Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
Nunca li um texto no qual se encetasse um parágrafo com letra que não fosse capital, seja por ortodoxia e conservadorismo gramatical de quem o escreve, seja por outro motivo que não esteja a compreender. Que demais razões existirão para começar parágrafos com letra minúscula? Quando me confronto com tal pensamento, esbarro numa cerca de arame farpado com altura duplamente superior à maior escada que possibilitaria a sua transposição. Neste cenário, outra reflexão se acerca: qual a fórmula química do cobre, esse metal de transição que, modelado por um fio, qualifica metaforicamente cabelos ruivos? Era tão bom a Físico-Química no 3.º Ciclo e tudo se me varreu.
Do que se segue, poucos falam. Toldados, quiçá, pelo medo e pela falta de coragem, embrenhados, possivelmente, na táctica que evita a ofensa e a exasperação do próximo ou orgulhosos da irresponsabilidade que transparecem. Não interessa, eu sou livre e falo sem receio. Um dos maiores flagícios da actualidade prende-se com o facto de os portugueses não responderem, semanal ou mensalmente (e aqui já se trata de esticar a corda), em que fase da vida é que se encontram: a falha consome vorazmente o país e erode as relações interpessoais que virão a ser estabelecidas. Mas erode fortemente. Erode mesmo muito.
O cérebro segrega as duas temáticas, considera o que acha por bem considerar, elenca vantagens e desvantagens numa lista, pondera com alguma parcimónia, decide enveredar pela segunda e esquece-se de rasurar a primeira.
A frase “neste momento, estou numa fase da minha vida em que não me quero chatear com ninguém. Só quero paz e sossego” ecoa na minha cabeça e abespinha-me as entranhas pela previsibilidade e pela ausência do envidamento de esforço neste assunto. Sempre que interpelo uma pessoa acerca desta problemática, a citação surge por forma a amenizar a situação desfavorável ao interpelado e tenta edificar a absolvição daquele que é culpado. Este prevaricador é da família dos mortais que, perante um pacote de bolachas partilhado, retiram as últimas duas com o mesmo atrevimento de que o padre Cabral se muniu para dizer que a aprendizagem do latim não era destinada ao género feminino. O gracejo estava lá, bem como a desculpa em forma de penso rápido.
Em Portugal, o silêncio em torno do esclarecimento pessoal sobre as fases da vida é ensurdecedor. Quais os últimos investimentos realizados nesta matéria e há quanto tempo se arrastam os mecanismos vetustos? Neste espaço, há desafogos atrás, assumi que as gerações que liderarão o país, nas mais diversas frentes, vivem uma crise de valores e uma crise de identidade que lhe está associada. Não tenho dúvidas disso. Os progenitores, sabe-se lá por que perrice, educam os rebentos no sentido contrário à declaração do estado de espírito que os caracteriza durante o período definido pelo Instituto de Declaração da Fase da Vida – IDFV para os que entendem da poda – e recusam o manancial de ensinamentos que os altos dignatários e fundadores de uma das agremiações mais importantes para o desenvolvimento da nossa pátria lhes providenciou sem custos adicionais e impostos de ordem distinta.
A sociedade desacreditou as práticas do IDFV à velocidade que Bentinho e Capitu, após um afagar de cabelo perpetrado pelo primeiro, aproximaram e afastaram os lábios, repelindo-se. De acordo com a informação recolhida e com os estudos efectuados ao longo da última década, constata-se que o laço que unia a população à declaração da fase da vida experimentou lassidão e acabou por se tornar na roupa que decidimos colocar na gaveta “peças para usar exclusivamente em casa”, num dia outonal. Não há, por isso, um momento específico que determine a ruptura e o divórcio entre as duas variáveis. Contudo, honrando a prática lusitana, a acção é convocada apenas quando o Inverno e a intempérie já fez mossa.
A partir do momento em que celebrei 16 anos, os antepassados familiares ensinaram-me a valorizar a declaração da fase da vida, razão pela qual o tema capta a minha estima. Até as pessoas de idade mais avançada, essa espécie de progenitor que raramente faz do sermão e da bofetada baluartes da educação familiar, descuram os valores que lhes foram transmitidos há tempos imemoriais e compactuam com a razia que se faz sentir na declaração da fase da vida em que se encontram. Para toda o caso e regra, existe excepção, como bem sabem. “Antigamente – estou a citar a minha avó – os avós admitiam que já não estavam na fase de se chatearem com familiares e amigos e, somente depois de tal declaração, procediam então à ofensa que não o era porque ele/a é assim/injúria que não se pode ligar porque pois ele/a está velho e devemos tolerar. Agora, construímos infâmias sem divulgar a fase da vida em que se encontram? Que bandalheira é esta?”.
Enquanto defensor inveterado e sócio pagante do IDFV, aceitaria, de bom grado, se a frase “aquela fulana está sempre a bradar que vai morrer e que quer morrer e nunca mais morre, ca*****” fosse precedida de um aviso da fase da vida em que o/a querido/a ancião/ã se encontrava. Caso contrário, seria infame e grosseiro não providenciar um raspanete deste género: avô/avó – com o aviso prévio de declaração da fase da vida em que me encontro – manifesto o meu desagrado por conceder traques sem que modifique os traços que regimentam o semblante, voltando à actividade que desempenhava, e por se tornar no protótipo mais fiel de um Soprano quando pretende oferecer dinheiro a um filho/neto/sobrinho, sempre que a visita, a pretexto da compra de um gelado ou de um chocolate.
Estou numa fase da vida em que me preocupa que tente fazer uma ligação – mesmo que nada dela surta – entre o facto de não saber o símbolo químico do cobre e o facto de os idosos soltarem puns em barda.
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.