto desde pequeno. Há de ser útil, certamente.
Para além das trouxas, a ruralidade fazia-se acompanhar, cinco em nove vezes, de verruga na fisionomia. Atenção, pequenas protuberâncias bem desenhadas, bem limadas, bem peludas. Se ignorássemos o facto de o melanoma provir do parto, diríamos que aquilo estaria tão bem feitinho que nos predispúnhamos a ficar com o contacto do artista. As diferentes tonalidades de castanho e formas causavam-me, simultaneamente, estranheza e deslumbramento: desde a (quase) esfera perfeita, sem pontas, à bolinha que parecia expelir pequenos grumos e coágulos. Tudo era espanto, tudo era boca à espera de entrada de mosca. “O seu neto olha para mim com um espanto. Estou a falar para ele e não é capaz de me dizer uma palavra. Fica calado. Parece sempre surpreendido com alguma coisa.”, diziam.
O pensamento recuperava aqueles momentos, a cada passo. Cresci e as excrescência de peles das mulheres que percorriam as ruas da minha terra de lés a lés tiveram um papel fundamental no (meu) discreto amadurecimento. Devo-lhes respeito e agradeço-lhes por estimularem a retidão do meu semblante quando algo não está em conformidade com aquilo que é (ou parece) mais natural. Prova disso, é a destreza que encerro em reconhecer cada uma delas – e recriar a imagem das falecidas – quando nos cruzámos. Com nomes, é sempre mais difícil, porque a memória já faz rasteiras e prega algumas partidas de mau gosto. A uma distância relativa, pela posição da verruga, já perceciono quem irá parar diante de mim, perguntar se eu sou o neto da Fina e constatar a voragem do tempo.
Diz-se que a parcela de rugas que uma pessoa acumula personifica os cadilhos que suplantou até à data e da facilidade (ou dificuldade) que os mesmos compreenderam, dependendo do vinco. Aos sinais castanhos, não reconheço – nem ouvi/oiço reconhecer – personificações, alegorias ou metáforas de ordem semelhante. Nem com um simples animismo se valoriza a marca castanha. A diferença de tratamento é gritante e impercetível, a meu ver. Até agora, só a Nanny McPhee e alguns familiares se devem ter sentado à mesa e debatido, após a refeição, a emancipação deste elemento e travado batalhas em defesa do “verruguismo”.
Somos aquilo que está pendurado no semblante. Lembrem-se disso. Urge introduzir este tema nas hordas da sociedade civil e domar as perspetivas mais facínoras em relação ao melanoma. Se for preciso, saímos à rua com armas.
Bebam chá. Forniquem. Amem. E as verrugas aparecem.
P.S: Quero conhecer bibliófilos que sintam Amor e que degustem um Chá enquanto folheiam Yasunari Kawabata.