O amigo leitor talvez esteja familiarizado com esta expressão, pois esta serviu de título para um romance de autoria de James Fenimore Cooper (1826) e para alguns filmes baseados nesse romance, datados de 1920, 1936, 1977 e 1992.
Esse romance narra a história de Hawkeye, um homem branco criado pelos índios moicanos, e Uncas, o último guerreiro da tribo moicana, que teria ocorrido durante a guerra dos sete anos, no continente americano.
Com o passar do tempo, essa expressão passou a ser usada para descrever alguém que é o último representante de um grupo ou de uma tradição e que sofre quando vê que essas tradições não estão a ser cumpridas ou, pior do que isso, estão a ser esquecidas!
Com efeito, eu, um professor de sessenta e dois anos, cada vez mais sinto-me na pele do “último dos moicanos”!
Quando eu vim para o ensino, em meados de 1992, eu tinha acabado de me formar como bacharel em Engenharia Química e tinha ido fazer um pequeno estágio na Alemanha. Na altura, os professores eram tratados como “senhor doutor” e eu não era exceção, muito embora os meus alunos habitualmente usassem a corruptela “setor”, em vez de “senhor doutor”… Como é óbvio, eu não me sentia “doutor” nenhum, pois não era médico e não tinha o doutoramento, mas confesso que ficava contente quando via que eles, os meus alunos, me tratavam por “setor”, não por se sentirem menos do que eu, mas por me estimarem como alguém que, sabendo mais de físico-química do que eles, tentava lhes repassar o conhecimento que eventualmente poderiam necessitar no futuro nas suas vidas pessoais e profissionais, da melhor maneira que podia e sabia…
Bons tempos aqueles! A função da escola de ensinar e de socializar podia ser sentida e, enquanto os alunos mais interessados procuravam aprender o máximo que podiam, os menos interessados tentavam, pelo menos, não perder o fio da meada e pelo menos, passar de ano… A imensa generalidade dos alunos respeitava os colegas que queriam aprender e acatava as recomendações dadas pelos seus professores sem ser necessário muito esforço destes últimos… Claro que as exceções ocorriam, pois nem sempre era assim, mas esta era a regra! Mas esse tempo já se foi!
Nos últimos tempos não tem sido raro encontrar turmas nas quais os alunos desrespeitam-se mutuamente, por vezes, até na frente dos professores… É cada vez mais difícil para os docentes lecionar a matéria em condições adequadas de atenção por parte dos alunos que, longe de quererem aprender, demonstram estar ali na sala de aula apenas para cumprir calendário, sem qualquer interesse pelo que é transmitido! Nem mesmo as tão propaladas novas tecnologias têm sido vistas pelos alunos como uma motivação adequada para que se decidam a aprender e estes já revelam algum descaso, algum enfado relativamente a elas… Com a falha da motivação discente, é cada vez mais difícil dar aulas… Se compararmos a construção de conhecimentos por parte dos alunos com a construção de uma parede, é fácil perceber que, quando as primeiras etapas falham, o normal é que o restante falhe e, eventualmente, desabe… Com efeito, se os alunos não conseguirem reunir os conhecimentos iniciais (por desinteresse, por desatenção ou por qualquer outro motivo), a aquisição de todo o conhecimento restante será mais penosa para eles e haverá uma probabilidade cada vez maior do desinteresse e da desmotivação aumentar, funcionando a partir desse facto um ciclo vicioso no qual o desinteresse gera ignorância e esta gera mais desinteresse no futuro.
Seria suposto que com tantos alunos desinteressados, o índice de retenções e de reprovações também aumentasse, o que, por incrível que pareça, não tem ocorrido! Não me cabe discutir esse facto, mas os últimos resultados de Pisa não permitem que esqueçamos dos problemas que têm sido vividos…
Enquanto isso, infelizmente ainda há quem não valorize a escola, o que não melhora a situação. Essa desvalorização da escola foi sentida em particular quando foi ouvida uma voz que dizia que tinha perdido os professores, mas ganho a sociedade…. Claro que depois de os pais e encarregados, dos alunos e dos próprios professores terem ouvido isso da boca de alguém com responsabilidades governativas, a escola nunca mais foi a mesma…
Daí que eu, atualmente, me sinto como um dos “últimos moicanos”, a tentar resgatar as funções da escola (agora, meio perdidas ou esquecidas), que passam pelo ensinar e socializar os alunos…