OPINIÃO: Felizmente, é só a extracção de uma conversa que escutei enquanto bebericava uma infusão no Majestic

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

“E que tal o debitar de um apontamento avulso, ausente de qualquer solidez e estudos comprovativos? Oh, não tentem desmanchar o prazer que sentirei ao executar a tarefa a que me propus: um cronista, bem como um contista ou ensaísta, e demais sufixos elevados a -ista, exerce o mesmíssimo métier desempenhado pelo arrumador de carros. Fá-lo, evidentemente, com palavras. Mais vale clarear de início, não vá o veículo aparecer riscado e sem três pneus. Os escritores com quem tenho pleiteado em parques de estacionamento transparecem sede de vingança e pouca higiene oral.”

“Estamos em 2025, correcto? Surpreendo-me, a cada passo. E pelos piores motivos. Comparar artesãos da palavra e operários do vocábulo de diferentes plêiadas com cidadãos que se dignam a fazer dos parques de estacionamento o arquivo a céu aberto mais organizado da história das arrumações, somente atrás do Cemitério dos Prazeres, segundo as pontuações do fidedigno TripAdvisor? Que descaramento. Mas a falta de conhecimento elementar não fica por aqui! Sede de vingança? Eis as questões que lanço para debate: (1) A vingança mata a sede? Seria um desprestígio para a água, depois de anos a fio a liderar essa frente; (2) a vingança é bebericada ou deglutida? Se alguém a ingeriu, ou degustou num restaurante da moda, solicito prova fotográfica e descrição pormenorizada do sabor; (3) se a vingança possuir teor alcoólico, que medidas serão apresentadas para regular a venda a menores?”

“Malta, mantenham a ira e a postura do insulto. Pautem-se por aquilo que nos segrega – etnia, orientação sexual, condição social, religião, etc. – e denigram as imagens dos restantes membros. Nesta caixa, não admitimos opiniões/juízos que procurem evidenciar apenas as diferenças de posição dos vários elementos. Queremos suor, sangue e lágrimas. Sim, o suor vem primeiro porque, para completar determinada missão, um indivíduo transpira desmesuradamente, depois aleija-se ligeira ou gravemente e, posteriormente, lacrimeja. Este grupo denomina-se por ‘Verdadeiros de Afife – não há paciência para falsos moralistas’, façam jus ao nome. Unam-se no discurso de ódio. A discriminação começa agora.”

“Uma pessoa bem informada sabe, de antemão, que os arrumadores de carros encerram um maior número de comparações com os bibliotecários. A não-existência/existência da espécie é tema para debate noutro local, onde a filosofia jorra. Aliás, os bibliotecários, após estacionarem todas as enciclopédias consultadas na respectiva estante, estendem a mão e abanam-na, gesto sobejamente conhecido no mundo da pedinchice. Quantos e quantos já coleccionei, com falta de dedos na mão ou de parte deles. Mas é uma profissão tão suja, tão precária, tão sujeita às alterações climáticas. Ajudei-os até os meus olhos serem incapazes de suportar a aflição. Desde então, virei-me para os alfarrabistas e estou a meio de encher um pote de barro com moedas de cinquenta cêntimos.”

“Em Semana Santa, perdoemos a quem rega os seus dizeres com húmus. A imbecilidade está a brotar de onde? Já descobriram o buraco? Deus nos livre da parvoíce. Urge estender a política tarifária ao discurso. Profissões com peculiaridades tão demarcadas como as enunciadas são incomparáveis. Um arrumador, um bibliotecário e alguém que ganha dinheiro com a escrita servem para compor a sociedade, para o mal e para o bem. Deixem-me que vos relate o seguinte: trabalhei, durante alguns anos, para uma empresa no centro de Braga e, numa ocasião, no parque de estacionamento destinado aos veículos dos colaboradores, contactei com um arrumador. Ele não estendia a mão, surgia asseado diariamente e exibia o branqueamento na dentição mais rigoroso que vira até então. Na primeira interacção, após o ter questionado sobre o nome do profissional que ergueu o milagre professado, contou o desejo que sentia em tornar-se num dos medianos das Humanidades. Na segunda interacção, contou que não dava descanso à vista fazia 72 horas dali a nada. A perplexidade cortou-me o pio. Após um breve silêncio, disse-me que já tinha pseudónimo: chamar-se-ia Virgílio Pla(n)tão.”

“É muito difícil ler as opiniões anteriores e não me sentir impelido em laminar os braços e as pernas. Actualmente, as pessoas são tão boçais que estimulam a comiseração das pedras da calçada. ‘Arrumar os carros’ é destinado a pessoas que injectam soluções aquosas, cheiram pós brancos e fumam cigarros que não são cigarros. Mas onde é que esta gente pensa que vive? Em Baltimore? Em Medellín? Em Antuérpia? Poupem-me. Estes ‘profissionais’ nem a estacionar o carro ajudam e limitam-se a fazer gestos – por vezes, imperceptíveis – direccionados ao condutor. Uns trabalham diariamente para pagar as contas e para criar os filhos, outros andam ao ritmo da ventania. Tolerância zero com os pulhas. A classe que dirige este país anda a dormir há uma série de anos. E continuará, porque isto lhes dá jeito. A eles e às pessoas que controlam o mundo. Àqueles três ou quatro que se reúnem em Zurique, uma vez por semana.”

Podia ser o excerto de uma conversa de café, uma selecção aleatória de comentários de uma rede social com tal funcionalidade, a extracção de partes de uma mesa-redonda com lugar no Big Brother ou um devaneio de um youtuber que fosse alvo da mira afinadíssima d’Os Primos. Felizmente, é só a extracção de uma conversa que escutei enquanto bebericava uma infusão no Majestic.

E.M. Forster admitiu que não era um grande romancista e tinha presente essa noção. Depois do que acabaram de ler, eu encurto a distância da ousadia e, modestamente, afirmo o facto de ter estatura normal e de estar bem resolvido com isso.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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