OPINIÃO: A graça que só encontrou graça hoje. Talvez por estar numa caverna

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Agora sim, é oficial. Ontem, o humorista Arlindo Pêra estreou-se no Politeama. As piadas foram divertidas até ao quarto de hora e diz-se que o público conseguiu controlar os enjoos com a distribuição de Vomidrines por parte do staff, mas o pós-espectáculo acabou com um desaguisado entre o protagonista e o jornalista da CNN.

(entra a videotape)

Os sons emitidos pelas bocas da plateia transfiguram-se numa sinfonia desordenada de sirenes. Os aplausos entrecortam o ruído e as palavras que teimam em não vingar na oralidade. Pressente-se o silêncio, sente-se a depressão a cutucar a euforia, ressente-se a epiderme e, inesperadamente, a pele de galinha é servida para entrada no mundinho do crédito público. Os lábios desapegam-se, espreita a muralha dentária e, na altura em que a voz desce as escadas para sair à rua, o contracto social implícito entre as duas partes volta a cumprir-se. Com a dose anémica reduzida para um quarto da primeira, talvez. Fruto da excitação, quatro elementos sentados na segunda fila expeliram baba e substâncias de viscosidade ímpar segregadas pelas mucosas nasais.

Qual o significado desta retumbante vitória no universo da comicidade?

– Foi um óptimo espectáculo. Entrei calmo, mas forte e decidido a colocar uma pedra tumular sobre dichotes disparatados quanto à minha capacidade para provocar a hilaridade. Quando arranquei a primeira gargalhada, as piadas escoaram do meu cérebro. Nada está ganho, até porque falta um acto para a cena encerrar. Estou a viver um sonho e esta digressão está a atropelar qualquer receio ou estado apreensivo que se assenhoreasse de mim. É imperativo manter a frieza e a lucidez. Não nos podemos iludir. Espectáculo a espectáculo, seguimos fortes.

Que palavra tem para a plateia e para a forma como sentiu as gargalhadas?

– Agradeço, desde já, o apoio e o carinho demonstrados. Eles são incansáveis na produção de barulhos hílares – desde a roncopatia hílare até ao “kkkkkkkkkkkkkk” oriundo da terra de Vera Cruz, com passagem pelo “LOL” e pelos cartazes erguidos com o emoji do boneco que chora e ri”. Dentro de portas, foi o que se viu. Fora de portas, aguardam-me vários conjuntos de pessoas à semelhança do que acontece com o estado gasoso de matérias. Quando pergunto se posso dadivá-los com um autógrafo ou com uma fotografia que accionará futuros sorrisos, não obtenho resposta da maioria e, da minoria, ecoa um “Assim não. Só se fizer um corte a la garçonne e reproduzir algumas frases da Beatriz Costa”.

Como explica aquele lance de pura inspiração individual, no qual mistura notas biográficas de Eládio Clímaco e Saddam Hussein, enquanto brune camisas de linho repletas de vincos?

– Modéstia à parte, o lance não corresponde a um rasgo ou a um acto iluminado. Eu tinha vindo a treinar essa movimentação faz alguns meses. Sempre que subia a um palco, antes de uma actuação, aprimorava a performance com a visualização de partes dos Jogos Sem Fronteiras e imitava todos os passos de sr. Televisão. Digam o que disserem, para mim, o Júlio Isidro nunca poderá ser considerado com tal epíteto. É desrespeitoso.

De que forma se inspirou em Saddam Hussein? Que ensinamentos retira da sua estadia no globo?

– Saddam foi deveras importante na construção do remate da piada. Os críticos empunham as mangueiras com pedras a aproximarem-se do corpo dos desobedientes e as garrafas inseridas no ânus de xiitas e opositores internos e partidas ao pontapé. E a experiência gastronómica proporcionada aos soldados, em altura de conflito armado? E o atravessar de um rio a revezar entre crawl, costas, peito e borboleta? E o alfaiate italiano de gabarito que vestia os seus empregados? Com alguma sorte no encadeamento, acabei por aniquilar o sulco na região da axila que se formava.

O que espera deste fim de digressão cómica? Cumpriu todas as expectativas?

– Espero o que toda a massa que se associa a mim espera: a presença no Worten Mock Fest. O objectivo foi assumido no início do ano civil e, juntamente com o staff que me resguarda e com as bimbas que me dão trabalho a engatar, trabalho todos os dias em prol dessa conquista. Reconhecemos que o esforço nem sempre sai recompensado e só controlamos a labuta e a faxina diária. Uma coisa garanto: entre a vaca e o berlinde, prefiro o segundo. E, no final, gerimos as expectativas conforme os juízos realizados durante a última actuação.

A expressão “entre a vaca e o berlinde, prefiro o segundo?” esconde que mensagem?

– Não me quero alongar. Acho que fui claro e conciso. Toda a gente percebeu o que quis dizer. A minha orientação alimentar é do conhecimento do público. Seja jornalista, não necrófago informativo.

Ainda há tempo para mais uma pergunta?

– Estou com o semblante contemplativo em direcção à câmara, não estou? Aproveite o altruísmo. Estou habituado a que me peçam o braço quando só ofereço a mão.

Muito bem. Aqui vai. O próximo sábado é o dia que antecede as eleições legislativas. Em quem irá votar?

– A sua última pergunta é esta? A sério? Depois de um espectáculo de comédia desta estirpe? Nem merece resposta. Passe bem.

(sai a videotape, regressa o pivot)

Foi a resposta de Arlindo Pêra, o humorista de Sever do Vouga. A minha mãe sempre me disse que teria jeito para apresentar um noticiário. Aquelas tardes de domingo a imitar a Maria Elisa eram um festim. A gruta onde me encontro deu-me palco e, para ser honesto, repetia. Gostei da sensação.

Isto de caçar mamutes com paus e pedras anda a perder a piada.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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