OPINIÃO: Destino – conhecido aniversário

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Ontem, marquei presença numa festa de aniversário e recolhi os seguintes apontamentos: os sogros, sogras e outras almas a um passo do trespasse para outro compartimento espiritual rogam um regresso, que varia entre o ano de 1956, cujo passeio pelo campo de trigo com ciprestes junto à donzela com uma saia padronizada a la toalha de pic-nic, e os últimos 20 minutos, período no qual repetiram quatro vezes a frase “filha, a sopa é de nabo ou de repolho? Se ma conseguires ralar, agradeço. Sabes que os dentes não são meus!”; à mocidade, tal lampejo existencial passa despercebido: a correria infernal no vasto universo de brincadeira, os trabalhos de casa e a escola, os desenhos animados, a colecção de cromos de competições internacionais de futebol e as danças para o TikTok ocupam a criançada até à 25a hora; por sua vez, os adultos salteiam a brevidade com a habitual carga de suplementos alimentares, belas demonstrações de exsudação pós-treino bi-diário e sucessivas fotografias, exibindo dedos estendidos, de mãos ladeadas, com a frase “she said yes!”.

De volta ao convite que me foi endereçado, importa esclarecer algo: no entender do aniversariante, represento uma amizade, embora recente; na minha visão, a pessoa encontra-se diante de uma portagem rodoviária e a contar os trocos necessários à abertura da cancela. No máximo, digo que é um conhecido. Espero querelas de incúria e letargia relacional no trato da vossa parte e, para defesa, apresentarei o respectivo libelo. Em Direito, dizem que para cada querela, há um libelo. Voltando à festa de aniversário. Conversa vai, conversa vem, copo de champagne para lá, acepipes topo de gama para cá, até uma criatura com um traje idêntico ao utilizado pelos Heróis do Mar – quando estes decidiram inspirar-se na Siderurgia Nacional – embater com o garfo no copo de vidro com o móbil de cessar o ruído e anunciar o canto de parabéns. A inteligência do ser humano mede-se nestes rasgos. A sala baixou o tom, rodeou a mesa onde resplandecia o bolo de aniversário e armou-se em Rui Pregal da Cunha.

A melopeia é toada por um tio proveniente de Freixo de Espada à Cinta, se não me falha a memória. Inicialmente, todos seguiram o experiente artista e juntaram, à cantilena, palmas tão sincronizadas quanto o formato da natação. A meio do espectáculo, alguns tomam a iniciativa do dissídio, optando por recomeçar o canto e entremeá-lo com o existente. O percursor de tal insubmissão foi Gisela, uma prima de segundo grau, residente na Guarda, solteira, nail artist e membro da claque da AD Fornos de Algodres. A breve descrição é citada. Geram-se gargalhadas, metade dos presentes sente-se defraudada pela partida levada a cabo por Gisela e remete a intervenção à palma seca. Durante este festim, limitei a minha performance ao playback. Há quem considere uma incongruência da minha parte adoptá-lo pelo facto de não o enxergar quando as estações televisivas teimam em aconchegá-lo, diária ou semanalmente. E têm razão. Aquele momento merecia, no mínimo, uma interpretação análoga à de Marilyn Monroe, no 45o aniversário de John. F. Kennedy. Apesar da ausência do vestido preto, a criatura com o fato inspirado na Siderurgia Nacional poderia ter dado um ar da sua graça.

Para espanto geral, a terceira estância do poema épico é interpretada pelo avô do meu conhecido, repleto de purpurinas e pinturas faciais, aplicadas na brincadeira com os mais pequenos. O frondoso bigode reverberava tal era a pujança vocal do indivíduo. O arranjo do barítono nos versos “Tenha tudo de bom / Do que a vida contém / Tenha muita saúde / E amigos também.” embeveceu a plateia que prontamente o congratulou. Os aplausos sumptuosos substituíram a palma tradicional, de classe média-baixa. Naquele instante, a extremidade dos dedos de uma mão limitava-se a tocar a palma da outra. Faustoso momento. Um dos pontos altos da noite, remataram uns familiares situados atrás de mim. Curiosamente, por oposição, a namorada apressou-se a cortar o bolo, dividindo-o em fatias homogéneas, ao passo que a primeira é deglutida por si, sem cerimónia. Depois de um mini concerto de ópera, talvez se coma caviar. De boca fechada, por certo. Comer bolo, de mandíbula tão aberta que o bocejo se confunde com a mastigação, é inadequado. Depois de uma actuação dos D.A.M.A, admito que aconteça.

Concluída a praxe, retomaram-se as conversas interrompidas no local exacto. Auxiliado pelo bloco do qual me socorro, preparava-me para recolher novíssimos ensinamentos – a institucionalização do saber nada tem que ver com a filosofia do idadismo e prova disso radica no facto de um imberbe, do alto dos seus oito anos, me ter explicado o brain rot alicerçado no “six seven” – quando oiço uma voz feminina exclamar “Pede um desejo! Tens de trincar as duas velas e pedir o número de desejos do último algarismo!”. O aniversariante completou 29 anos e, face a tal acontecimento, uma tia do rapaz tartamudeou, consternada, com o marido “Nove desejos? Até finalizar a lista, estaremos aqui num silêncio tétrico!?”. A namorada do meu conhecido ouviu e, com escassas gotas de sangue no álcool, lançou-se ao gasganete da tia. “Bruxa! Deixa-o pedir os 9 desejos! Qual é o mal? Tens sempre de lhe cortar as asas? Quando ele te pediu o Tamagochi, naquela célebre tarde invernosa de 1999, não acedeste. Ainda hoje anda no psicólogo à pala disso”.

Ejaculada a bílis, a cara metade desacelerou o batimento cardíaco. Os rostos, circunspectos e sisudos, iam apalpando o ambiente do compartimento através do cruzamento das retinas. Mais calma, prosseguiu, dizendo “se ele reportar ao número das dezenas, terá mau-olhado. Nas histórias fantásticas, o número de desejos concedidos é o três. Pedir 29 redundava no exagero. Nove é o meio termo, neste caso”. Assim foi. Em cinco minutos, a questão ficou arrumada. O diálogo retomou na segunda interrupção e os talheres e copos entraram ao serviço do apetite de cada convidado. Num canto, resgatei o pequeno caderno da algibeira e ative-me a elencar os possíveis anelos e respectivas combinações. Em minha posse, só reunia informação relativa ao clube do qual é adepto, ao membro predilecto das Doce, à porção diária de proteína ingerida e ao raio-X efectuado ao intestino delgado, datado da altura da suspeita de trânsito e da presença do sr. Crohn. A teia de pundonor na qual me emaranho impossibilita a divulgação da lista.

No protocolo de aniversário, faltou colocar a etiqueta da abertura dos presentes. A minha companheira, amiga de longa data do aniversariante, a meio da viagem para o local de celebração, confessou ter comprado um peça de porcelana e que lha iria oferecer quando regressássemos. Mais concretamente, o Prato Marcador Alma de Braga, producto da Vista Alegre. Visivelmente agastado, perguntei o porquê de não me incluir naquela demonstração de afecto. Desculpou-se com a falta de lembrança e com a referência à oferta da camisola vintage do Sporting da Covilhã, há duas semanas. Enfim, mulheres. À pressa, remexi a carteira e encontrei 29€. Embrulhei-os no papel disponível na traseira do automóvel. A minha munição era aquela. À última hora, foi o que se pode arranjar. Sem causar alarido, antes de deparar com o visado, pesquisei rapidamente o prato comprado pela minha companheira. Custou 58€ e ela gastou-os com o amigo. Como é apenas meu conhecido, gastei metade. “O final feliz do amor moderno só pode ser algo parecido a isto”, pensei. Para o próximo aniversário, sem pretender confrontar a sorte, trincarei velas e pedirei sete desejos.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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